Ferramenta 5G: o que é, os cinco G do Genba e 6 exemplos preenchidos
Por que a observação no local só vale quando termina num padrão restabelecido, e o que treze registros de Genba mostram sobre os dois G que quase todo mundo pula
No meu livro, a ferramenta 5G tem um capítulo próprio. Na página 140 deixei uma frase que hoje releio como cobrança. Diz assim: “O objetivo do 5G é restaurar as práticas mais eficazes e adequadas dos processos de um sistema produtivo, visando garantir o cumprimento de normas.” Pela definição, a ferramenta 5G só termina quando um padrão volta a valer. A ida ao chão de fábrica abre o percurso e está longe de encerrá-lo.
Fui conferir essa frase contra os treze registros de Genba do Kit WCM da Voitto, um por setor. Cada um está dentro de um Major Kaizen que se declara projeto ilustrativo. Os treze foram ao local. Nove param antes do quarto G: contam o que viram e o que mediram. Não dizem qual princípio o processo violava nem qual padrão faltava. Só quatro percorrem o caminho inteiro que o capítulo descreve.
A seguir estão a definição da ferramenta 5G, o que cada G pede e os pontos em que o livro, o formulário do kit e os registros preenchidos divergem. Depois vem o jeito de preencher o registro sem parar no meio. No fim há seis exemplos com a ficha preenchida em PDF, da governança de um hotel à manutenção industrial.
O que é a ferramenta 5G
A ferramenta 5G é o método de análise que obriga a equipe a validar um problema no lugar onde ele acontece, com a coisa real e com os fatos medidos, antes de propor qualquer solução. O nome vem de cinco palavras japonesas: Gemba, Genbutsu, Genjitsu, Genri e Gensoku.
No item 17.1.1, o livro diz que a ferramenta 5G é “também conhecida como 5 Genchi Genbutsu”, expressão que se traduz por “ir e ver” e que a Toyota transformou em hábito de gestão. As cinco palavras começam com o mesmo som, e a repetição ajuda a lembrar a ordem.
O que distingue a ferramenta 5G de uma simples visita é a base da decisão. O item seguinte, 17.1.2, na mesma página 140, diz que ela funciona “baseando as decisões em observações diretas e dados reais, em vez de suposições ou relatórios secundários”. Relatório secundário é tudo o que chega à sala depois de filtrado por alguém: o apontamento do sistema, o resumo do supervisor, a planilha consolidada. Conheci esse filtro por dentro. Na MRS, em Lafaiete, passei dois anos na coordenação de operações, e entre mim e o maquinista havia um inspetor. O livro descreve esse desvio na página 141: as informações “podem sofrer alterações conforme passam de uma pessoa para outra”.
A origem também está no texto. O resumo do capítulo, na página 142, afirma que “a ferramenta 5G surgiu do WCM e se fundamenta em cinco passos de validação de processos”. No World Class Manufacturing ela aparece no passo de causa raiz, entre a estratificação da perda e o diagrama de causa e efeito. É também uma das ferramentas do WCM que mais aparecem nos projetos de melhoria focada.
Vale fixar a diferença de escopo. Genchi Genbutsu é o princípio: vá ver. A ferramenta 5G é o roteiro que transforma o princípio em registro, com cinco perguntas em ordem. No fim, exige comparar o que se viu com a teoria e com o padrão. É esse fim que costuma ficar em branco.
Na minha experiência, levantar da cadeira é a parte fácil: a ferramenta 5G falha menos por falta de visita e mais por falta de pergunta. Quem vai ao local sem saber o que precisa confirmar volta com fotos bonitas e nenhuma hipótese descartada. Por isso a gente escreve antes, numa linha, a perda que motivou a ida e a suspeita que a equipe carrega. O registro de Genba passa então a responder a essa suspeita, a favor ou contra.
