Metodologias & Qualidade

Umidade do carvão vegetal: case Green Belt de 6,94% para 5,26%

Um projeto real numa produtora de carvão vegetal, contado pelas cinco fases do DMAIC: o Pareto que isolou a umidade, a carta que separou chuva e seca, a capabilidade com Cpk negativo, as matrizes que reduziram 48 causas a oito e o resultado acima da meta.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  17 min de leitura
Thiago Coutinho falando ao microfone em palco de evento, com o texto Umidade do carvão vegetal: case Green Belt de 6,94% para 5,26% sobre fundo escuro à esquerda

Carvão vegetal é vendido por peso, e parte desse peso é água. Quando a umidade sobe, a usina recebe menos carbono por tonelada paga, o lote sai da especificação e a conversa com o cliente azeda.

Na VoittoCarbon, uma produtora de carvão vegetal que abastece uma usina siderúrgica, a umidade do carvão vegetal recebido estava em 6,94% na média. Uma análise das não conformidades mostrou que ela respondia por 76% das reclamações de especificação.

Um Green Belt assumiu o problema com a meta de levar a média para 5,52% e um ganho previsto de R$ 1.600.000 por ano. O projeto seguiu as cinco fases do DMAIC e terminou com média de 5,26% e R$ 1.874.500 de ganho real acumulado.

Este artigo percorre o projeto fase a fase. Mostra como ler cada gráfico que a equipe usou, da carta I-MR que separou a chuva da seca até a capabilidade com Cpk negativo, e que decisão cada um produziu.

O case é um projeto real de aluno da formação Green Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente. Os números vêm da apresentação original do projeto. O que foi acrescentado para explicar, como o contexto do processo de carbonização e os exemplos de cálculo, está identificado como ilustrativo ao longo do texto.

Do eucalipto ao alto-forno: onde a água entra no carvão vegetal

Para o leitor que nunca viu uma carvoaria, vale o contexto, que é ilustrativo e não vem da apresentação. O carvão vegetal nasce da madeira, em geral eucalipto plantado, cortada e deixada secar no campo por alguns meses.

A madeira seca vai para fornos de alvenaria. Ali ela é aquecida com pouco oxigênio, num processo chamado carbonização, que expulsa água e compostos voláteis e deixa um material rico em carbono.

Depois de dias de queima, o forno é vedado para resfriar, descarregado, e o carvão vai para pátios de estocagem. Do pátio ele é amostrado, expedido em caminhões e analisado de novo na usina que o recebe.

A água pode voltar em quase todos esses pontos. Entra por fresta no forno durante o resfriamento, por chuva no pátio, por lona rasgada na pilha ou na carga e por mistura de carvão seco com carvão molhado na expedição.

Por isso a umidade do carvão vegetal é uma variável de processo inteiro, não de uma etapa. Esse detalhe explica por que a lista de causas do projeto acabou indo da chaminé do forno até o procedimento de coleta de amostra.

Por que cada ponto percentual de umidade pesa na conta da usina

Na siderurgia a carvão vegetal, o carvão é ao mesmo tempo combustível e agente que retira o oxigênio do minério de ferro no alto-forno. A usina compra carbono, e a água ocupa o lugar dele na balança.

Um exemplo ilustrativo ajuda a dimensionar. Numa entrega hipotética de 1.000 toneladas, cair de 6,94% para 5,26% de umidade representa 16,79 toneladas a menos de água transportada e paga como se fosse carvão.

Além do frete e do preço, a água precisa ser evaporada dentro do alto-forno, o que consome energia. Carvão úmido também tende a gerar mais finos no manuseio, outro item que aparece nas reclamações.

É esse conjunto que transforma uma diferença de décimos de ponto percentual num ganho previsto de R$ 1.600.000 por ano. O valor do projeto não está na umidade em si, mas no custo da má qualidade que ela carrega.

