Metodologias & Qualidade

Redução de demurrage: case Master Black Belt em logística de navegação

Um projeto da formação Master Black Belt sobre navios parados além do contrato: o expurgo de 6.600 horas de mau tempo, os dois Paretos que inverteram a prioridade, dezenove causas num quadro de esforço e impacto e um nível sigma abaixo de zero.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  16 min de leitura
Thiago Coutinho com o livro Guia Lean Seis Sigma diante do letreiro Voitto, com o texto Redução de demurrage: case Master Black Belt em logística de navegação sobre fundo escuro à esquerda

Em 2011, os navios afretados pela Voitto Logística ficaram 14.663 horas parados além do tempo de contrato. A conta paga foi de R$ 13.016.150,13. Quase metade dessas horas veio de mau tempo, e a outra metade virou projeto.

Este case de redução de demurrage acompanha um projeto de logística de navegação conduzido na formação Master Black Belt da Voitto. A meta foi cortar 5% das horas que a operação controla: 403,15 horas, avaliadas em R$ 750.395,56 pela taxa média de contrato.

O relato segue o DMAIC. Passa pelo SIPOC que reuniu armador, terminal e planta, pelos dois Paretos que inverteram o líder do problema e pela matriz que reduziu dezenove causas a um quadro de esforço e impacto. Termina num nível sigma abaixo de zero.

A apresentação documenta em detalhe a definição e a medição. As fases de análise, melhoria e controle chegaram como modelos da formação, sem dados preenchidos. O artigo diz isso com todas as letras e mostra o que cada fase precisaria provar.

Sobre a procedência: este é um projeto real de aluno da formação Master Black Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente, com empresa e portos renomeados. Os números vêm da apresentação original. O que foi acrescentado para explicar, como contexto do processo e exemplos de cálculo, está identificado como ilustrativo.

Quatorze mil horas de navio parado e uma fatura de R$ 13 milhões

A Voitto Logística movimenta matéria-prima importada, produto exportado e gasolina em cabotagem, sempre por navio afretado. Em 2011, os navios ligados a esses três negócios somaram 14.663 horas de demurrage, e a empresa pagou R$ 13.016.150,13 por elas.

Demurrage é a multa diária que o afretador paga ao armador quando o navio fica no porto além do tempo combinado em contrato. O navio parado não carrega nada, mas continua custando tripulação, combustível e oportunidade de frete, e o contrato repassa esse custo.

O aluno da formação Master Black Belt escolheu esse gasto como projeto. A pergunta era simples de escrever e difícil de responder: quanto das horas paradas a empresa controla, e quanto depende de mar, fila e terceiros.

Projetos de redução de demurrage costumam começar pela negociação de contrato. Este começou pela operação, porque contrato melhor só reduz a taxa, e a hora parada continua acontecendo a cada escala.

CampoConteúdo registrado
EmpresaVoitto Logística, logística de navegação
ProblemaGasto com demurrage de navios que excedem o tempo operacional contratado
MétricaHoras de navio parado
Linha de base 201114.663 horas e R$ 13.016.150,13 pagos
Base sem mau tempo8.063 horas e R$ 7.656.720,71
MetaReduzir 5% das horas sem mau tempo, 403,15 horas
Ganho esperadoR$ 750.395,56 no ano
EscopoImportação de matéria-prima, exportação e cabotagem de gasolina

Laytime, prancha e layday: como uma hora de atraso vira fatura

Todo afretamento fixa um tempo de estadia permitido, o laytime. Ele sai da prancha, que é a taxa de carga ou descarga combinada em toneladas por hora, somada a uma folga para avisos e manobras. Passou do laytime, começa a contar demurrage.

O contrato também fixa a janela de chegada, o layday. Se a empresa antecipa o navio para garantir estoque e o terminal não está pronto, o relógio corre do mesmo jeito. Essa é a lógica de um dos X do projeto.

Um exemplo ilustrativo, montado para este artigo e não tirado da apresentação, mostra a conta. Carga de 12.000 toneladas, prancha de 400 toneladas por hora e 6 horas de folga dão 36 horas de laytime.

Se o navio fica 58 horas, são 22 horas excedentes. À taxa de R$ 1.782,50 por hora, a mesma da exportação no projeto, a fatura gerada é de R$ 39.215,00 por uma única escala.

