Diagrama de afinidades: o que é, como fazer, exemplo e modelo em Excel
A origem no método KJ de Jiro Kawakita, para que serve, o passo a passo com agrupamento em silêncio, as regras do cabeçalho, um exemplo com 40 falas de clientes, a contagem que vira Pareto dos grupos e a tradução dos três maiores temas em CTQ, com planilha para baixar.
O diagrama de afinidades organiza dezenas de ideias ou falas soltas em poucos grupos com nome. Ele serve para a hora em que a parede está cheia de post-its, ou a planilha cheia de reclamações, e ninguém consegue dizer qual é o assunto principal. Bem feito, ele termina com uma lista curta de temas, cada um com tamanho conhecido.
Na MRS Logística eu passei por programas de melhoria contínua e olimpíadas de melhoria, que geravam ideias aos montes. Gerar ideia nunca foi o gargalo. O gargalo vinha depois: transformar a pilha em meia dúzia de frentes que alguém pudesse assumir com dono e prazo. É exatamente esse passo que a ferramenta resolve.
Este guia mostra de onde vem o método KJ e quando ele faz sentido. Depois vêm o passo a passo, as regras práticas e um exemplo com 40 falas de clientes de uma clínica. No fim, a contagem dos grupos vira Pareto e os três maiores temas viram requisitos mensuráveis. A planilha do exemplo está para baixar, com as contas prontas.
O que é diagrama de afinidades
Diagrama de afinidades é uma ferramenta que agrupa ideias, opiniões ou falas por semelhança de sentido, sem categorias definidas antes. Cada item vai num cartão, a equipe junta os parecidos e dá a cada grupo um cabeçalho que resume o que eles dizem. O resultado mostra os temas de uma massa de informação verbal.
A palavra que importa na definição é verbal. A ferramenta trabalha com frases. Reclamação de cliente, resposta aberta de pesquisa, ideia de brainstorming, comentário de retrospectiva e anotação de entrevista são a matéria-prima típica. Para dado medido, como tempo, peso ou número de defeitos, existem as ferramentas estatísticas.
Os nomes variam. Você vai encontrar diagrama de afinidade no singular, mapa de afinidades e método KJ, que é o nome original. Em inglês aparecem affinity diagram e KJ method. Todos descrevem o mesmo procedimento.
De onde vem: Jiro Kawakita e o método KJ
O método foi criado nos anos 1960 pelo antropólogo japonês Jiro Kawakita, e as iniciais do nome dele viraram o apelido da técnica. A página da ASQ sobre a ferramenta registra essa origem e chama a ferramenta também de método K-J.
Na qualidade, ele entrou como a primeira das sete ferramentas gerenciais, também chamadas de novas ferramentas da qualidade. O conjunto ganhou forma no Japão, na década de 1970, voltado a planejamento e a informação verbal. As outras seis são o diagrama de relações, o diagrama de árvore, o diagrama de matriz, a matriz de priorização, o PDPC e o diagrama de setas. O artigo sobre as 7 ferramentas da qualidade mostra as duas listas lado a lado.
No meu livro, o Guia Prático Lean Seis Sigma, a ferramenta aparece no capítulo 21, “Ferramentas de Planejamento e Definição”. Na seção do brainstorming, página 184, eu escrevo: “Para categorizar informações e ideias, o Diagrama de Afinidade pode ser utilizado. Essa é uma ferramenta visual que ajuda a equipe a organizar as ideias geradas e a identificar padrões e relações entre elas”.
Repare na ordem que o livro sugere. O agrupamento vem depois da geração de ideias e antes da seleção. Ele é a ponte entre a fase em que tudo vale e a fase em que alguém precisa escolher.
Para que serve o diagrama de afinidades
Ele serve para enxergar a estrutura de um volume de informação verbal grande demais para ler de uma vez. Com algumas dezenas de frases, a cabeça já não guarda o conjunto, e cada pessoa da sala lembra das falas que confirmam o que ela já pensava.
As situações em que ele mais rende são estas:
- Voz do cliente. Reclamações de SAC, comentários de pesquisa, avaliações online e transcrições de entrevistas. É o uso mais comum em projeto de melhoria, porque a VOC chega em frases e precisa virar requisito.
- Pesquisa com resposta aberta. A pergunta “o que podemos melhorar?” de uma pesquisa de satisfação ou o comentário que acompanha a nota do NPS.