As 125 não conformidades que apontaram para a umidade

A fase Definir começou com um levantamento dos motivos pelos quais o carvão não atendia à especificação do cliente. Foram 125 ocorrências classificadas em cinco categorias e organizadas num diagrama de Pareto.

Motivo da não conformidadeOcorrênciasPercentualAcumulado
Umidade9576,0%76,0%
Finos1512,0%88,0%
Tamanho médio86,4%94,4%
Carbono fixo43,2%97,6%
Outros32,4%100,0%

A leitura é direta. As barras mostram a contagem de cada motivo em ordem decrescente, e a linha mostra o acumulado. Uma única categoria responde por três quartos do problema.

A decisão que o Pareto produziu foi de escopo. Em vez de um projeto genérico de qualidade do carvão, a equipe fechou o foco em umidade. Finos, granulometria e carbono fixo ficaram para outros ciclos, com cadeias causais próprias.

Essa escolha é a mais importante de um projeto Green Belt. Um projeto que ataca quatro defeitos ao mesmo tempo dilui o esforço e raramente consegue provar que alguma ação funcionou.

O charter do projeto: de 6,94% para 5,52% com R$ 1,6 milhão em jogo

Com o foco definido, o problema foi escrito em número. A umidade média do carvão recebido na usina era de 6,94%, e a meta era reduzi-la para 5,52%, uma queda de 20,5% sobre a média de partida.

CampoConteúdo
ProblemaUmidade média de 6,94% no carvão recebido na usina
Peso no problema76% das 125 não conformidades de especificação
Métrica primáriaUmidade média do carvão, em percentual
Especificação usada nas análisesLimite superior de 5,2% de umidade
MetaMédia de 5,52%
EscopoDa carbonização à expedição do carvão
Ganho previstoR$ 1.600.000 por ano
Ganho realR$ 1.874.500 acumulados após o início do projeto

Duas grandezas aparecem lado a lado e não devem ser confundidas. A meta trata da média do processo, 5,52%. O limite de 5,2% é o teto de especificação por amostra, usado no estudo de capabilidade.

Uma média de 5,52% ainda deixa muitas amostras acima de 5,2%. A equipe sabia disso e tratou a meta como um primeiro degrau, coisa comum quando o processo parte de um patamar tão baixo.

O charter também registrou o escopo: da carbonização à expedição. A umidade do carvão vegetal se forma nesse trecho, e é nele que a equipe tinha autoridade para mudar procedimento.

O mapa da madeira até o laboratório da usina

Antes de medir, a equipe desenhou o fluxo do processo. Ele vai da colheita ao recebimento na usina e tem três pontos de decisão que funcionam como filtros de qualidade.

  1. Colheita e recebimento da madeira, com verificação se ela atende ao padrão para carbonizar.
  2. Carregamento do forno, com inspeção de danos; forno danificado volta para a manutenção.
  3. Carbonização e verificação do resultado; o que não atende volta para a manutenção do forno.
  4. Descarregamento do forno e estocagem do carvão no pátio.
  5. Amostragem do carvão estocado; o lote que não atende segue para o blend.
  6. Expedição do carvão e análise no recebimento da usina.

O mapa tem a função de um SIPOC detalhado: fixa onde o processo começa e termina e mostra quem atua em cada etapa. Também revela o que a equipe ainda não controlava.

Dois pontos chamaram atenção. A manutenção do forno aparece em dois laços de retorno, o que sugere que a integridade do forno pesa na umidade. E o blend é a saída para o lote reprovado: carvão úmido não é descartado, é misturado.

A carta I-MR de 1.803 amostras e a fronteira entre seca e chuva

A fase Medir começou com uma carta de controle do tipo I-MR, de valores individuais e amplitude móvel. Ela é a escolha natural quando cada amostra é um resultado isolado de laboratório, sem subgrupo.