O exemplo ajuda a ver por que a métrica do projeto é hora, e não real. A hora é o que a operação controla. O valor em reais depende da taxa de cada contrato e da negociação posterior com o armador.

Por que a hora gerada não é a hora paga

A apresentação traz uma observação em maiúsculas: a empresa não pagou em 2011 o valor total relativo às horas geradas. A conferência mostra o tamanho dessa diferença quando cada negócio é multiplicado pela própria taxa.

NegócioHoras geradasTaxa R$/horaValor gerado R$Valor pago R$Pago sobre gerado
Cabotagem de gasolina5762.628,471.513.998,721.513.997,61100,0%
Importação de matéria-prima7.2382.015,0014.584.570,005.954.921,5740,8%
Exportação6.8491.782,5012.208.342,505.547.230,9545,4%
Total14.663-28.306.911,2213.016.150,1346,0%

Na gasolina, a taxa da tabela é exatamente o valor pago dividido pelas horas. Na importação e na exportação, a empresa pagou menos da metade do que as horas valeriam pela taxa cheia.

A diferença vem da etapa final do processo: análise do contrato e cobrança. O armador apresenta a conta, o afretador contesta com cartas de protesto, registros de tempo e cláusulas de exceção. Parte das horas cai, parte é negociada.

Isso explica dois X que parecem administrativos e não são: a análise conceitual e contratual de cobranças e o treinamento dos terminais em protestos e respostas. Um terminal que não registra o motivo de cada parada perde argumento na hora de contestar.

O SIPOC que pôs armador, terminal e planta na mesma folha

A fase de definição do método DMAIC começou pelo SIPOC, com a métrica escrita no topo: horas de navios parados. A escolha da ferramenta tinha motivo prático. Demurrage nasce em muitas mãos, e nenhuma área via o processo inteiro.

FornecedoresEntradasProcessoSaídasClientes
ArmadoresNavioOperação da cargaOperação padrãoTerminais e a própria empresa
TripulaçãoTerminalAgilidade e segurançaProgramaçãoAgentes
ProcedimentosFila e desempenhoAlinhamento prévioNormalidadeOperadores
EquipamentosPraticagemManutençãoSequênciaFornecedores
ComunicaçãoInformaçãoRegrasObjetivosPraticagem

Lido de ponta a ponta, o quadro mostra que a mesma entidade aparece em mais de uma coluna. A praticagem é entrada e cliente. O terminal é entrada e cliente. Quem fornece também sofre o atraso.

A frase de rodapé do SIPOC resume a conclusão da equipe: cumprir a programação à risca interessa a todas as interfaces. Para quem quer montar o seu, o guia como fazer um SIPOC detalha a ordem de preenchimento.

A primeira decisão: tirar o mau tempo da conta

Das 7.238 horas da importação, 6.600 foram atribuídas a mau tempo e custaram R$ 5.359.429,41. Mau tempo é 45,0% de todas as horas do ano e 41,2% de todo o valor pago.

A equipe expurgou essas horas da base do projeto. O raciocínio é o de qualquer projeto de Lean Seis Sigma: a meta precisa recair sobre o que a operação consegue mudar. Ninguém reduz chuva nem ressaca com plano de ação.

Sem o mau tempo, a base fica em 8.063 horas e R$ 7.656.720,71. A importação, que liderava o gasto, cai para 638 horas. O projeto passa a olhar para outra operação.

O expurgo tem um custo que o Master Black Belt precisa nomear. Se parte do atraso atribuído ao tempo for, na verdade, fila ou falta de lote, ela some da análise junto com a chuva. O critério de classificação de cada hora precisa estar escrito.

Uma regra possível, aqui apenas ilustrativa, é aceitar como mau tempo só a hora com registro da autoridade portuária fechando a barra ou suspendendo a operação. Hora sem esse registro volta para a base da redução de demurrage.

A taxa de R$ 1.861,33 por hora e a meta de 403,15 horas

Para converter horas em dinheiro, a equipe calculou uma taxa média de demurrage ponderada pelas horas de cada negócio, já sem mau tempo. A conferência confirma o número da apresentação.

NegócioHoras sem mau tempoTaxa R$/horaPeso na média
Exportação6.8491.782,5084,9%
Importação de matéria-prima6382.015,007,9%
Cabotagem de gasolina5762.628,477,1%
Média ponderada8.0631.861,33100,0%

A meta foi de 5% das 8.063 horas, ou 403,15 horas. Multiplicadas por R$ 1.861,33, dão R$ 750.395,56, o valor registrado. A diferença de centavos na conta refeita vem do arredondamento da taxa.