Os cinco G, um por um
A Figura 17.1 do livro resume cada etapa numa ação curta. O formulário P06 do Kit WCM traz a mesma sequência com outra redação. A tabela põe as duas lado a lado, porque a diferença de palavras muda o que se escreve no registro.
| G | Tradução | Ação no livro (Figura 17.1) | Ação no formulário P06 |
|---|---|---|---|
| Gemba | local real | Vá para o local real | Vá ao local real, onde a perda acontece |
| Genbutsu | coisa real | Observe o processo in loco | Examine o objeto real: a peça, a máquina, o produto |
| Genjitsu | fatos | Colete os dados dos fatores observados | Cheque os fatos e números no local |
| Genri | teoria | Estude os procedimentos padrões do processo observado | Volte aos princípios de funcionamento |
| Gensoku | padronização | Siga o padrão operacional | Confira os padrões vigentes (ou a falta deles) |
Gemba é o lugar onde o valor é gerado e onde a perda aparece: a linha, o balcão, o prédio do cliente, o sistema em que o pedido anda. O livro liga esse G ao Gemba walk de Taiichi Ohno. Na página 141 estão os três elementos dele: vá e veja, pergunte por quê e respeite as pessoas. O artigo sobre o que é Gemba explica por que o local real, fora da fábrica, pode ser uma tela.
Genbutsu é a coisa real: a peça riscada, o boletim de papel, o carrinho de enxoval. O livro grafa Gembutsu, com m, e traduz como “coisa real”. O kit e quase todos os registros escrevem Genbutsu, com n, e é essa a grafia que este guia usa. As duas formas nomeiam o mesmo passo.
Genjitsu são os fatos. O livro pede dados quantitativos e indicadores para quantificar perdas. O motivo vem na mesma página: “ao tomar decisões sem se fundamentar em dados, as chances de cometer erros aumentam, gerando retrabalho”. Fato sem medição vira impressão. Na prática, o Genjitsu é onde o plano de coleta de dados encontra o chão, com cronômetro, trena e contagem feita no próprio local.
Genri é a teoria. O texto da página 141 pede para “cruzar os dados levantados na fase anterior com o conhecimento teórico, estudando procedimentos e normas existentes para analisar sua pertinência e se realmente são aplicáveis”. Como exemplo, cita o manual dos equipamentos. No mesmo item, o livro desdobra a análise de dados em seis passos, da coleta ao relatório. É o G que pergunta como o processo deveria funcionar, e ele exige que alguém saiba responder.
Gensoku é a padronização. Na página 142, o livro pede que o líder não enxergue o desvio “como um erro suscetível à punição”. E fecha assim: “Por fim, é preciso restabelecer o procedimento e continuar trabalhando para que a falha não volte a acontecer.” O Gensoku leva ao trabalho padronizado e é ele que dá sentido aos quatro G anteriores.
Onde o livro, o kit e os registros divergem
Os três primeiros G dizem quase a mesma coisa nas três fontes. Os dois últimos, não. Quem aprende a ferramenta 5G pelo livro, preenche pelo formulário e compara com um registro pronto encontra três leituras diferentes para Genri e Gensoku.
| G | Livro (p. 141-142) | Formulário P06 do kit | Registros preenchidos |
|---|---|---|---|
| Genri | estudar procedimentos e normas existentes; exemplo: o manual do equipamento | voltar aos princípios de funcionamento | uma frase curta com o “princípio violado” |
| Gensoku | seguir o padrão e, quando ele falha, restabelecer o procedimento | conferir os padrões vigentes ou a falta deles | o “padrão ausente” ou “inexistente” |
A diferença não é só de palavra. O livro trata o Genri como leitura de documento: existe um manual, e a equipe confere se ele se aplica. O kit desloca o Genri para a física do processo, o porquê de uma solda precisar de parâmetro fixo. Os registros, por fim, convertem o Genri numa regra de uma linha que o processo desrespeitou, como “a preventiva só previne se for completa”.
No Gensoku a distância é de direção. O livro olha para frente, com o padrão restabelecido. O formulário olha para o presente e aceita “a falta deles” como resposta. Os registros olham para trás e anotam o que nunca existiu. As três leituras são úteis, e só a do livro fecha o ciclo, porque constatar que o padrão falta não o escreve.