Elemento da cartaValor
Média geral da umidade6,417%
Limite superior de controle9,057%
Limite inferior de controle3,778%
Amplitude móvel média0,992
Limite superior da amplitude móvel3,243

A carta de cima mostra cada amostra no tempo. A de baixo mostra a diferença entre uma amostra e a seguinte, que indica a variação de curto prazo. Pontos vermelhos são violações dos limites.

O achado não foi um ponto isolado. A equipe dividiu a série em dois blocos, período seco e período de chuva, e o segundo bloco aparece deslocado para cima, com mais pontos encostando no limite superior.

Os pontos fora dos limites aparecem nos dois blocos, e a amplitude móvel tem dezenas de violações. Isso diz que, além da estação, havia causas especiais agindo amostra a amostra.

Duas estações, duas distribuições: o que o resumo estatístico confirmou

Para confirmar a leitura da carta, a equipe gerou um resumo descritivo separado para cada estação. A tabela traz os números da apresentação.

EstatísticaPeríodo de chuvaPeríodo seco
Amostras1.167636
Média6,709%5,882%
Desvio padrão1,1341,036
Mediana6,790%5,825%
Mínimo3,30%3,07%
Máximo9,42%9,49%
Intervalo de 95% para a média6,644 a 6,7745,801 a 5,963
Teste de normalidadep < 0,005p < 0,005

A conta fecha. A média ponderada das duas estações, 6,709 com peso 1.167 e 5,882 com peso 636, dá 6,417%, exatamente a linha central da carta I-MR.

Os intervalos de confiança das médias não se sobrepõem: a chuva fica entre 6,644 e 6,774, a seca entre 5,801 e 5,963. Na prática, isso equivale a um teste de hipótese que rejeita a igualdade das médias.

A diferença é de 0,83 ponto percentual. A conclusão operacional foi que o clima é um fator de variação real. Como não se controla a chuva, as ações teriam de proteger o carvão dela.

O teste de normalidade de Anderson-Darling deu valor-p abaixo de 0,005 nas duas estações, ou seja, os dados não são normais. Isso entra como ressalva na leitura da capabilidade mais adiante.

Seis unidades de produção no mesmo boxplot

O segundo corte foi por unidade de produção. A VoittoCarbon opera seis unidades, aqui chamadas de A a F, e a estratificação mostrou resultados divergentes entre elas.

UnidadeMediana aproximadaLeitura
A5,2%Na faixa intermediária
B5,6%Maior mediana e caixa mais alta
C4,6%Abaixo do limite de 5,2%
D4,6%Abaixo do limite de 5,2%
E4,1%Menor mediana do grupo
F5,4%Acima do limite de 5,2%

As medianas foram lidas no gráfico e são aproximadas. No boxplot, a linha dentro da caixa é a mediana, a caixa cobre os 50% centrais das amostras e as hastes mostram a dispersão restante.

Três unidades têm mediana acima de 5,2% e três abaixo, com cerca de 1,5 ponto entre a melhor e a pior. Para um projeto, essa diferença é informação valiosa: alguém já faz melhor dentro da mesma empresa.

A decisão foi usar a estratificação para orientar o brainstorming. Em vez de perguntar o que causa umidade, a pergunta virou o que as unidades melhores fazem de diferente.

Cpk de -0,26 e nível sigma de 0,73 no melhor período do ano

O estudo de capabilidade do processo foi feito com os dados do período seco, 636 amostras contra o limite superior de 5,2%. Não há limite inferior, porque carvão mais seco não é defeito.

IndicadorValorComo ler
Média5,882%Acima do limite de 5,2%
Desvio padrão de curto prazo0,886Variação dentro dos subgrupos
Desvio padrão total1,036Variação incluindo deslocamentos
Z em relação ao limite-0,77Média 0,77 desvio acima do limite
Cpk-0,26Negativo porque a média passa do limite
Ppk-0,22Mesma leitura, com o desvio total
Fora da especificação observado737.421 PPM73,7% das amostras acima de 5,2%

A conta é simples de refazer. O Z é a distância entre o limite e a média, em desvios: 5,2 menos 5,882, dividido por 0,886, dá -0,77. O Cpk é esse Z dividido por 3, ou -0,26.

