Metodologias & Qualidade

TPM na embalagem: case Master Black Belt de produtividade em linhas de frascos

Um projeto da formação Master Black Belt em duas linhas de embalagem: o indicador que substituiu a aderência, a matriz que separou ação rápida de análise, o lote mínimo de 20.000 unidades e a queda de volume que apareceu meses depois.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  16 min de leitura
Integrante da equipe Voitto no escritório da empresa, com o texto TPM na embalagem: case Master Black Belt de produtividade em linhas de frascos sobre fundo escuro à esquerda

Uma fábrica de alimentos tinha duas linhas de embalagem que rodavam, em média, a 66,6 frascos por minuto. O indicador oficial dizia que a área cumpria 92,7% do programado. Os dois números conviviam sem que ninguém soubesse dizer se a linha era rápida ou lenta.

Este case conta como um projeto de TPM na embalagem, conduzido na formação Master Black Belt, levou a velocidade a 93,6 frascos por minuto. O caminho passou por um indicador novo, mais de cem causas candidatas, Paretos estratificados, regressão de tamanho de lote e três FMEA.

O projeto não comprou máquina. O escopo proibia ativos novos, e todo o ganho veio de manutenção autônoma, manutenção planejada, padronização e planejamento de lote. O ganho líquido registrado no fechamento foi de R$ 841.864,12.

O relato segue o DMAIC e explica, a cada fase, por que a ferramenta foi escolhida, como ler o resultado e que decisão ele produziu. Termina com o que aconteceu meses depois, quando o volume de uma das linhas caiu quase pela metade.

Sobre a procedência: este é um projeto real de aluno da formação Master Black Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente, com empresa, pessoas e equipamentos renomeados. Os números vêm da apresentação original. O que foi acrescentado para explicar, como contexto do processo e exemplos de cálculo, está identificado como ilustrativo.

Frasco, rótulo, lacre, bula e cartucho: o que acontece nas linhas A e D

Na Voitto Alimentos, a embalagem é a última etapa antes da expedição. O frasco já envasado entra num alimentador, passa pela colocadora de tampas e de lacres, recebe rótulo, código impresso e folheto de instruções, que a fábrica chama de bula, e termina dentro de um cartucho.

São várias máquinas ligadas por esteiras, estrelas de transporte e roscas sem fim. Quando uma delas para, a linha inteira para. Por isso a produtividade da embalagem depende menos da velocidade nominal de cada equipamento e mais do tempo que a linha passa rodando sem interrupção.

O projeto foi conduzido pelo líder de embalagem durante a formação Master Black Belt, com patrocínio da gerência de manufatura. O tema era TPM na embalagem: implantar os princípios básicos de três pilares do TPM: melhoria orientada, manutenção autônoma e manutenção planejada.

CampoConteúdo registrado
ProblemaLinhas de embalagem com performance abaixo do esperado, quebras frequentes e programação descolada do realizado
Indicador principalMédia diária de frascos embalados por minuto nas linhas A e D
Linha de base66,6 frascos por minuto
Meta91 frascos por minuto em cada linha
EscopoLinhas A e D, manutenção corretiva e preventiva, setup, treinamento e rotina de controle
Resultado registrado93,6 frascos por minuto, ganho de 27 frascos por minuto
Ganho líquido no fechamentoR$ 841.864,12

Uma aderência de 92,7% que não dizia se a linha era rápida ou lenta

O indicador que a gerência acompanhava era a aderência: produção realizada dividida pela programada. Qualquer valor diferente de 100% era tratado como defeito, porque mostrava distância entre o que o planejamento pediu e o que a linha entregou.

Em 768 registros, a aderência teve média de 0,927, mediana de 0,965 e desvio padrão de 0,180. O mínimo foi 0,281 e o máximo 1,412. Passar de 100% também é desvio, porque indica que a programação subestimou a linha.

A equipe percebeu o limite desse número. A aderência diz quanto do programado foi feito, mas não diz se o programa estava certo nem se o volume produzido era bom. Uma linha lenta com programa conservador aparece com aderência alta.

Havia ainda um problema de confiança. Os apontamentos de parada eram incompletos, o OEE não era confiável e a supervisão decidia, nas palavras do charter, com visão míope do processo. O primeiro produto do projeto foi um indicador novo.