A minha recomendação para quem preenche é juntar as três. No Genri, cite o documento que deveria orientar o processo e o princípio que ele protege. No Gensoku, anote o padrão que faltava e quem vai escrevê-lo, com data. Esse último campo é o que liga a ferramenta 5G ao ciclo SDCA, em que o padrão novo passa a ser mantido.
Como preencher o registro de Genba (P06) em cinco passos
O formulário é o P06 do Kit WCM, “5G, Registro de Genba”, da fase Planejar, passo 4 (causa raiz). O modelo em branco cabe numa página. O cabeçalho pede o local observado, quem observou e o período da observação. O corpo tem dois blocos e uma caixa final.
No alto do modelo vão três campos de identificação: onde, quem e quando. O primeiro quadro traz os cinco G com o significado de cada um já impresso e uma coluna vazia para o que foi visto no seu projeto. O segundo reúne as evidências datadas, cada uma com o que prova. Embaixo, a caixa final repete a pergunta-chave, ao lado de uma dica do especialista sobre o ciclo completo do fenômeno.
Baixe o modelo em branco e leve a ferramenta 5G para o seu próximo Genba
- Vá antes de discutir. A causa não se decide em sala. Leve trena, cronômetro e câmera, e não só o bloco de notas.
- Percorra os cinco G na ordem. O bloco 1 tem uma linha por G, com o significado impresso e uma coluna em branco para o que você viu: fato, não opinião.
- Observe o ciclo completo. Há fenômeno que só aparece com o tempo, como um sensor que suja, um desgaste que acumula ou um turno que trabalha diferente.
- Registre evidência datada. O bloco 2 pede a evidência (foto, vídeo ou medição), onde e quando foi colhida e o que ela mostra.
- Feche com a pergunta-chave. “O que o Genba revelou que o dado não mostrava?” A resposta vai para o diagrama de Ishikawa, que é o formulário seguinte do kit.
O exemplo impresso no próprio modelo mostra o tipo de resposta que a caixa final espera. O apontamento dizia quando a perda acontecia, logo após a troca de formato. O Genba mostrou por quê: o guia era reposicionado sem referência e havia respingo num sensor que a limpeza não alcançava. Quando virar causa, a diferença entre quando e por quê é o que um 5 porquês consegue aprofundar.
A dica do especialista, no rodapé do P06, dá o tamanho da visita. O falso positivo do sensor só aparecia cerca de 2 horas depois da limpeza CIP. Quem visita o Genba por 10 minutos não vê. A ferramenta 5G cobra tempo de observação proporcional ao ciclo do problema, e esse tempo precisa estar no campo “período da observação”.
Dois cuidados de preenchimento valem para qualquer setor. O primeiro é escrever a terceira coluna do bloco 1 com verbo no passado e objeto concreto: “cronometrei”, “contei”, “fotografei o berço”, e não “o processo parece lento”. O segundo é marcar como “não observado” o G que a visita não alcançou. Um campo vazio declarado é informação; um campo preenchido com opinião esconde a lacuna e a leva adiante para o Ishikawa.
O placar dos treze registros de Genba
Cada Major Kaizen do Kit WCM tem um bloco 4, “Causa raiz no Genba”. Nele há um parágrafo próprio para a ferramenta 5G, seguido do teste das hipóteses e dos 5 porquês. Li os treze parágrafos, de 56 a 93 palavras cada, e contei quais G aparecem nomeados no texto.
| G | Registros que nomeiam | O que falta nos outros |
|---|---|---|
| Gemba | 6 de 13 | o local está descrito, mas não recebe o nome |
| Genbutsu | 8 de 13 | a coisa real aparece sem rótulo |
| Genjitsu | 7 de 13 | os números aparecem sem rótulo |
| Genri | 4 de 13 | nenhum princípio escrito |
| Gensoku | 4 de 13 | nenhum padrão apontado |
Três registros nomeiam os cinco G: hotelaria, manutenção de elevadores e marketing. A produção de elevadores nomeia quatro e deixa o Gemba implícito, porque o texto diz que a equipe “mediu no local”. Financeiro e manutenção industrial nomeiam três e param no Genjitsu. Quatro registros, de alimentício, farmacêutico, serviços e sustentabilidade, não nomeiam G nenhum, embora descrevam observação no local com contagem, e os dois primeiros também com foto.