O nível sigma de 0,73 sai do Z de curto prazo somado ao deslocamento convencional de 1,5. A apresentação mostra a conta: -0,77 mais 1,5 igual a 0,73.

O ponto que merece atenção é o recorte. Mesmo no período seco, o mais favorável, 73,7% das amostras estavam acima do limite. Com a chuva, o cenário seria pior.

Como os dados não são normais, as partes por milhão esperadas pela curva, 779.440, servem como ordem de grandeza. O número observado nas amostras, 737.421, é a referência mais segura.

O brainstorming com quem carrega, queima e descarrega o forno

Com o problema medido, a equipe foi atrás dos fatores de variação, os X do processo. A ferramenta foi um brainstorming com operadores, encarregados de forno e pessoal de manutenção e expedição.

A escolha tem razão de ser. Boa parte do conhecimento sobre carbonização é tácito: quem passa o dia ao lado do forno sabe onde ele trinca, quando a porta não fecha e como a lona se rasga no vento.

A sessão gerou 48 fatores, numerados de X1 a X48. Organizá-los por família, como num diagrama de Ishikawa, ajuda a ver a cobertura. A agrupação abaixo é ilustrativa, montada a partir dos nomes da lista.

  • Meio ambiente: clima na descarga, chuva e vento, clima chuvoso no armazenamento da madeira.
  • Material: tempo de secagem no campo, falta de desbrota e desgalha, melhoramento genético.
  • Máquina e estrutura: material construtivo do forno, das portas e da chaminé, estrutura do forno.
  • Método: procedimento de resfriamento, segregação de carvão úmido e seco, conferência de forno.
  • Mão de obra e terceiros: qualidade do serviço próprio e do serviço terceirizado de reboco e vedação.

A lista mostra que a umidade do carvão vegetal tem causa na floresta, no forno e no pátio. Mas uma lista de 48 itens não é um plano de ação. A próxima tarefa era reduzi-la a um conjunto que a equipe conseguisse executar dentro do prazo do projeto.

Matriz de causa e efeito: as notas que ranquearam os 48 fatores

A Matriz de Causa x Efeito atribui a cada X uma nota de impacto sobre a saída do processo, aqui a umidade. Na mesma tabela, a equipe registrou uma nota de esforço para atacar cada fator.

FatorEsforçoImpactoImpacto normalizado
X1 Clima na descarga9819
X16 Material construtivo da chaminé7819
X20 Procedimento de resfriamento2819
X2 Segregação de carvão úmido e seco3728
X17 Vedação da chaminé3728
X23 Qualidade do serviço1728
X3 Conferência de forno2637
X22 Material de reboco e vedação4637
X27 Qualidade do serviço terceiro3637
X10 Melhoramento genético8364

A tabela mostra dez das linhas visíveis na apresentação. A coluna normalizada é o impacto dividido por 9, o que coloca todos os fatores numa escala de 1 a 9.

Os três primeiros têm o mesmo impacto e esforços muito diferentes. Clima na descarga pontua 81, mas ninguém controla a chuva: esforço 9. Procedimento de resfriamento pontua igual com esforço 2.

Esforço x impacto: os oito fatores que entraram no plano

A segunda matriz cruza as duas notas num gráfico de quatro quadrantes. O eixo vertical é o esforço e o horizontal, o impacto, de alto à esquerda para baixo à direita.

QuadranteEsforçoImpactoO que fazer
PrioritáriosBaixoAltoAtacar no projeto
ComplexoAltoAltoPlanejar à parte, com investimento
OpcionalAltoBaixoDeixar fora do projeto
Baixo impactoBaixoBaixoResolver quando for oportuno

No quadrante complexo ficaram fatores como falta de desbrota e material construtivo do forno, que exigem obra ou mudança na floresta. No opcional ficaram melhoramento genético e clima no armazenamento da madeira.