Aqui cabe uma ressalva que a apresentação não faz. A taxa usada é a contratual, mas a empresa paga em média R$ 949,61 por hora sem mau tempo, já descontada a negociação. Pelo valor efetivamente pago, as mesmas 403,15 horas valem R$ 382.836,04.

As duas contas são defensáveis, desde que o critério seja acordado com a controladoria antes do projeto. O artigo como calcular o retorno financeiro de um projeto Seis Sigma trata exatamente dessa escolha.

Dois Paretos, dois líderes: importação antes do expurgo, exportação depois

A fase de medição abriu com dois diagramas de Pareto das horas por operação. O primeiro usa as 14.663 horas brutas. O segundo usa as 8.063 horas sem mau tempo.

OperaçãoHoras brutas% brutoHoras sem mau tempo% sem mau tempo
Importação7.23849,4%6387,9%
Exportação6.84946,7%6.84984,9%
Cabotagem5763,9%5767,1%
Total14.663100,0%8.063100,0%

No primeiro gráfico, importação e exportação dividem o problema quase ao meio. No segundo, a exportação sozinha responde por 84,9% das horas. A barra que parecia empatada vira a única que importa.

O par de gráficos é uma lição de estratificação. O mesmo dado, cortado por outro critério, muda a prioridade. Se a equipe tivesse parado no Pareto bruto, teria dividido esforço entre duas operações, e metade dele iria para horas de chuva.

Dez etapas, do contrato à cobrança, e dezenove X espalhados

O mapa de processo desenhou o caminho de uma escala em dez etapas. Começa na elaboração do contrato comercial e se divide em três negócios: matéria-prima, exportação e gasolina.

  1. produção e elaboração do contrato comercial;
  2. negócio de matéria-prima, 3 de exportação e 4 de gasolina;
  3. afretamento do navio em contrato CIF, nas etapas 5 e 6;
  4. atraso na operação do navio nos portos de destino, nas etapas 7, 8 e 9;
  5. análise de contrato e cobrança, na etapa 10, onde todos os caminhos se encontram.

Em cada etapa a equipe pendurou as variáveis de entrada que podem gerar hora parada. Saíram dezenove X, de X1 a X19. A fila nos cinco portos atendidos aparece em quase todas as etapas de operação.

O mapa mostra também onde nasce o X que só aparece no fim: a análise conceitual e contratual, X9, está na etapa 10. Ela não cria hora parada, mas decide quanto dela vira pagamento.

Fila, prancha e desembaraço nas seis espinhas do Ishikawa

Os dezenove X foram distribuídos num diagrama de Ishikawa com as seis categorias clássicas. A distribuição revela onde o processo concentra fragilidade.

CategoriaX alocadosExemplos
MaterialX1 a X5Fila de navios em cada um dos cinco portos
MétodoX6, X7, X8, X9, X11Antecipação de layday, prancha, tempos extras, análise contratual
MáquinaX10, X12, X15Rodo e duto para formar lote, gerador, problemas na planta
Mão de obraX14, X16Treinamento dos terminais, alinhamento de procedimentos
MediçãoX17, X18, X19Nomeação de agente e desembaraço em dois portos
MeioX13Atracação e navegação noturna nos terminais de destino

A fila de navios foi classificada como material, o que é discutível. Para um processo logístico, fila costuma ser tratada como meio ou como capacidade do terminal. A classificação não muda a análise, mas mostra que o Ishikawa é ferramenta de organização, não de prova.

O que o diagrama não faz é ordenar os X por peso. Para isso a equipe passou à matriz de causa e efeito.

Uma matriz de causa e efeito com uma única saída

A matriz de causa e efeito costuma cruzar vários X com várias saídas. Neste projeto havia uma só, horas de demurrage, com índice de importância 10. Cada X recebeu nota de 0 a 10 de correlação com essa saída.

Com uma saída só, o total é a nota multiplicada por 10, e a matriz funciona como votação ponderada da equipe. A tabela traz os sete X mais bem pontuados.