O vazio em Genri e Gensoku tem uma explicação que os próprios documentos oferecem. Em financeiro e em manutenção industrial, o princípio e o padrão reaparecem mais abaixo, nos 5 porquês da análise de causa raiz: “conferência nunca foi requisito do processo” e “nunca virou roteiro padronizado”. A equipe chegou lá. Só não registrou no 5G, e o formulário perdeu a ligação entre o que se viu e a norma que faltava.
Outro dado do placar: só três registros datam a observação (hotelaria, produção de elevadores e manutenção industrial). Os demais trazem o período do projeto inteiro. Para quem vai reler o registro meses depois, a data da ida ao local é o que permite saber se o que se viu ainda vale.
O placar não mede a qualidade da observação, e seria injusto lê-lo assim. Vários registros que não nomeiam G nenhum descrevem uma ida ao local bem feita. O que ele mede é outra coisa: se a ferramenta 5G deixou no papel o caminho completo, do local ao padrão. Um registro sem nome de G ainda serve a quem fez a visita. Serve pouco, porém, a quem chega ao projeto depois e precisa entender por que aquela causa foi escolhida.
Gemba walk, Genchi Genbutsu e 5G: qual a diferença
Os três nomes circulam juntos e vale separar. Genchi Genbutsu é o princípio de ir ver. O Gemba walk é a rotina de liderança que aplica o princípio. O gestor percorre o local com regularidade, pergunta e escuta, sem um problema específico na mão. A ferramenta 5G é a investigação que aplica o princípio a uma perda já escolhida, com registro e com fim.
| Gemba walk | Ferramenta 5G | |
|---|---|---|
| Gatilho | a agenda do líder | uma perda priorizada |
| Pergunta | o que está acontecendo aqui? | por que esta perda acontece? |
| Saída | conversas, pendências, quadro de gestão à vista | evidência datada, princípio e padrão |
| Frequência | recorrente | uma por problema, repetida se a causa não segurar |
A rotina e a investigação se alimentam. Uma caminhada que encontra a mesma anomalia três semanas seguidas vira projeto, e o projeto usa a ferramenta 5G. Na volta, o padrão restabelecido pelo Gensoku entra na verificação de rotina, como uma carta do kamishibai. A caminhada passa a conferir se ele segue de pé.
A confusão entre os três nomes costuma aparecer no relatório do projeto. Acontece quando a equipe chama de 5G uma caminhada feita sem perda definida. O teste que uso é simples: se a visita não tem uma pergunta escrita antes e um padrão proposto depois, ela foi um Gemba walk. Tem valor próprio, e a ferramenta 5G começa quando a pergunta vem antes da ida.
Por que a ferramenta 5G importa na melhoria contínua
O primeiro motivo é a qualidade da causa. Uma causa escolhida em sala tende a confirmar a hipótese favorita da equipe. A ferramenta 5G põe a hipótese diante da peça e do número, e boa parte das hipóteses cai ali. Nos registros do kit, “falta de camareira” e “oleosidade das chapas” são dois exemplos de suspeitas que a medição no local derrubou.
O segundo é o envolvimento de quem decide. O livro diz, na página 141, que “deve-se focar na identificação de pontos fracos do processo, não de pessoas”. Na página 140, descreve a aplicação “sem culpar os operadores pelos problemas”. Um gestor que vai ao local vê a condição em que o operador trabalha. Com isso, a conversa muda de quem errou para o que permitiu o erro. Uma autora que o capítulo cita resume a postura numa linha: “Seja a mão que ajuda, não o dedo que aponta.”