Do quadrante prioritário a equipe destacou oito causas para o plano de ação.

Causa priorizadaOnde atua no processo
Conferência de fornoCarregamento e carbonização
Condições das lonasEstocagem e transporte
Qualidade do serviço de terceiroManutenção do forno
Material de reboco e vedaçãoIntegridade do forno
Plano de manutenção das portasIntegridade do forno
Segregação de carvão úmido e secoPátio de estocagem
Processo de blendagem na expediçãoExpedição
Vedação da chaminéResfriamento do forno

Metade das oito causas está no forno e metade depois dele. A distribuição confirma o que o mapa de processo sugeria: a umidade se decide em mais de uma etapa.

5W2H: uma linha de plano para cada causa priorizada

Na fase Melhorar, a equipe usou o 5W2H para transformar cada causa num plano executável. O nome vem das perguntas em inglês: o que, por que, onde, quando, quem, como e quanto custa.

A ferramenta foi escolhida por um motivo prático. As causas eram de naturezas diferentes, de procedimento a obra civil, e cada uma precisava de um dono e de um prazo próprios.

Causa priorizadaAção implementada
Condições das lonasAuditorias nas lonas de proteção e procedimento de remoção
Plano de manutenção das portasPlano de manutenção e teste de materiais para as portas
Conferência de fornoProcedimento das melhores curvas de carbonização
Vedação da chaminéTermovisor nas alvenarias para achar pontos críticos
Material de reboco e vedaçãoReboco interno nos fornos
Segregação de carvão úmido e secoEstudo da melhor forma de blendagem
Processo de blendagem na expediçãoEstudo da melhor forma de blendagem
Qualidade do serviço de terceiroPadrões de vedação verificados com termovisor

A relação entre causa e ação nesta tabela foi organizada para o artigo a partir das duas listas da apresentação. A amostragem ganhou ainda uma ação própria, o novo procedimento de coleta, tratado mais adiante.

Um exemplo ilustrativo de linha completa ajuda a ver o formato. O que: auditar lonas. Por que: lona rasgada deixa a chuva entrar na pilha. Onde: pátios. Quando: semanalmente. Quem: encarregado do pátio. Como: checklist. Quanto: horas de inspeção.

Termovisor, reboco interno e curvas de carbonização: o forno fechado

Um forno de carvão precisa estar bem vedado na fase de resfriamento. Qualquer fresta deixa entrar ar e umidade, e o ar também pode reacender o carvão, o que obriga a apagá-lo com água.

O termovisor é uma câmera que mostra a temperatura da superfície. Aplicado às alvenarias dos fornos, ele revela pontos quentes onde há trinca ou falha de reboco, invisíveis a olho nu.

A escolha resolveu duas causas de uma vez. Tirou a vedação do campo da opinião e deu um critério objetivo para cobrar o serviço de terceiro, que antes era aceito por inspeção visual.

O reboco interno nos fornos atacou o material de vedação. O plano de manutenção das portas, com teste de materiais diferentes, atacou outro ponto de entrada de ar que a equipe já conhecia.

O procedimento das melhores curvas de carbonização padronizou o controle de temperatura ao longo da queima. Antes, cada encarregado conduzia o forno do seu jeito, o que ajuda a explicar a diferença entre unidades.

Lonas, coleta de amostra e blend: o carvão depois do forno

Depois de descarregado, o carvão fica exposto. As lonas de proteção são a única barreira contra a chuva no pátio e na carga, e o período de chuva tinha média 0,83 ponto maior que o seco.

A equipe criou auditorias nas lonas e um procedimento de remoção, porque a lona retirada fora de hora ou de forma errada também expõe o carvão. O procedimento define quando e como descobrir a pilha.

O novo procedimento de coleta de amostras atacou a medição. Uma amostra tirada só da superfície da pilha não representa o lote. Sem amostra confiável, nem a segregação nem o blend funcionam.

