Metodologias & Qualidade

Case Master Black Belt: redução de custos de viagem com DMAIC

Uma rede de farmácias em expansão, um gasto com viagens e hotéis que chegou a 12,81 vezes o orçado num único mês e o projeto DMAIC que mapeou o pedido, separou as causas em dois Ishikawas e trocou improviso por política e formulário.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  16 min de leitura
Integrante da equipe Voitto no escritório da empresa, com o texto Case Master Black Belt: redução de custos de viagem com DMAIC sobre fundo escuro à esquerda

Uma rede de farmácias que abre lojas em outros estados passa a viajar mais. Isso é esperado. O que não é esperado é o gasto com viagens e hotéis chegar a R$ 235,70 mil num mês com orçamento de R$ 18,40 mil.

Este case acompanha um projeto de redução de custos de viagem e hospedagem na Voitto Serviços, rede do varejo farmacêutico. A meta foi reduzir esses custos em 15%, com ganho previsto de R$ 116.000,00.

De janeiro a outubro, o gasto real somou R$ 646,55 mil contra R$ 168,00 mil orçados. O salto começou em maio, junto com a abertura de lojas fora do estado de origem, e o pedido de viagem em cima da hora virou rotina.

O relato segue as cinco fases do DMAIC. Passa pela leitura do histórico, pelo mapa de quatro etapas sem aprovação, pelos dois Ishikawas, pelo plano de cinco ações e pelos formulários que viraram o controle do processo.

Sobre a procedência: trata-se de um projeto real de aluno da formação Master Black Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente. Os números vêm da apresentação original. O que foi acrescentado para explicar, como contexto do processo e exemplos de cálculo, está identificado como ilustrativo ou como derivação.

A rede de farmácias que abria lojas em outros estados e viajava sem antecedência

A Voitto Serviços é uma rede do varejo farmacêutico em expansão. Cada loja nova fora do estado de origem exige gente viajando: gerentes de implantação, equipe de treinamento, auditoria de estoque e diretoria.

Enquanto a rede era regional, a despesa de viagens e hospedagens cabia no orçamento. Havia gestão sobre as solicitações e o gasto não excedia o previsto. A expansão mudou a natureza do pedido: as solicitações passaram a chegar em cima da hora.

Viagem comprada em cima da hora custa mais por três motivos simples. A passagem aérea encarece perto da data, o hotel conveniado costuma estar lotado e a remarcação vira rotina. Nenhum desses custos aparece isolado no balancete, só a conta somada.

O projeto foi conduzido por um aluno da formação Master Black Belt da Voitto e seguiu o método DMAIC. A tabela resume o que a apresentação executiva registrou.

CampoConteúdo
EmpresaVoitto Serviços, rede do varejo farmacêutico
ProblemaSolicitações imediatas de viagem e hotel inviabilizaram o orçamento
MetaReduzir em 15% os custos com viagens e hospedagens
Escopo dentroCusto com viagens e hospedagens
Escopo foraAlimentação em viagem, adiada para a segunda fase
Ganho previstoR$ 116.000,00

Dez meses de histórico: R$ 168 mil orçados contra R$ 646,55 mil gastos

A fase Definir trouxe um gráfico de colunas com o gasto real de janeiro a outubro e uma linha com o orçado. Os valores estão em milhares de reais.

MêsReal (R$ mil)Orçado (R$ mil)Real sobre orçado
Jan18,2210,401,75 vez
Fev11,0610,401,06 vez
Mar20,2418,401,10 vez
Abr14,4718,400,79 vez
Mai49,6718,402,70 vezes
Jun47,8718,402,60 vezes
Jul102,2018,405,55 vezes
Ago46,2218,402,51 vezes
Set100,9018,405,48 vezes
Out235,7018,4012,81 vezes
Total646,55168,003,85 vezes

Somados, os dez meses gastaram R$ 646,55 mil contra R$ 168,00 mil previstos, um excesso de R$ 478,55 mil. Só outubro respondeu por 36,5% do gasto do período, e julho, setembro e outubro juntos por 67,9%.

O gráfico mostra dois comportamentos diferentes. Um gasto que acompanha o orçado nos primeiros meses e outro que salta e oscila a partir de maio. Ler essa mudança foi o primeiro trabalho analítico do projeto.