O terceiro é a ponte entre teoria e prática, que é exatamente o par Genri e Gensoku. Observar sem comparar com a teoria produz um relato; comparar sem restabelecer o padrão produz um diagnóstico que envelhece na gaveta. Nos pilares técnicos do WCM essa ponte é o que separa uma melhoria que dura de uma que some na troca de turno.
Seis exemplos de registro de Genba preenchido
Os seis exemplos a seguir usam a ficha P06 preenchida com os trechos do bloco 4 de cada Major Kaizen do kit. A ficha marca em preto o G que o documento nomeia. Em tracejado vai o trecho que a própria ficha atribui a um G e em cinza o G sem registro. Escolhi quatro setores que chegam ao Genri e dois que param no Genjitsu, para que a comparação apareça. Todos são projetos ilustrativos, assim declarados nos documentos de origem.
Clique na miniatura para ampliar ou baixe o PDF de cada ficha. Os modelos em branco fazem parte do kit de ferramentas WCM.
1. Hotelaria: os cinco G nomeados, e a hipótese de pessoal derrubada no local
Na governança de um hotel, a perda era o tempo de liberação dos quartos para o check-in. O redator do Major Kaizen escreve em primeira pessoa: entre 25 e 29/05 cronometrou 40 liberações no local real. Também seguiu o enxoval físico e cruzou o que viu com os números do sistema de hospedagem.
O Genbutsu achou um quarto já limpo e parado 38 minutos. O motivo: o enxoval chegava em lote, separado por tipo de peça, e não por quarto. Outro, o 907, entrou por último na sequência fixa do corredor enquanto o hóspede dele esperava 55 minutos no lobby.
Quem decidiu o caso foi o Genjitsu: a limpeza em si ficou estável em 28 minutos. Com isso a suspeita de falta de camareira caiu. O problema passou a ser a forma de entrega do enxoval, que existia em estoque. O case de hotelaria mostra o que veio depois da causa.
Este é um dos registros que escrevem os dois G finais. Genri: abastecer no ponto de uso. Gensoku: o sequenciamento não existia. Um teste em 03/06, sequenciando pelas chegadas, liberou 6 quartos prioritários antes das 14h30, contra 2 na sequência fixa.
Uma ressalva de leitura. As 209 das 380 ocorrências mensais (55%) listadas entre as evidências vêm dos 5 porquês e cobrem o mês inteiro. As 40 liberações cronometradas são amostra de uma semana, e eu não somaria uma à outra.
2. Manutenção de elevadores: o princípio escrito como regra de uma linha
Aqui o Gemba fica fora da empresa: é o prédio do cliente. A equipe, em primeira pessoa do plural, acompanhou 24 rechamadas de porta no próprio edifício e examinou o ajuste que encontrou. Em 19 das 24, ou 79%, a folga ou o alinhamento estavam fora do padrão dias depois da preventiva.
Para o Genjitsu, o registro cruzou o horário lançado no aplicativo com o GPS dos veículos. Depois mediu o tempo real de cada visita. Conferiu também os veículos, e a peça de desgaste não estava embarcada. No teste do 4M, das 118 rechamadas por peça, 74% traziam o desgaste já anotado na visita anterior. A rechamada acompanhava o tempo de visita (3,1× abaixo de 35 min), e não a idade isolada do equipamento.
O Genri deste registro é o melhor exemplo do formato curto que os documentos adotam: “a preventiva só previne se for completa”. O Gensoku aponta o padrão ausente, as folgas e os torques por família que nunca foram escritos. Os dois conversam com o que os pilares da TPM chamam de manutenção planejada.
A caixa final traz a frase do documento: “O técnico enxergava, o sistema não deixava resolver.” Fica sem resposta o período da observação, que está em branco. Sei apenas que o projeto correu de Fev/2026 a Jul/2026, e não em que semanas as 24 rechamadas foram acompanhadas.
3. Marketing: quando o Gemba é um CRM e um plantão de vendas
Quem acha que a ferramenta 5G é coisa de fábrica deveria ler este registro. O documento define o Gemba como o próprio CRM e o plantão de vendas. Depois segue o caminho real do lead, do formulário ao agendamento da visita.