- Depois do brainstorming. O brainstorming gera a quantidade. O agrupamento mostra quantas ideias diferentes existem de fato dentro das 60 anotadas.
- Retrospectivas e lições aprendidas. Numa retrospectiva Scrum, os cartões do “o que atrapalhou” se agrupam bem em três ou quatro temas recorrentes.
- Pesquisa de usuário. No design thinking e em UX, a síntese de entrevistas costuma usar a mesma técnica com o nome de mapa de afinidades.
Ele não serve para provar causa, e essa confusão aparece muito. Agrupar dez reclamações sobre atraso mostra que o atraso incomoda dez clientes. A razão do atraso vem depois, com outras ferramentas e com dado. Também não compensa com meia dúzia de itens, porque uma lista simples resolve.
Como fazer um diagrama de afinidades, passo a passo
O procedimento cabe numa reunião de uma hora com cinco a oito pessoas, ou em duas horas quando o volume passa de cem cartões. Ele precisa de uma parede ou de um quadro, cartões ou post-its e uma caneta grossa por pessoa.
- Escreva a pergunta no topo do quadro. Uma frase só, como “O que os clientes reclamam do nosso atendimento?”. Ela define o que entra e o que fica de fora.
- Uma ideia por cartão. Copie a fala como ela chegou, sem resumir e sem juntar duas queixas num cartão. “Esperei uma hora e ninguém explicou” tem duas ideias e vira dois cartões.
- Espalhe tudo sem ordem. Os cartões vão para o quadro misturados. Ninguém lê em voz alta nem comenta ainda.
- Agrupe em silêncio. Todos se levantam e movem cartões ao mesmo tempo, juntando o que parece dizer a mesma coisa. Quem discorda de um lugar move o cartão de novo. A rodada termina quando o quadro para de mexer.
- Escreva o cabeçalho de cada grupo. Só agora o time conversa. Para cada grupo, escreva uma frase que resuma o que os cartões têm em comum e coloque no topo, num cartão de outra cor.
- Revise. Leia cada grupo inteiro abaixo do seu cabeçalho. Cartão que não combina muda de lugar. Grupo que ficou grande demais se divide em dois.
- Conte e pese. Anote quantos cartões cada grupo tem e, se fizer sentido, a gravidade de cada fala. Esse é o passo que a maioria dos guias pula, e é ele que transforma o quadro em prioridade.
O silêncio do passo 4 parece detalhe e é o que protege o método. A ASQ recomenda que o agrupamento aconteça sem conversa. Discussão nessa hora favorece quem fala mais alto ou tem o cargo maior, e o quadro passa a refletir a opinião dessa pessoa em vez das falas.
O passo 2 tem um teste rápido. Se o cartão tem “e”, “mas” ou vírgula separando duas queixas, ele provavelmente carrega duas ideias. Separe antes de começar, porque um cartão duplo não cabe em nenhum grupo e trava a rodada.
Regras práticas para um bom agrupamento
O passo a passo é simples, e é por isso que tanta sessão termina com um mural bonito e nenhuma conclusão. Cinco regras fazem a diferença entre um quadro útil e um painel de post-its.
- De 5 a 10 grupos. É a faixa que a ASQ indica. Menos de cinco costuma esconder temas diferentes debaixo de um nome genérico. Mais de dez mostra que o time ainda não agrupou, só separou.
- Cabeçalho em frase completa. “Agendamento” diz o assunto. “Não consigo marcar o exame sem insistir” diz o problema, na voz de quem sente. Quem lê só os cabeçalhos precisa entender o que os clientes disseram.
- Cartão solto pode ficar sozinho. A ASQ chama esses cartões de “loners” e diz que tudo bem existirem. Forçar um cartão num grupo para não sobrar nada distorce o grupo e esconde um sinal que pode ser o início de um tema novo.
- Quem agrupa não escreve o cabeçalho sozinho. Uma regra que a gente usa em sala: o cabeçalho sai de uma leitura em dupla, de preferência com alguém que não montou aquele grupo. Quem montou tende a batizar o grupo com a hipótese que já tinha na cabeça, em vez de ler o que os cartões dizem.
- Cartão que cabe em dois grupos vira dois cartões. A ASQ sugere duplicar a nota quando ela pertence a dois lugares. Na contagem, ela soma nos dois, e isso fica anotado.
Um grupo com mais de um quarto dos cartões merece uma segunda olhada. Às vezes ele é mesmo o tema dominante. Muitas vezes é um guarda-chuva que junta dois problemas com causas diferentes, como “demora”, que mistura espera na recepção com prazo de resultado.
