Metodologias & Qualidade

Redução do tempo de processo: case Green Belt num forno metalúrgico

Um projeto Green Belt real, descaracterizado, contado pelas cinco fases do DMAIC: a meta de 44 horas tirada do primeiro quartil, o funil de dezenas de causas até cinco, o dreno que tirou a vazão da mão do operador e a capabilidade que mostrou o que melhorou e o que ficou de fora.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  16 min de leitura
Thiago Coutinho falando ao microfone em palco de evento, com o texto Redução do tempo de processo: case Green Belt num forno metalúrgico sobre fundo escuro à esquerda

Um forno de tratamento térmico que leva 54 horas para aquecer e outras 54 para resfriar está parado para a produção durante quase cinco dias por carga. Foi esse o retrato que uma metalúrgica descaracterizada aqui como Voitto Iron encontrou no RC2.

O tempo de processo alto pesava em três lugares ao mesmo tempo: na conta de energia elétrica, na emissão de gases e na meta anual de produção, que não estava sendo entregue. A equipe propôs reduzir aquecimento e resfriamento a 44 horas cada.

Este artigo conta o projeto de redução do tempo de processo fase a fase pelo Lean Seis Sigma. Passa pela meta tirada do primeiro quartil, pelas matrizes que afunilaram dezenas de causas candidatas, numeradas até X71, e pelas cinco ações escolhidas com FMEA e FTA.

No fim, a capabilidade do aquecimento antes e depois, a queda de 38,4% no desvio padrão e as médias mensais mostram o que melhorou. Mostram também onde a meta ficou de fora, sem arredondar o resultado para cima.

Sobre a procedência: este é um projeto real de aluno da formação Green Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente. Os números vêm da apresentação original. O que foi acrescentado para explicar, como o contexto do forno, o SIPOC, a conta da matriz e da FMEA e a conta de ciclos por ano, está identificado no texto como ilustrativo.

O forno RC2 da Voitto Iron e o preço de cada hora a mais de ciclo

A Voitto Iron é uma metalúrgica. O RC2 é um forno de tratamento térmico que trabalha em batelada: recebe a carga, aquece até a temperatura de processo, mantém, resfria e só então libera o espaço para a carga seguinte.

A apresentação original não descreve o equipamento em detalhe. A descrição que segue é ilustrativa, reconstruída a partir das causas que o próprio projeto levantou: resistências elétricas, camisa d'água na carcaça, selo de areia, trocador de calor e controle manual de vazão.

Nesse tipo de forno o tempo é a variável que manda. Enquanto a carga aquece, as resistências consomem energia elétrica. Enquanto resfria, o forno está ocupado e não produz. Cada hora a mais de ciclo é energia gasta, gás emitido e tonelada que deixa de sair no ano.

Por isso a redução do tempo de processo era a alavanca mais barata disponível. Comprar um segundo forno exige investimento alto e prazo longo. Tirar horas do forno que já existe libera capacidade com reparos, padrões e manutenção.

Foi isso que a equipe encontrou. O tempo de processo do RC2 estava alto, o consumo de energia e a emissão de gases subiam junto, e a empresa não conseguia entregar a meta anual de produção. O gargalo não era falta de pedido, era tempo de forno.

Visão geral do projeto de redução do tempo de processo do RC2

O projeto foi conduzido por um aluno da formação Green Belt, com a estrutura do método DMAIC. A tabela resume o projeto antes de entrar em cada fase.

CampoConteúdo
EmpresaVoitto Iron, metalurgia
ProblemaTempo de processo do RC2 elevado, com custo de energia e emissão de gases
Variáveis de saída (Ys)Horas de aquecimento e horas de resfriamento por ciclo
MetaAquecimento e resfriamento em 44 horas cada, ganho de 7 mil toneladas por ano
Linha de baseJan/17 a Mar/18: 843 ciclos de aquecimento e 468 de resfriamento
EscopoCiclo térmico do RC2: água de resfriamento, isolamento, resistências e carregamento
FerramentasSIPOC, Ishikawa, matriz de causa e efeito, esforço x impacto, FMEA, FTA, capabilidade, boxplot
ResultadoMédia mensal de aquecimento de 53,9 para 49,7 h e de resfriamento de 52,8 para 44,8 h

O resultado não bateu a meta nas duas etapas, e a apresentação diz isso com todas as letras. Essa honestidade é parte do que torna o case útil para estudo.