Frascos por minuto e a meta de 91 tirada do terceiro quartil

O indicador escolhido foi a quantidade média diária de frascos embalados por minuto. É uma medida de velocidade efetiva, que já embute paradas, setup e falta de material. Tem a vantagem de ser entendida igual pelo operador e pelo diretor.

A base histórica cobriu seis meses. A série diária de frascos por minuto teve 319 observações, média de 66,68, mediana de 68,31 e desvio padrão de 33,58. O primeiro quartil ficou em 39,36 e o terceiro em 90,78.

Estatística da linha de baseAderênciaFrascos por minuto
Observações768319
Média0,92766,68
Desvio padrão0,18033,58
Mediana0,96568,31
Terceiro quartil1,00490,78
Anderson-Darling, pmenor que 0,005menor que 0,005

A meta de 91 frascos por minuto saiu do terceiro quartil arredondado. A lógica é simples: um quarto dos dias já rodava nesse ritmo. A meta pede que o desempenho dos bons dias vire rotina, e não que a linha faça algo que nunca fez.

Há um detalhe de leitura. O teste de Anderson-Darling deu p menor que 0,005 nas duas séries, o que rejeita a normalidade dos dados diários. A equipe apoiou a meta no Teorema do Limite Central, que vale para médias. O quartil, por ser posição, não depende dessa suposição.

Linhas A e D com p de 0,717: a prova de que uma meta servia para as duas

Antes de fixar uma meta única, era preciso saber se as linhas A e D se comportavam igual. Se uma fosse estruturalmente mais rápida, a mesma meta seria fácil para uma e impossível para a outra.

A comparação usou dois testes. O teste de hipótese t para duas amostras comparou as médias e deu p de 0,717. O teste de variâncias deu p de 0,649 pelo método de Bonett e de 0,838 pelo de Levene.

Como ler: a hipótese nula é que as linhas são iguais. Um p alto significa que a diferença observada é do tamanho que o acaso produziria. Com os três valores muito acima de 0,05, não havia evidência de diferença nem na média nem na dispersão.

A decisão foi tratar A e D como um só processo para efeito de meta. Isso simplificou o charter e permitiu juntar os dados das duas linhas nas análises seguintes, o que dobrou o tamanho das amostras.

R$ 6,8 milhões de potencial e o que ficou fora do projeto

O ganho estimado no charter partiu da diferença entre a meta e a velocidade média: 91 menos 66,6, ou 24,4 frascos por minuto. As suposições foram dois turnos somando 12 horas, 20 dias por mês e 12 meses por ano.

  1. 24,4 frascos por minuto vezes 60 dão 1.464 frascos por hora;
  2. vezes 12 horas dão 17.568 frascos por dia;
  3. vezes 240 dias dão 4.216.320 frascos por ano;
  4. vezes a taxa de absorção de R$ 1,62 dão R$ 6.830.438,40, os R$ 6,8 milhões do charter.

A taxa de absorção é o custo fixo da fábrica rateado por unidade. Cada frasco a mais no mesmo turno dilui esse custo. O ganho é potencial porque só vira caixa se houver demanda reprimida, e o charter registrou essa condição.

O escopo incluiu as linhas A e D, as corretivas emergenciais e programadas, as preventivas, o setup, o treinamento e um método de controle da rotina. Ficaram fora a compra de equipamento novo, outras áreas e a logística entre linhas. O projeto teria de render com os ativos existentes.

O SIPOC que pôs manutenção, produção e planejamento na mesma folha

A equipe era heterogênea: operadores, mecânicos, planejamento, qualidade e engenharia. Cada um enxergava a embalagem pelo seu pedaço. O SIPOC foi aplicado com todos presentes, depois de uma introdução teórica curta.

A ferramenta lista fornecedores, entradas, etapas, saídas e clientes do processo. Aqui, os fornecedores incluíam o envase, o almoxarifado de materiais e o almoxarifado técnico. As entradas eram frasco, tampa, lacre, rótulo, bula, cartucho, peças e programa de produção.

Duas entregas saíram dessa sessão. A primeira foi uma visão macro comum do processo, desenhada para este projeto. A segunda foi a primeira lista de variáveis de entrada, os X's, com destaque para os que estavam fora do processo produtivo, como material e programação.

O SIPOC é escolhido no início justamente por isso. Ele não analisa nada, mas impede que a equipe discuta causas antes de concordar sobre onde o processo começa e termina.