Exemplo de diagrama de afinidades: 40 falas de clientes de uma clínica
O exemplo da planilha é uma clínica fictícia de exames com três unidades. A equipe de qualidade juntou 40 falas de clientes recebidas em setembro, de cinco canais. Foram 10 da ouvidoria, 9 do SAC por telefone, 9 de comentários da pesquisa NPS, 7 de avaliações online e 5 do WhatsApp. As falas foram copiadas como chegaram, uma por cartão.
Seis pessoas fizeram o agrupamento em silêncio: duas da recepção, uma do agendamento, uma do laboratório, uma da enfermagem e a coordenadora de qualidade. Em 15 minutos o quadro parou de mexer com seis grupos e dois cartões soltos. Os cabeçalhos foram escritos depois, em dupla, na voz do paciente.
Dois momentos da sessão mostram as regras funcionando. O primeiro foi a fala “Fiquei uma hora e meia em jejum esperando a coleta, quase passei mal”. Ela tinha cara de preparo, por causa do jejum, e foi parar na espera. O que a paciente reclamou foi do tempo, e o jejum só deixou a espera mais grave.
O segundo foi o elogio “A técnica do raio X foi muito gentil com meu filho”. Alguém quis encaixar num grupo de atendimento que não existia. O cartão ficou solto, junto com o pedido de exames aos domingos, e nenhum dos dois entrou no Pareto.
Houve também uma tentação de juntar espera e resultado num grupo “demora”. A revisão separou os dois. Esperar na recepção depende da escala e do agendamento. Esperar o laudo depende do laboratório e do portal. São problemas com donos diferentes, e um cabeçalho único esconderia isso.
Todas as falas e números do exemplo são ilustrativos, criados para mostrar o método, e estão conferidos na planilha.
Da contagem à prioridade: frequência, peso e Pareto dos grupos
Um quadro de afinidades sem contagem mostra temas, e não diz qual atacar primeiro. A conta mais simples é a frequência, o número de cartões por grupo. Ela tem um limite claro: dez clientes reclamando de cadeira dura pesam menos que três que perderam o exame.
Por isso a planilha pede um peso por fala, numa escala curta de 1 a 3. Peso 1 é incômodo. Peso 2 significa que o cliente perdeu tempo ou teve retrabalho. Peso 3 é risco à saúde, perda do serviço ou cobrança indevida. A régua precisa ser combinada antes e valer igual para todas as falas, ou o peso vira opinião de quem pontuou.
| Grupo (cabeçalho) | Cartões | Peso somado | % do peso | % acumulado |
|---|---|---|---|---|
| Espero muito além do horário marcado | 10 | 20 | 26,3% | 26,3% |
| Não entendi o preparo e perdi o exame | 6 | 17 | 22,4% | 48,7% |
| Não consigo marcar o exame sem insistir | 9 | 15 | 19,7% | 68,4% |
| O resultado demora e eu não sei quando sai | 7 | 14 | 18,4% | 86,8% |
| A autorização do convênio trava o atendimento | 4 | 8 | 10,5% | 97,4% |
| A estrutura da unidade incomoda | 2 | 2 | 2,6% | 100,0% |
A tabela é um diagrama de Pareto aplicado aos grupos, ordenado pelo peso somado. Os 38 cartões agrupados somam 76 pontos. Os três primeiros grupos concentram 68,4% do peso.
A leitura muda conforme a régua. Pela contagem, o terceiro tema seria o resultado, com 7 cartões, e o preparo ficaria em quarto, com 6. Pelo peso, o preparo sobe para segundo. Cinco das seis falas desse grupo têm peso 3, porque terminaram em exame cancelado ou remarcado. Quem olhasse só a quantidade deixaria de fora o tema que mais custa ao paciente.
Dois cuidados valem para a contagem. O primeiro é a origem: 40 falas de um mês não são uma amostra estatística da clientela. Elas mostram temas e intensidade relativa, e o tamanho real de cada problema se mede depois. O segundo é o canal. A ouvidoria recebe as queixas mais graves, então um grupo que só aparece lá tende a ter peso alto. Se for preciso abrir a leitura por canal, por unidade ou por tipo de exame, a estratificação faz esse corte.
Quando o time quer pesar outros critérios além da gravidade, como urgência e tendência de piora, a matriz GUT aplicada aos grupos faz esse trabalho. Para o primeiro corte, contagem e peso costumam bastar.