Definir: por que a meta de 44 horas saiu do primeiro quartil

A meta não foi um número redondo escolhido na reunião. A equipe fixou 44 horas para aquecimento e 44 horas para resfriamento, e a apresentação explica a origem: o primeiro quartil de cada etapa.

O primeiro quartil é o tempo abaixo do qual caem 25% dos ciclos. Na linha de base ele foi 43,9 horas no aquecimento e 43,725 horas no resfriamento. Arredondados, 44 horas.

A lógica é forte. Se um em cada quatro ciclos já termina em 44 horas ou menos, o forno comprovadamente consegue fazer isso. A meta passa a ser fazer sempre o que hoje se faz nos melhores ciclos, e não uma promessa sem lastro.

A meta também tinha uma segunda parte, de negócio: aumentar a produtividade em 7 mil toneladas por ano. A apresentação não detalha a conta que liga horas a toneladas, e o artigo não a reconstrói como dado do projeto.

Esse tipo de meta derivada do próprio dado é o que um bom project charter precisa ter: um número que qualquer pessoa consiga recalcular a partir da fonte.

Definir: 843 ciclos de aquecimento e 468 de resfriamento no gráfico sumário

Para fixar a linha de base, a equipe montou um gráfico sumário de cada etapa com os dados de janeiro de 2017 a março de 2018. O gráfico sumário junta histograma, boxplot, intervalos de confiança e teste de normalidade numa tela só.

Estatística (horas)AquecimentoResfriamento
N (ciclos)843468
Média54,51254,662
Desvio padrão15,85916,470
Mínimo35,127,3
1º quartil43,943,725
Mediana5052,95
3º quartil59,460,675
Percentil 9585,1681,82
Máximo164,8146,9
IC 95% da média53,440 a 55,58453,166 a 56,158
Normalidade (valor-p)Abaixo de 0,005Abaixo de 0,005

As duas etapas eram parecidas na média, perto de 54,5 horas cada. Somadas, davam 109,174 horas de forno ocupado por ciclo só em aquecimento e resfriamento. A meta somada era 88 horas.

Definir: média acima da mediana, cauda longa e normalidade reprovada

Três leituras saem do gráfico sumário e todas mudam a condução do projeto.

  1. A média de aquecimento, 54,5 horas, ficou 4,5 horas acima da mediana, 50 horas. Isso indica cauda à direita: poucos ciclos muito longos puxam a média para cima.
  2. O máximo chegou a 164,8 horas, três vezes a mediana. No gráfico em ordem de coleta, os pontos marcados como atípicos se espalham pelo período todo no aquecimento e se concentram no fim da série no resfriamento.
  3. O teste de normalidade falhou nas duas etapas, com valor-p abaixo de 0,005. A distribuição não é normal, e estatísticas baseadas em média e desvio precisam ser lidas com cuidado.

A decisão que essas leituras produziram foi usar quartil e mediana para fixar a meta, e não a média. Também ficou claro que havia dois problemas sobrepostos: o ciclo típico longo e os ciclos anormais, que pedem causas diferentes.

O intervalo entre o primeiro e o terceiro quartil foi 15,5 horas no aquecimento e 16,95 no resfriamento. Metade dos ciclos variava numa faixa de quase um turno inteiro de trabalho.

Definir: o SIPOC que mostrou onde o forno começa e termina

Antes de procurar causa, a equipe desenhou o SIPOC do RC2. A ferramenta lista fornecedores, entradas, etapas do processo, saídas e clientes, e serve para combinar onde o projeto começa e onde termina.

A apresentação não reproduz o SIPOC. A versão abaixo é ilustrativa, coerente com as causas que o projeto investigou depois.

ElementoConteúdo ilustrativo
FornecedoresEtapa anterior de laminação, utilidades (energia e água), manutenção
EntradasCarga a tratar, energia elétrica, água de resfriamento, areia do selo
ProcessoCarregar, vedar, aquecer, manter, resfriar, descarregar
SaídasCarga tratada, horas de aquecimento, horas de resfriamento
ClientesEtapa seguinte da linha e planejamento da produção

O ganho prático do SIPOC foi mostrar que água, energia e manutenção são entradas do processo. Por isso as causas ligadas a utilidades e a reparos entraram no escopo, em vez de serem tratadas como problema de outra área.