Janeiro a abril contra maio a outubro: o histórico partido em dois blocos

A estratificação mais simples de uma série temporal é cortar no ponto em que o comportamento muda. Aqui o corte natural fica entre abril e maio.

BlocoReal (R$ mil)Orçado (R$ mil)Média mensal realReal sobre orçado
Jan a Abr63,9957,6016,001,11 vez
Mai a Out582,56110,4097,095,28 vezes

De janeiro a abril o gasto ficou 11% acima do previsto, desvio que um orçamento absorve. De maio a outubro a média mensal foi seis vezes a do primeiro bloco, e o gasto real somou 5,28 vezes o orçado.

A leitura que essa divisão produz é decisiva para o resto do projeto. O problema não era um descontrole antigo, era uma mudança de patamar ligada a um evento: a abertura de lojas fora do estado. Isso orienta a análise para o que mudou, e não para o processo inteiro.

Os meses de pico também oscilam muito, de R$ 46,22 mil em agosto a R$ 235,70 mil em outubro. Oscilação desse tamanho sugere que o gasto segue o calendário de inaugurações, e não uma demanda de rotina.

A meta de 15% e a conta que reproduz o ganho previsto de R$ 116 mil

A apresentação traz a meta e o ganho previsto, mas não a conta. Ela pode ser reconstruída com os dados do histórico, e o número fecha.

  1. a média mensal de janeiro a outubro é R$ 646,55 mil dividido por 10, ou R$ 64,655 mil;
  2. anualizada, a média dá R$ 775,86 mil por ano;
  3. 15% de R$ 775,86 mil é R$ 116,38 mil, o ganho previsto de R$ 116.000,00 arredondado.

A reconstrução é uma derivação deste artigo, não uma linha da fonte. Ela mostra que a meta foi calculada sobre o gasto real do ano, e não sobre o orçado.

Há uma consequência que merece ser dita. Cumprida a meta, a média mensal cairia para R$ 54,96 mil, ainda 2,99 vezes o orçado de R$ 18,40 mil. O projeto não prometeu voltar ao orçamento.

Essa escolha é coerente. O orçado de R$ 18,40 mil foi feito para uma rede sem lojas em outros estados. Prometer cumpri-lo seria prometer desfazer a expansão. O charter escolheu reduzir o desperdício dentro do novo patamar, que é o que um projeto Seis Sigma consegue entregar.

Passagens e hotéis dentro, alimentação para a segunda fase

O escopo ficou registrado em duas linhas. Dentro: custo com viagens e hospedagens. Fora, na primeira fase: despesas com alimentação em viagem, que entrariam numa segunda fase.

A exclusão da alimentação tem lógica de causa. Passagem e hotel são comprados antes da viagem, por um canal central, e respondem a antecedência e negociação. Alimentação é gasta durante a viagem, pelo próprio colaborador, e responde a diária e prestação de contas.

Juntar as duas despesas obrigaria a equipe a analisar dois processos com donos, momentos e causas diferentes. Separar permite atacar primeiro o que passa pela agência e pela aprovação, onde a alavanca é maior.

Um escopo assim também protege a medição do ganho. Se a alimentação entrasse, uma variação no valor da diária mascararia o efeito das ações sobre passagem e hotel.

Quatro etapas entre o pedido do departamento e o check-in

A fase Medir começou pelo mapa do processo de compra. Ele tem quatro etapas: solicitação dos departamentos, encaminhamento para as agências, envio do check-in pela agência e repasse para o solicitante.

Num processo de serviço, o mapa é a primeira medição possível. Não há máquina nem peça. O que existe é um fluxo de pedidos, e entender por onde ele passa diz onde o custo é formado.

Lido com atenção, o mapa denuncia o problema pelo que falta nele. Não há etapa de aprovação entre a solicitação e a agência. Não há verificação de orçamento do departamento. Não há regra de antecedência. A agência recebe o pedido e compra.

Um SIPOC teria deixado essas ausências ainda mais visíveis. Os fornecedores são as agências e os hotéis. A entrada é o pedido do departamento. O cliente é o colaborador que viaja. E nenhum requisito de prazo ou de custo está escrito na entrada.

O que medir numa despesa: antecedência, tarifa e diária por cidade

A apresentação registra o histórico financeiro e o mapa, mas não um plano de coleta por pedido. Para um leitor que vá conduzir projeto parecido, vale mostrar o que esse plano teria. A tabela abaixo é ilustrativa e não descreve dado do projeto.