94% de corretivas: o caminho de uma quebra até a máquina voltar a rodar

Na fase Medir, a equipe mapeou o fluxo de atendimento a uma quebra, do momento em que o equipamento para até a liberação. Cada etapa recebeu tempo mínimo, tempo máximo e classificação entre atividade que agrega valor e atividade que não agrega.

O mapa revelou que 94% das atividades de manutenção na embalagem eram corretivas. A fábrica consertava o que quebrava e quase não prevenia. É o perfil típico de quem ainda não passou pelo primeiro degrau do TPM.

Etapa do atendimentoMínimoMáximoAgrega valor?
Ajuste feito pelo próprio operador5 min15 minNão
Operador aciona a manutenção1 min10 minNão
Equipamento aguarda o mecânico60 min120 minNão
Localiza a peça no sistema2 min30 minNão
Mecânico inicia o reparo1 min720 minSim
Mecânico realiza ajuste1 min600 minSim
Engenharia e qualidade aprovam a ordem10 min1.440 minNão

A leitura não está nas médias, que o mapa não traz, mas na amplitude. Etapas sem valor podiam custar horas: a máquina esperava até duas horas pelo mecânico, e a aprovação da ordem chegava a um dia inteiro. Isso apontou para padrões de almoxarifado e ferramentas, ações baratas que entrariam no plano antes de qualquer estatística.

Do quadro branco a mais de cem X's: a matriz de causa e efeito com filtro de dado

A equipe levantou as variáveis de entrada com o grupo todo e chegou a mais de cem X's, numerados de X1 a X107. A lista mistura temas: temperatura da sala de envase, erro no carimbo, lacre fora de posição, bula enroscada, cartucho com cola em excesso, troca de formato, tamanho do lote.

Cada X recebeu nota de correlação com três saídas: produtividade da embalagem, rotina de manutenção e setup. A escala ia de 0 a 10, agrupada em forte, média e baixa correlação.

A matriz ganhou três perguntas de viabilidade. Há dado histórico dessa variável? É possível coletar pelo menos 40 pontos em 10 dias? E, se não houver nem uma coisa nem outra, qual a severidade, quantas ocorrências houve em 12 meses e que controle existe?

Esse filtro é o que torna a matriz útil. Uma causa sem dado nem coleta possível não pode ser testada estatisticamente. Ela vai para outro tratamento, como o FMEA, em vez de ficar esperando uma análise que nunca acontecerá.

Quatro quadrantes de esforço e impacto e os prazos de 30 e 60 dias

Pontuados, os X's foram distribuídos numa matriz de esforço contra impacto. A regra de leitura define o destino de cada variável, e não apenas a ordem de ataque.

QuadranteEsforçoImpactoX's alocadosTratamento
PrioritárioBaixoAlto35Resolver sem análise estatística, em até 30 dias
Ver e agirBaixoBaixo30Ação simples e permanente na rotina, em até 60 dias
ComplexoAltoAlto36Análise estatística na fase Analisar
DescartarAltoBaixo5Sem ação no projeto

A contagem soma 106 X's nos quadrantes. Entre os prioritários estão erro no carimbo, falta de roupa para entrar na produção, falta de ferramentas, bula enroscada e cartucho com cola errada. Entre os complexos estão máquina indisponível, troca de formato e tamanho do lote.

A matriz separou dois tipos de trabalho. O que era óbvio e barato virou ação imediata, e já rendeu ganho antes do fim da análise. O que exigia prova ficou para a estatística. Sem essa separação, a equipe passaria meses analisando o que podia ser corrigido em uma semana.

Correlação de 0,966 entre Y1 e Y3 e o pouco que MTBF e MTTR explicavam

Na fase Analisar, a equipe primeiro olhou os indicadores no tempo. Todos se mostraram estáveis em base semanal, sem períodos anômalos. Depois cruzou os Y's do projeto numa matriz de correlação e dispersão.

Par de indicadoresCorrelação
Frascos por minuto e produção programada contra real0,966
Frascos por minuto e OEE da linha A0,632
Frascos por minuto e OEE da linha D0,500
Frascos por minuto e aderência0,181
Aderência e OEE da linha A0,049

Dois achados saíram daí. Frascos por minuto e produção programada contra real andam quase juntos, então o segundo foi retirado da análise por repetir o primeiro. E a aderência quase não se relaciona com velocidade, o que confirmou a suspeita da fase Definir.