Medir: o Ishikawa usado para escolher que setores atacar

Com o SIPOC pronto, a equipe usou o diagrama de Ishikawa para levantar as causas possíveis do tempo alto. O objetivo declarado foi identificar quais setores deveriam ser priorizados.

O Ishikawa organiza as hipóteses em famílias, como máquina, método, material, mão de obra, medida e meio ambiente. Ele não prova nada. Serve para que nenhuma família fique esquecida e para que a lista seja grande o bastante antes de afunilar.

Aqui a lista ficou grande de fato. A numeração das variáveis de entrada, os Xs, chega a X71. Havia dezenas de causas candidatas para um único Y, e investigar todas com dado seria inviável no prazo de um projeto Green Belt.

Foi essa quantidade que justificou a ferramenta seguinte. Quando o Ishikawa gera mais causas do que a equipe consegue testar, é preciso um critério para ordenar, e a matriz de causa e efeito faz exatamente isso.

Medir: como a matriz de causa e efeito pontuou cada X

A matriz de causa e efeito cruza cada X com os Ys do cliente. Cada Y recebe um peso pela importância. Depois a equipe dá uma nota para a força da relação entre cada X e cada Y, normalmente 0, 1, 3 ou 9.

A pontuação de um X é a soma dos produtos entre peso e nota. A apresentação mostra só as pontuações finais, então o exemplo a seguir é ilustrativo, para mostrar a conta.

Y (ilustrativo)PesoNota do XPeso x nota
Tempo de aquecimento10990
Tempo de resfriamento8972
Consumo de energia5315
Pontuação do X--177

A matriz tem um limite que vale registrar. A nota é opinião da equipe, não medida. Ela ordena bem as hipóteses, mas não substitui a verificação. Por isso a equipe não parou nela e cruzou o resultado com o esforço de agir sobre cada causa.

Medir: os 20 Xs de maior pontuação, entre água e resistências

A equipe separou os Xs de maior pontuação, cerca de 30% da lista, o que deu 20 variáveis. A tabela mostra as dez primeiras com a pontuação da apresentação.

PosiçãoXDescriçãoPontos
1X34Desarme na subestação por alta tensão226
2X29Falta de água no sistema de resfriamento223
3X25Vazamento de água para o interior do forno177
4X40Vazamento de água da camisa d'água174
5X65Qualidade do reparo da resistência de base174
6X70Controle de vazão de água manual170
7X27Ruptura de resistência165
8X23Cabo solto154
9X15Mau contato do cabo de potência153
10X21Curto-circuito de resistência153

Lida por família, a lista conta uma história clara. Quatro das seis primeiras posições falam de água: falta, vazamento interno, vazamento da camisa e controle de vazão. O restante é quase todo elétrico: resistência rompida, reparo malfeito, cabo solto, curto.

Mais abaixo aparecem o isolamento térmico entre forno e compartimento, X31, com 143 pontos, e a falta de limpeza no trocador de calor, X71, com 132. A vigésima posição, deficiência no enchimento de areia do selo, fechou com 125.

Medir: a matriz esforço x impacto que separou o rápido do complexo

A pontuação diz o que importa, mas não diz por onde começar. Para isso a equipe usou a matriz esforço x impacto, que coloca cada X num de quatro quadrantes.

QuadranteEsforçoImpactoXsTratamento
PrioritáriosBaixoAltoX15, X22, X23, X24, X32, X57, X58, X65, X69, X71Agir primeiro
ComplexosAltoAltoX6, X25, X27, X29, X31, X34, X40, X70Projeto estruturado
Ver e agirBaixoBaixoX18, X21, X26Plano de ações 5W2H
DescartarAltoBaixoNenhum-

A leitura mais importante é que nenhum X caiu em descartar. Tudo o que chegou até aqui tinha impacto alto, ou esforço baixo, ou os dois.

Os dez prioritários são quase todos elétricos: cabos, terminais, reparos de resistência e a limpeza do trocador. Os oito complexos concentram a água e o isolamento. Os três de baixo impacto viraram ações simples, sem análise adicional.

Analisar: as cinco causas raiz que sobraram do funil

Na fase de análise, a equipe cruzou as falhas das etapas anteriores com a matriz esforço x impacto e reduziu a lista. A apresentação cita cinco causas raiz. A coluna de mecanismo é explicação ilustrativa de como cada uma alonga o ciclo.