Dos grupos para CTQ: a necessidade que vira número
O cabeçalho “Espero muito além do horário marcado” descreve uma dor, e ainda não diz o que medir. O passo seguinte traduz cada grupo prioritário numa característica crítica para a qualidade, a CTQ. Ela é um requisito mensurável com indicador e meta. O artigo sobre voz do cliente e tradução em CTQ detalha esse método. Aqui ele aparece aplicado aos três primeiros grupos do Pareto.
| Grupo | Necessidade do cliente | Requisito mensurável | Indicador e meta |
|---|---|---|---|
| Espera | Ser atendido perto do horário marcado e saber o motivo quando houver atraso | Chamada em até 20 min do horário agendado; atraso maior avisado na recepção | % de pacientes chamados em até 20 min; meta de 90% ou mais por unidade |
| Preparo | Saber exatamente como se preparar, com tempo para cumprir | Instrução escrita do exame enviada até 48 h antes, igual em todos os canais | % de exames cancelados ou remarcados no dia por preparo; meta de 1% ou menos |
| Agendamento | Conseguir marcar na primeira tentativa, pelo canal escolhido | Ligação atendida em até 60 s; WhatsApp respondido em até 2 h úteis | % de ligações atendidas em até 60 s, meta de 85%; abandono de 5% ou menos |
As metas do exemplo também são ilustrativas. Numa clínica real, elas saem da medição atual e do que o paciente tolera. O teste de um bom requisito é simples: dá para medir sem perguntar a opinião de ninguém? “Atendimento rápido” não passa no teste. “Chamado em até 20 minutos do horário agendado” passa, porque o sistema de senhas grava a hora da chamada.
O passo a passo da tradução também está no modelo VOC → CTQ do kit de ferramentas Lean Seis Sigma, com espaço para o verbatim, a necessidade, a característica mensurável e a especificação. Ele recebe as falas de cada grupo prioritário e devolve a CTQ que vai guiar o projeto.
Com esse elo, o quadro de afinidades deixa de ser exercício de reunião e vira etapa de projeto. No método DMAIC, ele mora na fase Definir. A CTQ prioritária valida ou vira o Y do projeto, e o plano de coleta de dados diz como medir o indicador antes de qualquer melhoria.
Modelo de diagrama de afinidades em Excel
A planilha reproduz o caminho inteiro deste artigo. As falas entram numa aba e o grupo de cada uma sai de uma lista. A contagem, o peso, o Pareto e a ponte para CTQ são calculados.
Planilha gratuita de afinidades, com Pareto e CTQ. Registra até 150 falas com origem, data, grupo e peso de 1 a 3. Aceita até 10 cabeçalhos editáveis e calcula contagem, porcentagem, peso somado e ranking. O Pareto vem com gráfico e percentual acumulado. Os três maiores grupos seguem para a tabela de CTQ, com necessidade, requisito, indicador e meta.
São cinco abas: Como usar, Cartões, Grupos, CTQ e Exemplo preenchido, com as 40 falas da clínica. Roda sem macros no Excel, no LibreOffice e no Google Planilhas. Clique na miniatura para ver o exemplo e baixar o arquivo.
Dois detalhes evitam erro de uso. O resumo da aba Grupos avisa quantos cartões ficaram sem grupo, o que acontece quando alguém renomeia um cabeçalho depois de classificar as falas. E o cartão solto tem uma linha própria: ele aparece na contagem e fica fora do Pareto.
Versão digital: Miro, quadro online e planilha
Com equipe remota, o quadro vira um painel online, como Miro, Mural ou Lucidspark. Todos eles têm modelos prontos de mapa de afinidades. A lógica não muda: cada pessoa arrasta notas em silêncio durante um tempo combinado, e a conversa começa só na hora de escrever os cabeçalhos.
O ponto fraco do quadro online é a contagem. As ferramentas desenham bem e somam mal. O caminho prático é exportar as notas, colar as falas na aba Cartões e escolher o grupo de cada uma na lista. Com 40 falas isso leva uns 15 minutos, e o Pareto sai pronto.
Ferramentas de texto com inteligência artificial também sugerem agrupamentos hoje. Elas aceleram a primeira separação de centenas de comentários. O cabeçalho e a revisão continuam com o time, porque é ali que o grupo decide o que cada tema quer dizer para a operação.