A apresentação não traz estudo de análise do sistema de medição. Num projeto em que a variável é medida em laboratório a partir de amostra de pátio, esse é o ponto que um próximo ciclo deveria cobrir.

O estudo de blendagem tratou a mistura de carvão seco e úmido. Um exemplo ilustrativo: misturar partes iguais de lotes com 4,5% e 6,5% dá 5,5% em média, mas a mistura mal feita deixa bolsões úmidos que a amostra da usina encontra.

A média de 6,94% para 5,26% em 1.101 amostras

A fase Controlar começou pela comparação entre antes e depois. A apresentação traz um gráfico de probabilidade normal e um boxplot com 477 amostras do período anterior e 624 do posterior.

IndicadorAntesDepoisVariação
Amostras477624-
Umidade média6,943%5,264%-24,2%
Desvio padrão1,4001,076-23,1%
Meta de média5,52%5,52%Atingida
Nível sigma0,731,95+1,22
Cpk-0,260,15+0,41
Fora da especificação observado73,7%30,0%-43,7 pontos
Ganho financeiroR$ 1.600.000 previstos por anoR$ 1.874.500 reais acumulados-

No gráfico de probabilidade, cada série forma uma nuvem de pontos. A série de depois está deslocada para a esquerda, com médias menores, e mais inclinada, o que indica menor dispersão.

No boxplot, a caixa do antes vai de cerca de 6 a 7,5%, com valores extremos acima de 14%. A caixa do depois vai de cerca de 4,8 a 6,1%, e a cauda direita encolheu de forma visível.

Como verificação feita para este artigo, um teste t de Welch com esses resumos dá estatística de 21,7. A diferença de 1,68 ponto é grande demais para ser acaso.

Nível sigma de 1,95, R$ 1.874.500 e os planos de controle

O novo estudo de capabilidade usou 160 amostras com média de 4,861% e desvio de curto prazo de 0,760. O Z em relação ao limite ficou em 0,45, e o nível sigma, 0,45 mais 1,5, chegou a 1,95.

Vale a leitura honesta. Um Cpk de 0,15 ainda é baixo e 30% das amostras seguem acima de 5,2%. O projeto atingiu a meta de média, mas o processo continua incapaz de atender o limite por amostra.

Os dois estudos também usam bases diferentes, com 636 amostras antes e 160 depois, e a média da capabilidade final é menor que a do gráfico de comparação. Quem replica o case deve fixar a mesma base nas duas pontas.

No financeiro, o ganho real acumulado de R$ 1.874.500 supera em R$ 274.500 o valor anual previsto. A apresentação não informa a janela de apuração, e o guia de retorno financeiro de projeto Seis Sigma explica por que ela importa.

Para segurar o resultado, a equipe criou planos de controle que acompanham as variáveis do processo. Um plano de controle define o que medir, como, com que frequência, quem responde e o que fazer quando o número sai da faixa.

Um conjunto ilustrativo para este caso incluiria a umidade por lote em carta I-MR, a inspeção termográfica periódica dos fornos, a auditoria das lonas e a conformidade da coleta ao novo procedimento.

O que o case da umidade ensina para o próximo Green Belt

  1. Comece pelo Pareto. Os 76% da umidade transformaram um problema difuso de qualidade num projeto com uma métrica e uma meta.
  2. Estratifique antes de buscar causa. A separação entre chuva e seca e entre unidades orientou o brainstorming e evitou uma lista de palpites.
  3. Confira a conta entre gráficos. A média ponderada das estações bater com a linha central da carta é a prova de que as análises falam da mesma base.
  4. Ouça quem opera. Os 48 fatores vieram de quem carrega e descarrega o forno, e as melhores ações nasceram dali.
  5. Use as duas matrizes. A de causa e efeito diz o que pesa; a de esforço e impacto diz o que cabe no projeto.
  6. Troque opinião por medida. O termovisor deu critério objetivo para cobrar vedação, inclusive do terceiro.
  7. Separe a meta de média do limite por amostra. Bater 5,26% não significa processo capaz, e o Cpk de 0,15 mostra o próximo ciclo.