XDescriçãoNotaTotalEsforço
X1Fila de navios no porto-base101008
X5Fila de navios no porto E9906
X4Fila de navios no terminal D8808
X6Antecipação de layday para estoque no porto-base8806
X13Atracação ou navegação noturna7707
X7Prancha de operação e laytime6606
X14Treinamento dos terminais em protestos e respostas6606

A coluna de esforço, de 1 a 8, foi acrescentada para a etapa seguinte. Os nomes de porto foram trocados por letras para proteger o cliente. A nota mais baixa da matriz foi do desembaraço no terminal D, com 3.

Esforço contra impacto: o único X barato entre os de alto impacto

A matriz de esforço e impacto cruzou o total da matriz anterior com a nota de esforço. A linha de corte ficou em 50 de impacto e 4 de esforço, o que divide os dezenove X em quatro quadrantes.

QuadranteXLeitura
Alto impacto, alto esforçoX1, X4, X5, X6, X7, X13, X14Projetos estruturais, com prazo e dono
Alto impacto, baixo esforçoX18Ganho rápido: desembaraço no porto-base
Baixo impacto, baixo esforçoX8, X9, X10, X15, X16, X17, X19Ajustes de rotina, sem prioridade
Baixo impacto, alto esforçoX2, X3, X11, X12Descartar ou adiar

O resultado é incômodo e útil. Sete dos oito X de maior impacto exigem esforço alto, quase todos ligados a fila e a janela de atracação. Não há atalho barato para a maior parte do problema.

O desembaraço no porto-base, X18, é a exceção, com impacto 60 e esforço 4. Num projeto real, é o tipo de ação que se executa já na fase de medição, para mostrar resultado enquanto a análise avança.

A matriz, porém, é opinião estruturada. Ela prioriza o que testar. Não prova que a fila no porto-base causa mais horas do que a prancha.

Auditar a hora antes de contá-la: o MSA de um projeto sem instrumento

No slide de MSA, a apresentação repete a tabela financeira por negócio, agora com a linha de importação nomeada. Não há estudo de repetibilidade, porque não há instrumento físico. A medição é um registro administrativo.

Em projeto transacional, a análise do sistema de medição vira auditoria do dado. As perguntas são outras. Quem registra o início da hora? A hora vem do extrato do armador ou do relógio do terminal? O motivo da parada é anotado na hora ou depois?

Um roteiro ilustrativo, montado para este artigo, seria sortear 30 escalas e recalcular o laytime de cada uma a partir dos documentos de origem. Depois, comparar com a hora lançada e medir a concordância na classificação do motivo.

O ponto não é burocrático. O expurgo de 6.600 horas depende de alguém ter classificado cada hora como mau tempo. Se essa classificação for frágil, a base de 8.063 horas também é.

A apresentação traz ainda uma etiqueta trocada: a coluna de valor pago diz milhões de reais, mas os números estão em reais. Erro pequeno, do tipo que o MSA transacional existe para pegar.

Z de longo prazo negativo: o que 920.434 DPMO dizem e o que não dizem

A capabilidade foi calculada por defeitos sobre oportunidades. Defeito é cada hora de demurrage sem mau tempo, 8.063. Unidade é cada hora do ano, 8.760. Uma oportunidade por unidade.

IndicadorValor registradoConferência
DPU0,92048.063 / 8.760 = 0,9204
DPMO920.4340,920434 x 1.000.000 = 920.434
Z de longo prazo-1,35-1,41 pela normal padrão
Z de curto prazo0,150,09 com deslocamento de 1,5

O DPMO confere. O Z de longo prazo não bate com a normal padrão, que dá -1,41 para 7,96% de rendimento. O valor de -1,35 corresponde a 8,85%. A conclusão não muda: o processo opera abaixo de zero no nível sigma.

A definição de unidade merece mais atenção do que o número. Horas de navios diferentes se sobrepõem, porque vários navios esperam ao mesmo tempo. Tanto que as 14.663 horas brutas passam das 8.760 horas do ano, e o DPU bruto daria 1,67.

Para quem estuda métricas Seis Sigma, a alternativa mais limpa seria usar a escala como unidade e a escala com demurrage como defeito. A métrica fica proporção verdadeira, entre 0 e 1.

O funil da Análise chegou vazio

A partir daqui, a apresentação muda de natureza. O slide de X vitais traz o funil da formação, a lista de ferramentas quantitativas e seis linhas de X1 a X6 sem preenchimento. Não há gráfico nem teste.