Em seguida vieram os indicadores de manutenção. O MTBF e o MTTR e a disponibilidade de cada linha foram cruzados com a produtividade semanal. Os gráficos não mostraram correlação direta. A disponibilidade se relacionava com o MTTR, mas a velocidade não acompanhava nenhum dos três.

A equipe registrou a conclusão com cuidado. Equipamento confiável ajuda o volume do período, mas não garante produtividade. Faltava encontrar o que roubava velocidade com a máquina disponível.

Cartucho e bula, 88,1% do tempo parado, cada um dominante em uma linha

O Pareto de tempo parado por equipamento somou 11.742 minutos. A cartuchadeira respondeu por 5.708 minutos e a dobradora de bula por 4.641. Os dois juntos fizeram 88,1% do total.

EquipamentoTempo parado (min)PercentualAcumulado
Cartucho5.70848,6%48,6%
Bula4.64139,5%88,1%
Carimbador7726,6%94,7%
Colagem6215,3%100,0%

O Pareto de segundo nível separou as linhas e mudou a leitura. Na linha A, a bula liderava, com perto de 2.900 minutos contra cerca de 2.000 do cartucho. Na linha D, o cartucho dominava, com perto de 3.700 minutos contra cerca de 1.700 da bula.

Esse é o valor da estratificação. O Pareto geral diria para atacar o cartucho nas duas linhas. Estratificado, mostrou que cada linha precisava de frente própria. Linhas estatisticamente iguais na velocidade média tinham gargalos diferentes.

Lotes pequenos: 56,9% dos lotes para 4,4% do volume

O tamanho do lote estava entre os X's complexos. O histórico de planejamento foi dividido em três grupos de tamanho, e a distribuição mostrou o desequilíbrio.

Grupo de loteVolume anualParticipação no volumeLotesParticipação nos lotes
Até 10.000 unidades1.160.7754,4%8256,9%
De 10.000 a 39.00010.197.42838,3%3725,7%
Acima de 39.00015.264.75857,3%2517,4%

Mais da metade dos lotes produzia menos de 5% do volume. Cada lote exige troca de formato, ajuste e partida, e esse tempo pesa muito mais num lote curto. Um exemplo ilustrativo, sem dado do projeto: a 100 frascos por minuto, um lote de 4.000 frascos com 30 minutos de setup sai a 57 frascos por minuto. Um de 40.000 sai a 93.

A equipe modelou frascos por minuto contra lote médio e produção planejada por dia, com regressão. Depois de retirar pontos atípicos, os resíduos ficaram próximos da normal e o R² melhorou. Os valores previstos acompanharam bem os reais na série temporal.

O gráfico de efeitos principais deu a regra prática. A produtividade cresce com o lote e com a produção diária, e as médias passam a meta de 91 com lotes acima de 20.000 unidades e produção planejada acima de 50.000 por dia. Essa regra foi levada ao planejamento.

Três FMEA para o que não tinha dado: o alimentador de frascos com RPN 810

Algumas falhas não tinham histórico nem coleta viável. Para elas, a equipe fez três FMEA: frascos rasgados, sistema de visão da rotuladeira da linha A e acondicionamento de bula, cartucho e rótulo.

O RPN é o produto de severidade, ocorrência e detecção, cada uma de 1 a 10. Quanto maior, mais urgente. Ele não mede risco absoluto, só ordena os modos de falha dentro do mesmo estudo.

EquipamentoModo de falhaSODRPN
Alimentador de frascosDeformação no frasco9910810
RotuladeiraFalta de redundância dos sensores1069540
Estrela de transporteRótulo mal posicionado1066360
Estrela de rotulagemRolete travado1039270
Berço do frascoLacre mal posicionado839216
Estrela de transporteRótulo amassado1036180

O topo da lista tinha detecção 9 ou 10, ou seja, quase nenhum controle. No alimentador, a ação foi inserir na preventiva a inspeção de rebarba e desgaste das peças de formato. Para frascos rasgados, a recomendação foi estudar a compra de uma balança de checagem em linha.

Calendário unificado, etiquetas de anomalia e OPLs: os pilares em prática

O plano de ação reuniu as ações de ver e agir, com responsável, recurso, prazo e status. Entre elas: revisar o código de falhas da manutenção, criar pauta fixa para a reunião semanal de planejamento e revisar o plano de lubrificação.