VariávelPor que importaOnde buscar
Dias de antecedência do pedidoTarifa aérea sobe perto da dataData da solicitação e data da viagem
Tarifa média por trechoMostra o efeito da antecedênciaFatura da agência
Diária média por cidadeRevela a diferença de tarifa entre estadosNota do hotel
Remarcações e no-showCusto que não gera viagemRelatório da agência
Comissão da agênciaPercentual pago sobre cada compraContrato e fatura
Departamento solicitanteMostra quem pede e se havia orçamentoCadastro do pedido

Com essas variáveis, o gasto mensal deixa de ser um número só e passa a ser explicável. Um mês caro pode ser um mês de muitas viagens ou um mês de viagens mal compradas. Só a estratificação por pedido separa as duas coisas.

Com esses dados por pedido, um diagrama de Pareto do gasto por cidade ou por departamento mostraria onde a redução de custos de viagem rende mais. A apresentação não traz esse Pareto, e o artigo não o reconstrói, porque não há dado para isso.

Esse é o limite da apresentação executiva. Ela mostra onde o projeto chegou, mas a medição por pedido é o que permitiria provar a contribuição de cada causa.

Dois Ishikawas em vez de um: transporte e hospedagem separados

Na fase Analisar, a equipe montou dois diagramas de Ishikawa. O efeito de um é o aumento do pacote de viagens. O efeito do outro é o aumento do pacote de hospedagens.

A separação segue a mesma lógica do escopo. Passagem e hotel são comprados juntos, mas o preço de cada um se forma de modo diferente. A passagem depende de antecedência e remarcação. O hotel depende de cidade, ocupação e escolha do estabelecimento.

Um Ishikawa único tenderia a misturar causas de natureza diferente no mesmo ramo, e a discussão se perderia. Com dois diagramas, cada causa fica ao lado das que competem com ela pelo mesmo efeito.

Os dois diagramas são qualitativos. Eles organizam hipóteses levantadas pela equipe, e não medem nada. A pergunta seguinte, que a apresentação responde por julgamento da equipe, é quais dessas hipóteses carregam o custo.

Pedido em cima da hora, remarcação e voo perdido: as causas do transporte

O Ishikawa do transporte registrou oito causas. A tabela agrupa cada uma pela natureza do problema, para facilitar a leitura.

Causa registradaNaturezaComo encarece
Solicitações enviadas perto do dia da viagemPrazoTarifa aérea mais alta
Falta de organização gera pagamento de tarifasPrazoTaxa de remarcação
Alteração de horários ou diasPrazoTaxa de remarcação
Colaboradores que perdem o vooExecuçãoNova passagem e taxa
Agência demora a repassar os créditosFornecedorCrédito parado ou perdido
Departamentos não orçaram viagensPlanejamentoGasto sem teto
Compra da diretoria com cartão corporativoControleGasto fora do canal
Abertura de lojas em outros estadosContextoMais viagens

Quatro das oito causas são de prazo ou de execução da viagem, e todas produzem o mesmo efeito: pagar mais pelo mesmo trecho. Esse agrupamento mostra que a alavanca principal do transporte é a antecedência.

A abertura de lojas aparece como causa, mas não é algo a eliminar. É o motivo de negócio que gera a demanda. Ela fica no diagrama para lembrar que parte do aumento é legítima.

Reserva imediata, congressos e hotel mais caro: as causas da hospedagem

O Ishikawa da hospedagem registrou sete causas. Três delas se repetem do transporte, e quatro são próprias do hotel.

Causa registradaNaturezaComo encarece
Gestores solicitam reservas imediatasPrazoDiária de balcão
Congressos regionais ocupam hotéis conveniadosMercadoReserva em hotel fora do convênio
Reservas feitas em hotéis mais carosEscolhaDiária maior sem ganho de serviço
Diferença de tarifa entre os estadosMercadoDiária maior em certas capitais
Departamentos não orçaram hospedagensPlanejamentoGasto sem teto
Reserva da diretoria com cartão corporativoControleGasto fora do canal
Abertura de lojas em outros estadosContextoMais diárias

A causa dos congressos é instrutiva. Ela não depende da empresa, mas tem efeito previsível: quando o calendário de eventos lota o conveniado, a reserva de última hora cai em hotel mais caro. Antecedência neutraliza parte desse efeito.