Afinidades, Ishikawa e árvore: qual usar
As três ferramentas trabalham com cartões e agrupamento, e por isso se confundem. A pergunta que cada uma responde é diferente.
| Ferramenta | Pergunta que responde | Como agrupa | Quando entra |
|---|---|---|---|
| Diagrama de afinidades | Quais temas existem nestas falas ou ideias? | De baixo para cima: os grupos nascem dos cartões | Definir o problema, ouvir o cliente, sintetizar ideias |
| Diagrama de Ishikawa | Quais são as causas possíveis deste efeito? | De cima para baixo: famílias fixas, como os 6M | Analisar um problema já definido e medido |
| Diagrama de árvore | Como chego a este objetivo, em passos concretos? | Desdobramento em níveis, do geral ao específico | Planejar a solução ou desdobrar uma meta |
O diagrama de Ishikawa parte de um efeito já escolhido e organiza hipóteses de causa em famílias definidas antes. O de afinidades parte de uma massa de frases e deixa as famílias aparecerem. Usar afinidades para achar causa é pedir a ele uma coisa que ele não faz, porque agrupar falas parecidas não testa nenhuma hipótese. As causas levantadas no Ishikawa são priorizadas depois na matriz de causa e efeito e confirmadas com dado.
O diagrama de árvore costuma ser o passo seguinte. Os cabeçalhos do quadro de afinidades viram os primeiros ramos, e cada ramo se desdobra em ações. No exemplo, “Não entendi o preparo e perdi o exame” poderia virar a raiz de uma árvore com instrução padronizada, envio automático 48 horas antes e confirmação por mensagem.
O mapa mental também aparece nessa conversa. Ele parte de um tema central e abre associações livres, e serve mais para explorar um assunto do que para organizar uma massa de dados já coletada.
Erros comuns no diagrama de afinidades
- Grupos definidos antes de ler os cartões. O facilitador chega com “Atendimento, Prazo, Preço, Estrutura” escritos no quadro e pede para encaixar as falas. Isso é classificação, e o método perde a única coisa que o diferencia: deixar os temas aparecerem. Problemas novos somem dentro das caixas que já existiam.
- Cabeçalho de uma palavra. “Comunicação” cabe em qualquer grupo e não orienta nenhuma ação. Se o cabeçalho pudesse estar em outro quadro, de outra empresa, ele ainda está genérico demais.
- Contar opinião da liderança como voz do cliente. A diretora tem certeza de que o estacionamento é o maior problema e escreve três cartões sobre isso. No exemplo, o estacionamento apareceu uma vez em 40 falas. Opinião interna é hipótese e vai num quadro separado, marcada como tal. É a diferença entre o foco no cliente e o foco do cliente.
- Resumir a fala antes de escrever o cartão. “Cliente insatisfeito com prazo” apagou se o prazo era de agendamento, de laudo ou de autorização. A frase literal guarda essa informação e permite revisar o agrupamento depois.
- Parar no quadro. O mural fica bonito na foto e ninguém conta os cartões. Sem contagem e sem peso, a prioridade volta a ser decidida por quem fala mais alto, que era justamente o problema que o silêncio do agrupamento tentou evitar.
- Agrupar falas de fontes que não conversam. Juntar reclamação de cliente com sugestão de funcionário no mesmo quadro mistura dor com solução. Faça dois quadros, ou marque a origem de cada cartão.
Onde ele entra no projeto e por onde começar
Num projeto de Lean Seis Sigma, o quadro de afinidades aparece em dois momentos. Na fase Definir, ele organiza a voz do cliente e entrega os temas que viram CTQ. Na fase Melhorar, ele agrupa as ideias de solução de um brainstorming antes da priorização.
Para começar, escolha uma fonte que você já tem e que ninguém leu inteira. Pode ser o último mês de reclamações do SAC, os comentários da pesquisa de satisfação ou as anotações de cinco entrevistas com clientes. Copie as falas literais na aba Cartões e marque uma hora com quatro a seis pessoas de áreas diferentes. Agrupe em silêncio, escreva os cabeçalhos em dupla e deixe a planilha contar.
Para as outras ferramentas da fase Definir, a gente reuniu o kit de ferramentas Lean Seis Sigma, com o modelo VOC → CTQ e mais 24 modelos para preencher ou baixar.
No fim, o quadro de afinidades vale pelo que acontece depois do último post-it. Quarenta falas viram seis temas, seis temas viram um Pareto e os três primeiros viram números que alguém vai medir na segunda-feira. É esse caminho que separa ouvir o cliente de agir sobre o que ele disse.