  • Manutenção planejada: um calendário unificado por equipamento, com atividades por tempo, mensais e trimestrais, e corretivas programadas sob condição.
  • Manutenção autônoma: lubrificação e inspeção feitas pelo operador, com calendário próprio e checklist de preventiva.
  • Etiquetas de anomalia de 100 por 150 mm, vermelha quando o reparo cabe à manutenção e azul quando cabe ao operador.
  • Quadros de ferramentas nas linhas A e D, para tirar da rotina a busca por chave e torquímetro.

As OPLs, lições de um ponto, completaram o pacote. Cada uma é uma folha com fotografia e passo a passo de uma tarefa: limpeza de guias de transporte, regulagem do magazine de cartucho, ajuste da dobradora de bula. Elas atacam a variação entre turnos.

A lógica do TPM aparece aqui. As etiquetas devolvem ao operador a responsabilidade de enxergar a anomalia antes da quebra. O calendário troca a corretiva emergencial por intervenção programada. A redução de setup, que apareceu nos lotes, conversa com a troca rápida de ferramentas.

De 69,5 para 96,9 frascos por minuto, em duas ondas

O controle comparou três períodos da série diária geral. A linha de base foi de janeiro a agosto. A onda de ver e agir correu de 27 de agosto a 13 de outubro. As melhorias da fase Implementar foram medidas de 14 de outubro a 7 de novembro.

PeríodoMédiaMedianaDesvio padrão
Linha de base69,4770,1318,62
Ações de ver e agir82,1976,5423,07
Melhorias implementadas96,9199,8526,20
Meta91--

A média subiu 12,71 frascos por minuto só com as ações rápidas, e 27,44 ao final, alta de 39,5% sobre a linha de base. A mediana de 99,85 mostra que mais da metade dos dias já superava a meta.

O desvio padrão também subiu, de 18,62 para 26,20. A série ficou mais rápida, mas não mais previsível. Num gráfico de controle isso aparece como faixa mais larga, e é o ponto a vigiar na fase seguinte.

A linha de base desta tabela, 69,47, difere da usada no charter, 66,6, porque o recorte de dias é outro. A conta financeira usou 66,6, o número aprovado no início.

R$ 1,2 milhão recuperado, R$ 354 mil gastos e o ganho líquido de R$ 841 mil

O cálculo de ganho seguiu a mesma régua do charter, o que dá credibilidade ao número. A velocidade passou de 66,6 para 93,6 frascos por minuto, ganho de 27. Em 12 horas, são 1.620 frascos por hora e 19.440 por dia.

ItemValor
Frascos a mais nos 38 dias com meta atingida738.720
Ganho recuperado a R$ 1,62 por frascoR$ 1.196.726,40
Consultoria externaR$ 91.000,00
Compras de fornecedoresR$ 24.517,00
Custo da equipe da áreaR$ 239.345,28
Total de gastosR$ 354.862,28
Ganho líquido no fechamentoR$ 841.864,12

Para o ano fiscal, a projeção foi de 4.665.600 frascos, ou 19.440 por dia em 240 dias. A R$ 1,62, dá R$ 7.558.272. Com a taxa de absorção revista para R$ 1,73, o recuperado passa a R$ 1.277.985,60 e o projetado a R$ 8.071.488.

O método para separar ganho recuperado de ganho projetado está em como calcular o retorno financeiro de um projeto Seis Sigma. O recuperado é o que a controladoria já pode reconhecer. O projetado depende de o resultado se manter.

O painel mensal, a cascata de tempo e o mês em que o volume caiu

O plano de controle trouxe um OEE reformulado e um painel gerencial mensal por linha. O painel mostra OEE, frascos por minuto, as cinco maiores causas de parada e o desempenho da manutenção. Manutenção, setup e falta de insumos lideravam as paradas.

Meses depois, em julho de 2016, a cascata de tempo da linha A decompôs as horas do mês. Das 100% de horas de calendário, sobraram 49% de tempo produtivo total, já com 8 pontos de um terceiro turno. Depois de setup e paradas programadas, restaram 18% disponíveis e 9% de produção efetiva.

Linha AJunhoJulho
Tempo de produção total47%49%
Tempo produtivo disponível30%18%
Tempo ineficiente9%9%
Tempo de produção21%9%
Horas extras2%4%
Volume (unidades)2.033.0621.106.285

O quadro comparativo mostra o risco. Na linha A, o volume caiu 45,6% de um mês para o outro, com mais horas extras. Na linha D, caiu 12,9%. A ineficiência não subiu, então a perda veio de tempo disponível, ou seja, de programação e paradas planejadas.