A diferença de tarifa entre estados explica por que o plano de ação foi organizado por cidade. Uma capital cara pesa no total mesmo com poucas viagens.

As três causas que aparecem nos dois diagramas

Quando a mesma causa aparece em dois Ishikawas independentes, ela merece peso maior. Três causas se repetem.

Causa comumPor que pesaResposta do projeto
Abertura de lojas em outros estadosGera o volumeAceita como demanda legítima
Departamentos sem orçamento de viagemNinguém responde pelo tetoAutorização com gestor e diretoria
Diretoria comprando com cartão corporativoGasto fora do canal e sem registroPolítica unificada e autorização de pagamento

A terceira causa é delicada e por isso importante. Quando a diretoria compra fora do canal, o gasto não passa pela agência nem pelo controle, e o exemplo enfraquece qualquer regra para o resto da empresa.

Os 5 porquês ajudariam a ir além. Por que o pedido chega em cima da hora? Porque o departamento não planejou a viagem. Por que não planejou? Porque não tinha orçamento a respeitar. A cadeia termina numa regra que não existia, e não numa pessoa.

Do diagrama ao plano: cinco ações com o que, quem, como e status

A fase Melhorar foi registrada num plano de ação com cinco linhas. O nome do responsável foi suprimido na fonte. As cidades aparecem aqui como capitais A, B e C.

ProblemaO queComoStatus
Tarifas altas na capital A e comissão das agênciasRenegociar tarifas com os hotéis da capital APesquisa de tarifas menores com o mesmo confortoFinalizado
Tarifas altas na capital B e comissão das agênciasRenegociar tarifas com os hotéis da capital BPesquisa de tarifas menores com o mesmo confortoFinalizado
Tarifa alta para quem mora em hotel nas capitais A e BReduzir custo de moradia dos colaboradoresAluguel de um apartamento de dois quartos em cada cidadeFinalizado
Políticas de viagem diferentes no grupoVisita à controladora do grupoUnificação das políticas de viagemFinalizado
Tarifas altas na capital C e comissão das agênciasAvaliar os flats na capital CManutenção dos flats em marçoFinalizado

O plano não ataca as oito causas do transporte uma a uma. Ele escolhe as alavancas que mais mexem no preço: tarifa por cidade, moradia de quem fica muito tempo e a regra única de viagem.

Todas as linhas aparecem como finalizadas. Isso indica execução, não resultado. O efeito de cada ação no gasto mensal não consta da apresentação.

Renegociar diárias nas capitais caras e rever a comissão das agências

Três das cinco linhas atacam o mesmo par: tarifa alta numa capital e percentual pago às agências. A combinação faz sentido, porque a comissão incide sobre a tarifa e multiplica o efeito de um preço alto.

A renegociação seguiu um critério explícito: buscar tarifas menores com o mesmo conforto dos hotéis já usados. O critério evita que a economia venha de piorar a hospedagem, o que geraria reclamação e voltaria como exceção à regra.

Um exemplo ilustrativo mostra o peso da comissão. Se uma capital consome R$ 40 mil de hospedagem num mês e a agência cobra 10%, são R$ 4 mil pagos só pela intermediação. Os valores são hipotéticos e não vêm do projeto.

Negociar direto com os hotéis de uma cidade com volume recorrente transforma uma compra avulsa em contrato. Essa é a lógica por trás da lista de hotéis credenciados que apareceria depois, na fase Controlar.

Apartamento de dois quartos para quem mora a trabalho na cidade

Na expansão, alguns colaboradores passaram a viver semanas seguidas nas capitais A e B. Para eles, a diária de hotel deixou de ser hospedagem e virou aluguel caro. A ação foi alugar um apartamento de dois quartos em cada cidade.

O cálculo abaixo é ilustrativo, com valores hipotéticos, para mostrar a forma da decisão. Dois colaboradores, 22 noites por mês, diária de R$ 180,00.

  • em hotel: 180 vezes 22 vezes 2 dá R$ 7.920,00 por mês;
  • em apartamento: aluguel, condomínio e contas de R$ 3.800,00 por mês;
  • diferença: R$ 4.120,00 por mês em cada cidade, 52,0% do custo em hotel.

A decisão só vale quando a permanência é longa e previsível. Para visita curta o hotel continua mais barato, porque o apartamento custa o mês inteiro mesmo vazio.