Os casos reais examinados deram duas cenas. Um contato feito às 21h de um sábado esperou 26 horas pela primeira resposta. A roleta de distribuição rodava apenas em dia útil. E o corretor dava prioridade ao cliente presente no stand, enquanto o contato digital esfriava.
Os números do teste confirmaram a leitura. Dos 60 leads dados como perdidos, recontatados com cadência, 18% converteram. O cruzamento de 2.480 leads mostrou 19% contra 4% conforme o tempo da primeira resposta. Esse cruzamento é a estratificação feita antes da ida ao local, e o teste do 4M o usou como prova.
Genri, na redação do documento: velocidade de resposta define conversão. Gensoku: prazo e cadência nunca foram norma. A caixa final soma 62% de leads chegando fora do plantão.
Duas lacunas pesam aqui: não há registro de quem observou nem data da ida ao plantão. Com isso, ninguém sabe se a observação cobriu algum fim de semana, justamente o horário que o achado acusa.
4. Produção de elevadores: o único registro em que a ficha atribui um G
A montagem de portas de pavimento é o registro que mais mede. Entre 18 e 20/05, a equipe auditou 40 portas riscadas e achou 34, ou 85%, com a marca no ponto exato de contato com o berço metálico.
No mesmo período, 60 conjuntos porta e batente deram folga média de 2,3 mm, quando a tolerância é ±1,5. O gabarito da linha 2 mostrou desgaste de 1,1 mm. O Genjitsu foi às cabines de solda dos 3 turnos e viu a mesma chapa de 1,2 mm ser soldada com 14 combinações diferentes de parâmetro.
O parágrafo do documento não nomeia o Gemba. Diz só que o 5G “mediu no local”. Por isso a ficha traz esse G em tracejado: o trecho é do documento, e a atribuição é da ficha. É o único dos seis exemplos em que isso acontece, e o placar da ficha fica em 4 nomeados e 1 atribuído.
Os dois G finais estão escritos. Genri: condição controlada gera qualidade. Gensoku: faltava a verificação do ferramental e a tabela de parâmetros. Somados, os três defeitos que nasciam sem condição controlada respondiam por 78% do Pareto, 818 de 1.045 portas. A hipótese da oleosidade das chapas caiu no teste, e a oxidação ficou em só 12% do Pareto. O FMEA é o próximo lugar natural para esses modos de falha.
Por se repetir nos 3 turnos, a variação deixou de ser culpa de um turno e foi lida como anomalia de método.
5. Financeiro: três G no parágrafo e o padrão encontrado mais abaixo
No faturamento de obras, o local real é onde a medição mensal é montada. O registro acompanhou essa montagem nos contratos-âncora 2041 e 1987, com os boletins físicos e as planilhas paralelas de cada obra na mão. Depois cruzou o que viu com os números do ERP.
A observação flagrou a medição fechada num único dia, na correria do fim do período, sem conferência com a memória de cálculo. O aperto do fim do fechamento já estava na estratificação. A falta de conferência entrou no registro como fato novo.
Antes de usar a classificação das glosas como régua, a equipe fez 30 medições antigas passarem por três avaliadores, com 93% de concordância. A reclassificação das 55 medições mostrou o mesmo erro em todas as equipes. Já a medição nº 14 do contrato 2041 tinha sido glosada em R$ 86 mil por quantitativo estimado. O case do financeiro conta o resto do projeto.
Genri e Gensoku não estão no parágrafo 5G deste documento. A ficha os deixa em cinza e aponta, como leitura dela, a frase da cadeia de porquês que faria o papel do Gensoku: “conferência nunca foi requisito do processo”. Para mim, esse é o retrato do vazio que o placar mostra: o padrão foi achado e ficou registrado longe do Genba.
6. Manutenção industrial: o que o CMMS não mostrava
Este é o único registro que escreve Gembutsu com m, a grafia do livro. Entre 10/08 e 04/09 a equipe acompanhou cerca de 90 OS no local, viu o equipamento parado esperando e cronometrou cada etapa numa folha de verificação. O registro traz fotos do almoxarifado e do fluxo de peças.