A matriz de tecnologia contra controle resumiu a trajetória. O processo saiu da pior região e se aproximou da fronteira, mas ainda longe da classe mundial que o TPM completo busca. O nome do projeto, primeira geração, admite isso.

O que o case ensina a quem vai conduzir TPM na embalagem pelo DMAIC

A primeira lição é medir a coisa certa antes de melhorá-la. O projeto só andou quando trocou a aderência por frascos por minuto. Indicador que mistura qualidade do plano com desempenho da linha não aponta causa nenhuma.

A segunda é separar ação rápida de análise. As ações de ver e agir renderam 12,71 dos 27,44 frascos por minuto, 46% do ganho, antes que a melhoria da fase Implementar entrasse. Um Master Black Belt que segura tudo para depois da análise perde a confiança da área.

A terceira é estratificar sempre. O Pareto geral e o segundo nível davam recomendações diferentes. E o FMEA cobriu o que a estatística não alcançava, porque nem toda causa tem dado.

A quarta é que controle não termina no projeto. A série de 2016 mostrou volume caindo com tempo disponível menor. O TPM de primeira geração estabiliza a máquina. Proteger o ganho exige que planejamento, lote e manutenção continuem amarrados no mesmo painel, mês após mês, dentro do DMAIC.

Perguntas frequentes

O que é TPM na embalagem?
É a aplicação da manutenção produtiva total às linhas que rotulam, lacram, encartucham e embalam o produto. Neste case, a primeira geração implantou três pilares: melhoria orientada, manutenção autônoma pelo operador e manutenção planejada pela equipe técnica, sem comprar equipamento novo.
Por que trocar a aderência por frascos por minuto?
Porque a aderência mede só quanto do programado foi feito. Uma linha lenta com programa conservador aparece bem. Frascos por minuto mede velocidade efetiva, já com paradas e setup. A correlação entre os dois foi de apenas 0,181.
Como foi definida a meta de 91 frascos por minuto?
Pelo terceiro quartil da linha de base, 90,78, arredondado. Um quarto dos dias já rodava nesse ritmo. A meta pede que o desempenho dos melhores dias vire rotina, o que é ambicioso e alcançável ao mesmo tempo.
Por que uma meta única para as linhas A e D?
Porque os testes não acharam diferença entre elas. O teste t das médias deu p de 0,717, e os testes de variância deram 0,649 e 0,838. Com esses valores, as linhas foram tratadas como um único processo para efeito de meta.
O que o Pareto mostrou?
Que cartucho e bula somavam 88,1% dos 11.742 minutos parados. Estratificado por linha, mostrou que a bula liderava na linha A e o cartucho na linha D. Cada linha recebeu frente própria de ação.
Qual o papel do tamanho do lote na produtividade?
Lotes de até 10.000 unidades eram 56,9% dos lotes e só 4,4% do volume. A regressão mostrou que as médias passam da meta com lotes acima de 20.000 unidades e produção planejada acima de 50.000 por dia.
Por que fazer FMEA em vez de análise estatística em algumas causas?
Porque não havia dado histórico nem coleta viável para elas. O FMEA ordena modos de falha por severidade, ocorrência e detecção. O maior RPN, 810, foi a deformação de frascos no alimentador, sem nenhum controle.
Quanto o projeto ganhou?
A velocidade foi de 66,6 para 93,6 frascos por minuto. Nos 38 dias com meta atingida, foram 738.720 frascos a mais, ou R$ 1.196.726,40 a R$ 1,62 por frasco. Descontados R$ 354.862,28 de gastos, o ganho líquido foi de R$ 841.864,12.
Por que o desvio padrão subiu depois da melhoria?
A média subiu de 69,47 para 96,91, e o desvio de 18,62 para 26,20. O processo ficou mais rápido, mas a variação dia a dia não diminuiu. É o ponto que o plano de controle precisa atacar na geração seguinte do TPM.
O resultado se manteve?
O painel de julho de 2016 mostrou queda de 45,6% no volume da linha A em relação a junho, com tempo produtivo disponível caindo de 30% para 18%. A ineficiência ficou em 9%, então a perda veio de tempo programado, não da máquina.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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