A capital C recebeu ação parecida por outro caminho. A empresa já tinha flats na cidade, e a ação foi fazer a manutenção deles em março para que voltassem a ser usados no lugar de hotel.

A política unificada de viagens e os três prazos que ela criou

Uma das causas era estrutural: empresas do mesmo grupo tinham políticas de viagem diferentes. A ação foi uma visita à controladora do grupo e a unificação das políticas.

A política nova estabeleceu prazos para três momentos do processo. A apresentação lista os momentos, mas não os prazos em dias.

  1. solicitação de viagem, que ataca diretamente o pedido em cima da hora;
  2. solicitação de adiantamento, que separa o dinheiro da viagem da compra da passagem;
  3. prestação de contas, que fecha o ciclo e permite comparar o adiantado com o gasto.

O prazo de solicitação é a contramedida mais direta para as causas de prazo dos dois Ishikawas. Ele funciona como um poka-yoke de processo: o pedido fora do prazo não segue sem aprovação adicional.

Política unificada também resolve o problema do cartão corporativo da diretoria. Uma regra que vale para o grupo inteiro não tem exceção por cargo.

Cinco controles em papel e o processo comparado antes e depois

A fase Controlar definiu cinco controles: hotéis credenciados, autorização de viagem, relatório semanal de despesa de viagem, relatório de viagem e formulário de autorização de pagamento.

A autorização de viagem registra destino, datas, meio de transporte, número de diárias, hotel conveniado ou agência e motivo. Ela exige três assinaturas: gestor da área, gestor do pacote e diretoria. É a etapa de aprovação que faltava no mapa.

O relatório semanal abre o gasto por tipo, com combustível, pedágio, passagens, táxi e refeições, e exige comprovante de tudo. O formulário de pagamento pergunta se a despesa estava prevista no orçamento e amarra cada valor a um centro de custo.

Item do processoAntesDepois
Pedido de viagemSem prazo mínimoPrazo definido na política
AprovaçãoNão existia no mapaGestor da área, gestor do pacote e diretoria
Escolha do hotelCaso a caso, inclusive mais carosHotéis credenciados com tarifa renegociada
Colaborador fixo nas capitais A e BHotelApartamento de dois quartos
Política de viagemDiferente por empresa do grupoUnificada
Prestação de contas-Relatório semanal com comprovante
Gasto mensal médioR$ 64,66 mil, jan a outMeta de R$ 54,96 mil
Ganho-Previsto R$ 116 mil; medido não consta

A última linha precisa ser lida com rigor. A apresentação não traz o gasto depois do projeto, então o ganho realizado não pode ser afirmado.

O que falta para fechar o ciclo: a carta do gasto mensal

Formulários garantem que o processo novo seja seguido. Eles não dizem se o gasto caiu. Para isso o projeto precisaria de um indicador acompanhado no tempo, com regra de reação.

A ferramenta natural é uma carta de controle do gasto mensal, normalizado pelo número de viagens ou de lojas em implantação. Normalizar importa, porque um mês com três inaugurações vai gastar mais sem que o processo tenha piorado.

O plano de controle amarraria indicador, frequência, dono e reação. Um exemplo ilustrativo: percentual de pedidos fora do prazo, medido por semana, com dono no administrativo e revisão da política se passar de um teto acordado.

A validação financeira seguiria o critério combinado no charter. O cálculo do retorno financeiro de um projeto Seis Sigma compara o gasto real depois das ações com a linha de base de R$ 64,655 mil por mês, corrigida pelo volume de viagens.

O que o case ensina a quem vai conduzir um Master Black Belt sobre despesa administrativa

O case mostra que o DMAIC funciona fora da fábrica. Despesa de viagem é um processo como outro qualquer, com entrada, etapas, fornecedores e falhas que custam dinheiro. O Lean Seis Sigma trata desperdício administrativo com a mesma lógica.

  1. partir o histórico no ponto de mudança antes de analisar, porque isso separa causa nova de problema crônico;
  2. calcular a meta sobre o gasto real e dizer o que ela não promete, como a volta ao orçamento antigo;
  3. separar despesas com mecanismos de preço diferentes, em escopo e em Ishikawa;
  4. dar mais peso às causas que aparecem em mais de um diagrama;
  5. medir o resultado no tempo, normalizado pelo volume, e não só registrar ações finalizadas.