Causa raizX correspondentePontosComo alonga o ciclo (ilustrativo)
Falta de água no resfriamentoX29223Sem vazão, o calor sai devagar e o resfriamento se arrasta
Vazamento de água no interior do fornoX25177Água dentro da câmara rouba calor no aquecimento e obriga parada
Controle manual de vazão ineficienteX70170Vazão depende do operador e varia de ciclo para ciclo
Isolamento térmico do fornoX31143Calor escapa pela parede e as resistências trabalham mais tempo
Falta de limpeza no trocador de calorX71132Incrustação reduz a troca térmica e alonga o resfriamento

Quatro das cinco causas estão no quadrante complexo. Só a limpeza do trocador é prioritária. A equipe não fugiu do difícil: as causas de maior pontuação ligadas à água ficaram no projeto mesmo exigindo reparo estrutural.

Também vale notar o que ficou de fora da lista final. O desarme por alta tensão, primeiro colocado com 226 pontos, não aparece entre as causas atacadas, provavelmente por depender de infraestrutura externa ao forno.

Analisar: a água como fio condutor do aquecimento e do resfriamento

A estratificação das causas por família mostra por que o projeto se concentrou na água. Ela aparece nas duas pontas do ciclo.

No aquecimento, água vazando para dentro do forno é energia jogada fora: parte do calor das resistências vai para evaporar água em vez de aquecer a carga. No resfriamento, falta de água ou vazão errada faz o contrário, segura o calor dentro do forno.

Isso explica um padrão dos dados de base. As duas etapas tinham médias quase iguais e variação alta nas duas. Uma causa comum, o circuito de água, atuando nos dois sentidos, produz exatamente esse retrato.

A apresentação não traz teste estatístico formal ligando cada X ao tempo. A ligação foi construída pela pontuação da matriz e pelo conhecimento técnico da equipe. Um projeto que queira ir além pode usar teste de hipótese para comparar ciclos com e sem falha de água registrada.

Melhorar: FMEA e FTA para escolher a ação de cada causa

Para transformar causa em ação, a equipe usou duas ferramentas: FMEA e FTA. As duas olham a falha por ângulos complementares.

A FMEA parte do modo de falha e pergunta o efeito, a causa e o controle atual. Cada linha recebe notas de severidade, ocorrência e detecção, e o produto das três é o número de prioridade de risco.

A FTA, análise de árvore de falhas, faz o caminho inverso. Começa no evento indesejado, por exemplo o resfriamento acima de 44 horas, e desce pelos eventos que podem causá-lo, ligados por portas lógicas E e OU.

A apresentação não mostra as tabelas. Uma linha ilustrativa da FMEA ajuda a entender a conta: vazamento de água na parede com severidade 8, ocorrência 6 e detecção 7 dá prioridade de risco 336, alta o bastante para exigir ação.

A FTA completa a FMEA mostrando combinações. Falta de água sozinha alonga o resfriamento. Falta de água somada a trocador sujo pode dobrar o efeito. Essa visão de combinação é o que a FMEA linha a linha não entrega.

Melhorar: dreno de transbordo, reparo de parede e mais três ações

O plano de ação saiu com cinco frentes. A tabela liga cada ação à causa que ela ataca.

Ação realizadaCausa atacadaTipo de controle
Dreno de transbordo na caixa de pressãoControle manual de vazão e falta de águaRemove dependência do operador
Reparo nas paredes do fornoIsolamento térmico e vazamento internoCorrige a estrutura
Inspeção com termovisor e limites definidosIsolamento térmicoDetecta perda antes da falha
Manutenção das resistências danificadasResistências rompidas e reparos ruinsRecupera eficiência de aquecimento
Prática de recarregamento mais organizadaFalhas e acidentes no carregamentoPadroniza o método

O dreno de transbordo é a ação mais interessante do ponto de vista de método. Em vez de treinar o operador para acertar a vazão, a equipe mudou o equipamento para que o excesso escoe sozinho. É a lógica do poka-yoke: tirar do erro humano a chance de acontecer.

O termovisor segue outro raciocínio. Ele não corrige nada, mas transforma uma perda invisível, o calor saindo pela parede, numa leitura com limite. Quando o ponto quente passa do limite, a manutenção é chamada antes de virar vazamento.

Controlar: capabilidade do aquecimento antes e depois, Pp de 0,11 para 0,17

Para medir o efeito, a equipe comparou a capabilidade do processo de aquecimento antes e depois. Os limites usados foram 38 horas como especificação inferior, 44 como alvo e 48 como superior.