O sistema de manutenção registrava a ordem aberta e fechada. Não registrava o técnico parado aguardando peça sem estoque, nem o diagnóstico sendo redescoberto a cada ordem. Foi isso que a ida ao local mostrou.
As evidências vieram do teste das hipóteses. A cronometragem separou 0,6 h dos seniores contra 1,5 h dos demais no diagnóstico. A auditoria de 41 OS com espera achou 76% aguardando item sem mín/máx cadastrado. E achar uma peça que existia levava minutos, pouco diante das 2,3 h de espera pela peça que não existia. A contramedida vem descrita no case de manutenção.
Como no financeiro, o parágrafo para no Genjitsu. O padrão ausente aparece nos 5 porquês, “nunca virou roteiro padronizado”, e a ficha o anota em cinza. Aqui o Gensoku teria trabalho óbvio. A diferença entre o sênior e os demais técnicos é o próprio achado, e só um roteiro escrito a leva à equipe inteira.
Erros comuns ao aplicar a ferramenta 5G
| Erro | O que ele produz | Como evitar |
|---|---|---|
| Visita curta, fora do ciclo do problema | o fenômeno intermitente não aparece e a causa fica na sala | medir o ciclo antes e ficar no local pelo tempo que ele pede |
| Ir sem instrumento | descrição no lugar de medição | levar trena, cronômetro e câmera |
| Parar no Genjitsu | um relato bem medido que não diz o que corrigir | escrever o princípio violado e o padrão que falta |
| Genri como opinião | “sempre foi assim” registrado como teoria | citar o manual, a norma ou o procedimento |
| Gensoku como culpa | o operador vira a causa e o padrão segue ausente | escrever o padrão, o responsável e a data |
| Evidência sem data | ninguém sabe se o achado ainda vale | datar foto, vídeo e medição no bloco 2 |
| Só registrar o que confirma | a hipótese favorita sobrevive por omissão | anotar também o que a observação descartou |
O erro da terceira linha é o mais frequente nos treze registros do kit. Também é o mais barato de corrigir: duas frases a mais no formulário. Quem para no Genjitsu fez o trabalho difícil, que é ir e medir. Mas deixa sem registro a parte que o livro chama de objetivo.
Há um erro que a tabela não mostra, porque ele acontece antes do formulário: escolher mal quem vai ao local. A ferramenta 5G rende mais quando a visita junta quem opera o processo e quem vai decidir a contramedida. Só o operador conhece o detalhe; só o gestor tem mandato para mudar o padrão. Sem os dois, o Gensoku fica sem dono.
Da ferramenta 5G ao ciclo de melhoria
A ferramenta 5G não trabalha sozinha. Ela recebe a perda já estratificada, entrega o achado ao Ishikawa, e o padrão que ela aponta vira contramedida no ciclo PDCA. Em projetos maiores, o registro de Genba é uma das páginas do relatório A3 ou do evento kaizen.
Depois do resultado, o registro ainda serve. Doze dos treze Major Kaizen do kit dizem que, se o indicador voltar a subir, o caminho é retornar ao 5G ou ao Genba, e não empilhar ação. E o padrão que nasceu no Gensoku é o que viaja para outras áreas pelo yokoten.
Para quem quer se aprofundar, o capítulo 17 do Guia Prático Lean Seis Sigma traz as seções completas de cada G, e a formação WCM da Voitto trabalha a ferramenta 5G dentro do passo de causa raiz, com o formulário do kit. Para certificar quem conduz o registro, a trilha está nas academias de certificação da Voitto.
Um último conselho de quem já leu muitos registros: guarde a ferramenta 5G junto do projeto, e não numa pasta à parte. Quando a contramedida for auditada, meses depois, a ficha preenchida é o que explica por que aquele padrão existe. É ela que evita que alguém o desmonte por achar que ele não tem motivo.