Os slides de melhoria e controle seguem o mesmo padrão: modelos de plano 5W2H, de plano de controle e de diagrama de quatro blocos, todos em branco. O resumo gerencial final reproduz o exemplo-modelo da formação, de outro processo, e não traz números deste projeto.

O artigo não preenche esses espaços com resultado inventado. O que segue nas próximas seções é o que cada fase precisaria mostrar, com exemplos declarados como ilustrativos.

Para confirmar a fila no porto-base como X vital, o caminho natural é um teste de hipótese. Compararia as horas excedentes das escalas com e sem fila na chegada. A prancha pediria uma regressão das horas excedentes contra a taxa real de carregamento.

A antecipação de layday, X6, pede estratificação simples: escalas antecipadas por pedido de estoque contra escalas na janela original. Se a diferença de horas for grande e consistente, o X entra no funil. Se não, sai, mesmo com nota 8 na matriz.

Do X vital ao 5W2H: como as ações precisariam se amarrar

O modelo de plano de ação da apresentação tem uma coluna que muitos planos esquecem: X vitais, à esquerda das ações. A estrutura obriga cada ação a responder a uma causa confirmada, e não a uma boa ideia.

Um desenho ilustrativo, coerente com a matriz de esforço e impacto, teria três frentes. A tabela abaixo mostra o formato, não ações executadas pelo projeto.

XAção ilustrativaTipo
X18Padronizar documentos de desembaraço antes da chegadaGanho rápido
X6Regra de antecipação de layday só com lote confirmadoMétodo
X14Roteiro de carta de protesto para cada tipo de paradaContestação

Antes de executar, um FMEA sobre a programação de navios ajudaria a enxergar falhas que a matriz não captura. Por exemplo, o efeito de uma regra de layday mais rígida sobre o risco de falta de estoque na planta.

Reduzir demurrage à custa de parar a planta por falta de matéria-prima troca um custo visível por um custo maior. O custo da má qualidade precisa ser olhado no sistema, não na rubrica.

Quem fica com a métrica quando o líder do projeto sai

O slide de responsabilidade traz a curva de transição da formação. O envolvimento do líder do projeto cai ao longo das fases, e o do dono do processo sobe. As curvas se cruzam na melhoria.

No cruzamento, a apresentação marca a tarefa: definir quais métricas serão controladas e quem fará o controle a partir do fim do projeto. Em demurrage, isso tem dono natural na área de programação de navios.

O plano de controle do modelo tem as colunas de sempre: etapa, saída, especificação, capabilidade, técnica de medição, resultado do MSA, amostra, frequência, responsável e plano de reação.

Um preenchimento ilustrativo para a métrica principal seria horas excedentes por escala, acompanhadas a cada navio e consolidadas por mês. O plano de reação abriria análise sempre que uma escala passasse de um limite combinado.

O diagrama de quatro blocos fecha a lógica. Liga a métrica gerencial da área à métrica do projeto, às causas estratificadas por Pareto e ao plano de ação. É o resumo que a diretoria lê.

Linha de base, meta e o que ficou sem registro

A tabela reúne os números que a apresentação documenta. A coluna de resultado fica em branco porque a apresentação não registra medição depois das ações.

IndicadorLinha de base 2011MetaResultado registrado
Horas de demurrage brutas14.663--
Horas sem mau tempo8.0637.659,85-
Redução em horas-403,15-
Valor pago sem mau tempoR$ 7.656.720,71--
Ganho pela taxa contratual-R$ 750.395,56-
DPMO920.434--

A meta de 5% é modesta de propósito. Com 84,9% das horas na exportação e a maior parte dos X no quadrante de alto esforço, prometer mais exigiria resolver fila de porto, o que depende de terceiros.

Como as horas da meta são 403,15 sobre 8.063, a redução precisaria vir quase toda da exportação. Isso equivale a 5,9% das 6.849 horas dessa operação, se nada mudar nas outras duas.

O que este case ensina a quem vai conduzir um projeto parecido

O case vale mais pela fase de definição e medição do que pelo fim. Quatro decisões aparecem com clareza e servem de referência para qualquer projeto de redução de demurrage.

  1. separar o que a operação controla do que não controla, como no expurgo do mau tempo, e escrever o critério de classificação;
  2. estratificar antes de priorizar, porque o Pareto sem mau tempo inverteu o líder do problema;
  3. decidir com a controladoria se o ganho vale pela taxa contratual ou pelo valor efetivamente pago;
  4. definir a unidade da métrica antes de calcular nível sigma, para que o DPMO represente uma proporção real.