IndicadorAntesDepoisVariação
Média (h)54,51249,579-4,9337
Desvio padrão global (h)15,8599,7734-6,0859
Pp0,110,17+0,07
Ppk-0,14-0,05+0,08
Z.Bench-0,87-0,47+0,40
% fora da especificação80,8268,22-12,60
PPM808.225682.226-125.999

O Pp compara a largura da especificação com seis desvios: 10 dividido por 6 vezes 15,859 dá 0,11. O Ppk mede a distância até o limite mais próximo. Como a média passava do limite superior, o Ppk deu negativo: 48 menos 54,512, dividido por 3 vezes 15,859, resulta em menos 0,14.

Ppk negativo diz que o centro do processo estava fora da especificação. Mesmo depois, com média de 49,579 horas, o centro seguia 1,579 hora acima do limite superior.

Controlar: o que os 16% significam e o que os testes confirmaram

A apresentação fala em melhoria de 16%. O número é a redução relativa do percentual fora da especificação: de 80,82% para 68,22% são 12,60 pontos, e 12,60 dividido por 80,82 dá 15,6%, arredondado para 16%.

A diferença entre ponto percentual e redução relativa importa ao relatar resultado. Dizer que o processo melhorou 16% é correto, desde que fique claro sobre qual base. Em pontos, a fatia de ciclos fora caiu 12,6.

O relatório trouxe dois testes. O desvio padrão caiu de forma significativa, com valor-p abaixo de 0,001. A média também mudou de forma significativa, com valor-p abaixo de 0,05, e ficou mais perto do alvo.

A queda do desvio foi de 38,4%, de 15,859 para 9,7734 horas. Esse é talvez o ganho mais sólido do projeto: o forno passou a ter ciclos mais previsíveis, o que facilita programar a produção.

A frase da apresentação sobre capacidade real próxima da potencial quer dizer que a variação de longo prazo ficou perto da variação de curto prazo. O processo ficou mais estável, ainda que deslocado do alvo.

Controlar: médias mensais de aquecimento e resfriamento, baseline contra projeto

A segunda forma de leitura foi por boxplot das médias mensais: 15 meses de baseline contra 4 meses do projeto.

Indicador (h)Aquecimento antesAquecimento depoisResfriamento antesResfriamento depois
Meses (N)154154
Média mensal53,94149,65552,75544,773
Desvio padrão2,87321,44805,00411,9995
Mínimo48,1748,3147,543,53
Máximo58,3351,2467,3647,74
Distância da meta de 44 h9,9415,6558,7550,773

A redução foi de 4,286 horas no aquecimento, 7,9%, e de 7,982 horas no resfriamento, 15,1%. A soma das duas etapas caiu de 106,696 para 94,428 horas, 12,268 horas a menos por ciclo, ou 11,5%. O texto da apresentação arredonda para 5 horas em cada etapa.

Na curva mês a mês, o aquecimento saiu do pico de 58,35 horas em março, quando o DMAIC começou, para 47,15 horas em agosto, contra meta de 45. O resfriamento caiu de 67,36 horas em janeiro para 43,53 em maio e 44,19 em julho, em cima da meta de 44.

A meta foi praticamente atingida no resfriamento e não foi atingida no aquecimento. As ações sobre a água pesaram mais no resfriamento, e o aquecimento ainda depende de isolamento e resistências.

O que o case do RC2 ensina a quem vai conduzir um Green Belt parecido

Para dimensionar o efeito na produção, uma conta ilustrativa ajuda. Se o forno rodasse só aquecimento e resfriamento o ano todo, 8.760 horas caberiam 82,1 ciclos de 106,696 horas e 92,8 ciclos de 94,428 horas, cerca de 13% a mais.

A conta ignora carga, descarga e paradas, e não comprova as 7 mil toneladas da meta, porque a apresentação não traz a carga por ciclo. Ela mostra a ordem de grandeza que liga hora de forno a tonelada.

  • Meta tirada do quartil da própria linha de base é defensável: mostra que o alvo já acontece em parte dos ciclos.
  • Com dados assimétricos e normalidade reprovada, mediana e quartis contam a história melhor que a média.
  • Matriz de causa e efeito ordena hipóteses, mas a nota é opinião; o passo seguinte precisa ser dado ou experiência técnica registrada.
  • Mudar o equipamento, como no dreno de transbordo, controla melhor que treinar o operador.
  • Reportar meta não atingida, com o tamanho da distância, dá mais credibilidade que esconder o resultado.