Em redução de custos de viagem, a tentação é começar pelo corte: proibir viagem, baixar a diária, trocar a agência. O case mostra o caminho inverso. Primeiro entender como o preço se forma, depois mexer no processo que forma o preço.

O ponto fraco do case também ensina. Sem medição por pedido e sem o gasto depois das ações, a apresentação prova que o processo mudou, mas não quanto cada mudança rendeu.

Num projeto de despesa, o custo da má qualidade está em remarcação, voo perdido e diária de balcão. Medir esses itens desde a fase Medir é o que transforma um bom plano de ação num ganho comprovado.

Perguntas frequentes

Como aplicar Seis Sigma na redução de custos de viagem?
Tratando a compra de viagem como processo. Neste case o DMAIC partiu do histórico mensal de gasto, mapeou as quatro etapas entre o pedido e o check-in, levantou causas em dois Ishikawas e fechou com plano de ação, política unificada e formulários de controle. O método é o mesmo de uma fábrica; muda o objeto medido.
De onde saiu o ganho previsto de R$ 116 mil?
A apresentação não traz a conta, mas ela pode ser reconstruída. A média mensal de janeiro a outubro foi R$ 64,655 mil, que anualizada dá R$ 775,86 mil. Aplicando a meta de 15%, chega-se a R$ 116,38 mil, o valor previsto arredondado. A reconstrução é uma derivação deste artigo.
Por que a meta não foi voltar ao orçamento de R$ 18,40 mil por mês?
Porque esse orçamento foi feito para uma rede sem lojas em outros estados. Mesmo cumprida a meta de 15%, a média mensal ficaria em R$ 54,96 mil, 2,99 vezes o orçado. Voltar ao orçamento exigiria desfazer a expansão. O projeto escolheu cortar desperdício dentro do novo patamar de viagens.
Por que separar o histórico em janeiro a abril e maio a outubro?
Porque o comportamento muda entre abril e maio. No primeiro bloco o gasto ficou 1,11 vez o orçado, com média de R$ 16,00 mil por mês. No segundo, 5,28 vezes, com média de R$ 97,09 mil. A divisão mostra que o problema veio de uma mudança recente, a expansão, e não de um descontrole antigo.
Por que fazer dois diagramas de Ishikawa em vez de um?
Porque passagem e hotel formam preço de modos diferentes. A passagem depende de antecedência e remarcação. O hotel depende de cidade, ocupação e escolha do estabelecimento. Separar evita misturar causas de natureza diferente no mesmo ramo e facilita priorizar dentro de cada despesa.
Quais causas pesaram mais na análise?
As que apareceram nos dois diagramas: a abertura de lojas em outros estados, os departamentos sem orçamento de viagem e a compra da diretoria com cartão corporativo. A primeira foi aceita como demanda legítima. As outras duas viraram autorização com três assinaturas e política unificada para o grupo inteiro.
Alugar apartamento é sempre mais barato que hotel?
Não. Só quando a permanência é longa e previsível. No exemplo ilustrativo do artigo, dois colaboradores por 22 noites a R$ 180,00 custam R$ 7.920,00 em hotel contra R$ 3.800,00 de apartamento. Para visitas curtas e esparsas o apartamento fica vazio e custa o mês inteiro.
Quais controles ficaram depois do projeto?
Cinco: lista de hotéis credenciados, autorização de viagem assinada por gestor da área, gestor do pacote e diretoria, relatório semanal de despesa com comprovantes, relatório de viagem com atividades e pendências, e formulário de autorização de pagamento ligado a centro de custo e orçamento.
O projeto atingiu a meta de 15%?
A apresentação não informa. Todas as cinco ações do plano aparecem como finalizadas, mas o gasto depois das ações não consta. Por isso o artigo não afirma ganho realizado. Comprovar exigiria comparar o gasto mensal posterior com a linha de base de R$ 64,655 mil, normalizado pelo volume de viagens.
O que um Master Black Belt deveria medir num projeto de despesa de viagem?
Variáveis por pedido, e não só o total do mês: dias de antecedência, tarifa média por trecho, diária média por cidade, remarcações, no-show, comissão da agência e departamento solicitante. Com elas é possível separar mês de muitas viagens de mês de viagens mal compradas e provar o efeito de cada ação.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…