E há uma lição de condução. Num projeto Master Black Belt, a fase de análise é onde a matriz de opinião vira prova. Sem teste nos X vitais, o plano de ação é lista de boas intenções.

A redução de demurrage depende de muitas interfaces: armador, terminal, praticagem, planta e área comercial. O papel do líder é transformar essa rede em dados que cada interface reconheça como seus.

Quem herdar um projeto assim deve começar pela fase que ficou vazia. A base, a meta e a lista de X já existem. Falta a prova de quais deles movem as horas, e só ela sustenta a redução de demurrage prometida no charter.

Perguntas frequentes

O que é demurrage e por que ele pesa tanto no custo logístico?
Demurrage é a multa que o afretador paga ao armador quando o navio fica no porto além do laytime combinado. É cobrada por dia, rateada por hora. Neste case, as taxas iam de R$ 1.782,50 a R$ 2.628,47 por hora, e o ano fechou com 14.663 horas e R$ 13.016.150,13 pagos.
Por que o projeto excluiu as horas de mau tempo?
Porque a meta precisa recair sobre o que a operação controla. As 6.600 horas de mau tempo, todas na importação, eram 45,0% das horas e 41,2% do valor pago. Sem elas, a base caiu para 8.063 horas. O cuidado é escrever o critério que classifica cada hora como mau tempo.
Como foi calculada a taxa média de R$ 1.861,33 por hora?
Pela média das taxas de cada negócio, ponderada pelas horas sem mau tempo: 6.849 horas a R$ 1.782,50, 638 a R$ 2.015,00 e 576 a R$ 2.628,47. A conta refeita dá R$ 1.861,33. Aplicada às 403,15 horas da meta, gera o ganho esperado de R$ 750.395,56.
Por que a empresa pagou menos do que as horas geradas valiam?
Porque a cobrança de demurrage é negociada depois da escala. Pela taxa cheia, as horas valeriam R$ 28.306.911,22, e foram pagos R$ 13.016.150,13, ou 46,0%. Na gasolina o pagamento foi integral. Na importação foi de 40,8% e na exportação de 45,4%, resultado de contestação com protestos e cláusulas.
O que os dois Paretos mostraram?
Com as horas brutas, importação tinha 49,4% e exportação 46,7%, quase empatadas. Sem mau tempo, a exportação passou a 84,9% das 8.063 horas, e a importação caiu para 7,9%. O mesmo dado estratificado de outro jeito mudou a operação prioritária do projeto.
Como ler a matriz de esforço e impacto deste projeto?
Com corte em 50 de impacto e 4 de esforço, sete X ficaram em alto impacto e alto esforço, quase todos ligados a fila e atracação. Só o desembaraço no porto-base, X18, combinou impacto 60 com esforço 4, o perfil de ganho rápido. A matriz prioriza o que testar, mas não prova causa.
Como fazer MSA quando a medição é um registro administrativo?
Auditando o dado em vez do instrumento. Um roteiro possível, aqui apenas ilustrativo, é sortear escalas, recalcular o laytime a partir dos documentos de origem e comparar com a hora lançada e com o motivo registrado. Neste projeto, isso protegeria o expurgo das 6.600 horas de mau tempo.
O nível sigma do processo está correto?
O DPMO de 920.434 confere com 8.063 defeitos sobre 8.760 oportunidades. O Z de longo prazo registrado é -1,35, mas a normal padrão dá -1,41, e o Z de curto prazo passa de 0,15 para 0,09. A conclusão não muda. O ponto fraco é a unidade, porque horas de navios diferentes se sobrepõem.
O projeto atingiu a meta de 403,15 horas?
A apresentação não registra. As fases de análise, melhoria e controle chegaram como modelos da formação, sem dados, e o resumo final traz o exemplo-modelo de outro processo. Por isso o artigo mostra a linha de base e a meta, e deixa a coluna de resultado vazia.
Que ferramentas confirmariam os X vitais neste tipo de projeto?
Teste de hipótese para comparar horas excedentes em escalas com e sem fila na chegada, regressão das horas contra a taxa real de carregamento e estratificação das escalas com layday antecipado. Depois, um FMEA sobre a programação de navios, para não trocar demurrage por falta de matéria-prima na planta.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…