Na fase de controle, o próximo passo natural é um plano de controle formal e uma carta de controle das horas por ciclo. Como boa parte das causas é falha de equipamento, acompanhar MTBF e MTTR das resistências fecha o ciclo.

Um último ponto vale para qualquer projeto de redução do tempo de processo em equipamento térmico. O ganho só se sustenta se a manutenção continuar fazendo o que o projeto começou, como limpeza do trocador e reparo de resistências com padrão definido.

Esse é o tipo de projeto trabalhado na certificação Green Belt: problema de chão de fábrica, dado histórico, ferramentas escolhidas pela pergunta de cada fase e resultado medido sem maquiagem.

Perguntas frequentes

O que é o RC2 neste case?
É a sigla interna de um forno de tratamento térmico em batelada da Voitto Iron, nome descaracterizado da metalúrgica. O ciclo tem aquecimento e resfriamento, e cada etapa levava em média 54,5 horas na linha de base de janeiro de 2017 a março de 2018. A descrição detalhada do equipamento no artigo é ilustrativa, reconstruída a partir das causas levantadas pelo projeto.
Por que a meta foi de 44 horas para cada etapa?
Porque 44 horas era o primeiro quartil da linha de base: 43,9 horas no aquecimento e 43,725 no resfriamento. Um em cada quatro ciclos já terminava nesse tempo. A meta passou a ser repetir sempre o desempenho dos melhores ciclos, o que é verificável a partir do próprio dado.
Por que usar quartil e mediana em vez da média?
Porque a distribuição era assimétrica e o teste de normalidade falhou, com valor-p abaixo de 0,005. No aquecimento a média foi 54,5 horas e a mediana 50, com máximo de 164,8 horas. Poucos ciclos muito longos puxavam a média para cima, e o quartil descreve melhor o ciclo típico.
Como funciona a matriz de causa e efeito usada no projeto?
Cada Y do cliente recebe um peso, e cada X recebe uma nota pela força da relação com cada Y, em geral 0, 1, 3 ou 9. A pontuação do X é a soma de peso vezes nota. No case, o primeiro colocado foi o desarme por alta tensão, com 226 pontos, seguido da falta de água no resfriamento, com 223.
Para que serve a matriz esforço x impacto depois da matriz de causa e efeito?
A matriz de causa e efeito diz o que importa, e a de esforço x impacto diz por onde começar. No RC2, dez Xs ficaram como prioritários, de baixo esforço e alto impacto, oito como complexos, três foram para um plano 5W2H e nenhum foi descartado.
Quais foram as causas raiz atacadas?
Falta de água no sistema de resfriamento, vazamento de água no interior do forno, controle manual de vazão ineficiente, isolamento térmico do forno e falta de limpeza no trocador de calor. Quatro delas estavam no quadrante complexo da matriz esforço x impacto.
Qual a diferença entre FMEA e FTA no projeto?
A FMEA parte de cada modo de falha e calcula a prioridade de risco pelo produto de severidade, ocorrência e detecção. A FTA parte do evento indesejado, como o resfriamento longo, e desce pelas combinações de causas. Juntas, mostram o risco de cada falha e as combinações que agravam o efeito.
O que significa a melhoria de 16% citada no resultado?
É a redução relativa do percentual de ciclos de aquecimento fora da especificação de 38 a 48 horas. Ele caiu de 80,82% para 68,22%, 12,60 pontos. Dividindo 12,60 por 80,82 chega-se a 15,6%, arredondado para 16%.
Por que o Ppk do aquecimento foi negativo?
Porque a média do processo estava acima do limite superior de 48 horas. Antes do projeto, 48 menos 54,512, dividido por 3 vezes 15,859, dá menos 0,14. Depois, com média de 49,579 horas e desvio de 9,7734, o Ppk subiu para menos 0,05, ainda negativo.
A meta foi atingida?
Parcialmente. A média mensal de resfriamento caiu de 52,755 para 44,773 horas, a 0,773 hora da meta de 44. A de aquecimento caiu de 53,941 para 49,655 horas, ainda 5,655 horas acima. O desvio padrão do aquecimento caiu 38,4%, o que tornou o ciclo mais previsível.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…