O case percorre o método DMAIC sem ferramenta sofisticada demais. Pareto, carta de controle, boxplot, capabilidade e duas matrizes de priorização bastaram para um ganho acima do previsto.

É o perfil de projeto que a certificação Green Belt prepara para conduzir. Para ver como esses projetos se encaixam no programa de melhoria de uma empresa, o artigo sobre Lean Seis Sigma dá o panorama.

Perguntas frequentes

Qual era o problema central do projeto de umidade do carvão vegetal?
A umidade média do carvão recebido na usina estava em 6,94%. Um Pareto de 125 não conformidades de especificação mostrou que a umidade respondia por 95 delas, ou 76%. A meta foi reduzir a média para 5,52%, com ganho previsto de R$ 1.600.000 por ano.
Por que a umidade do carvão vegetal custa caro para a siderurgia?
Porque a usina compra carbono e paga a água junto, no peso. A água ainda precisa ser evaporada no alto-forno, o que consome energia. Num exemplo ilustrativo, cair de 6,94% para 5,26% em 1.000 toneladas tira 16,79 toneladas de água da conta.
Como a equipe descobriu o efeito da chuva sobre a umidade?
Por uma carta I-MR com 1.803 amostras dividida em período seco e período de chuva. O resumo por estação deu média de 6,709% na chuva e 5,882% na seca, com intervalos de confiança que não se sobrepõem. A diferença de 0,83 ponto confirmou o clima como fator de variação.
Como se calcula o nível sigma de 0,73 do processo inicial?
Com o período seco, a média era 5,882% e o desvio de curto prazo 0,886, contra limite de 5,2%. O Z é 5,2 menos 5,882, dividido por 0,886, ou -0,77. Somando o deslocamento convencional de 1,5, o nível sigma fica em 0,73.
O que significa um Cpk negativo?
Significa que a média do processo está do lado de fora do limite de especificação. Aqui a média de 5,882% passava do teto de 5,2%, e o Cpk ficou em -0,26. Na prática, a maioria das amostras já nascia fora da especificação, 73,7% delas no período seco.
Para que serviu a matriz de esforço x impacto?
Para reduzir 48 fatores de variação a um conjunto executável. Ela cruza a nota de impacto, vinda da matriz de causa e efeito, com a nota de esforço. Os fatores de alto impacto e baixo esforço formaram o quadrante prioritário, de onde saíram as oito causas atacadas.
Quais ações reduziram a umidade do carvão?
Auditorias e procedimento de remoção das lonas, plano de manutenção das portas, curvas padronizadas de carbonização, termovisor nas alvenarias, reboco interno nos fornos, novo procedimento de coleta de amostras e estudo de blendagem entre carvão seco e úmido.
Por que usar um termovisor nos fornos?
Porque frestas na alvenaria deixam entrar ar e umidade durante o resfriamento e não aparecem a olho nu. A câmera térmica mostra os pontos quentes onde a vedação falha. Isso deu um critério objetivo para corrigir os fornos e cobrar o serviço terceirizado de vedação.
Quais foram os resultados do projeto?
A umidade média caiu de 6,94% para 5,26%, abaixo da meta de 5,52%. O desvio padrão caiu de 1,400 para 1,076, o nível sigma subiu de 0,73 para 1,95 e o ganho real acumulado foi de R$ 1.874.500. As amostras acima de 5,2% caíram de 73,7% para 30,0%.
O processo ficou capaz depois do projeto?
Ainda não. O Cpk subiu de -0,26 para 0,15, e 30% das amostras seguem acima do limite de 5,2%. O projeto atingiu a meta de média, e o resultado indica onde começa um próximo ciclo, com foco na dispersão e na confiabilidade da amostragem.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…