Metodologias & Qualidade

Planejamento fatorial 2^k: efeitos, interação, ponto central e Excel

Matriz de sinais e ordem de Yates, cálculo dos efeitos e coeficientes, significância com réplica e por Lenth, curvatura, previsão e fracionado, com planilha conferida em Python.

Thiago Coutinho
Publicado em 20 de out de 2026  ·  21 min de leitura
Capa do artigo com foto da Voitto e o texto Planejamento fatorial 2^k: efeitos, interação, ponto central e Excel sobre fundo escuro à esquerda

Uma injetora de tampas de polipropileno tem três parâmetros suspeitos de causar empenamento: a temperatura do material, a pressão de recalque e o tempo de resfriamento. O engenheiro pode mexer em um de cada vez, como quase todo mundo faz, ou rodar as oito combinações de uma vez num planejamento fatorial 2³. A segunda opção custa 16 corridas e mostra uma coisa que a primeira nunca mostraria.

O que é DOE, quais são as etapas e onde ele se aplica já está no guia de planejamento de experimentos. Aqui o assunto é a conta: a matriz de sinais, o efeito principal, o efeito de interação, o teste de significância, o ponto central e o modelo que prevê a resposta. Tudo com o exemplo da injeção e com quatro experimentos do meu livro refeitos número a número.

No caminho, você baixa uma planilha que a gente montou sem macros. Ela tem abas para o 2² e o 2³ com até quatro réplicas, ordem de execução sorteada, efeitos, coeficientes, t e p-valor, os três gráficos, teste de curvatura e uma aba de previsão. Os dois exemplos deste artigo vêm preenchidos.

O que é planejamento fatorial

Planejamento fatorial é o experimento que testa todas as combinações dos níveis de dois ou mais fatores. No fatorial 2k, cada fator tem dois níveis, baixo e alto, e o total de ensaios é 2 elevado a k. Ele estima o efeito de cada fator e as interações com as mesmas corridas.

O capítulo 30 do Guia Prático Lean Seis Sigma, “Ferramentas de Melhoria”, tem a seção 30.2 inteira sobre o tema. Na página 410, eu escrevo que o DOE “fornece informações muito relevantes para validar e direcionar as ações de melhoria definidas dentro do plano de ação”. Na página 411 vem a escolha que este artigo segue: “Geralmente, o experimento mais utilizado na indústria é o caso particular em que todos os fatores apresentam dois níveis (baixo e alto)”.

Dois níveis por fator parece pouco, e é de propósito. O objetivo do primeiro experimento é descobrir quais fatores mexem na resposta e quais interagem. A curva fina de cada um fica para depois, só para os que passaram no filtro.

Por que testar os fatores juntos: o que o “um fator por vez” não vê

A fábrica do exemplo já operava com 60 bar de recalque, 220 °C e 12 s de resfriamento, e o empenamento médio nessa condição era de 0,550 mm. O engenheiro começou pelo método tradicional. Subiu a temperatura para 240 °C, mantendo o resto, e o empenamento foi para 0,740 mm. Concluiu que temperatura alta piora e voltou para 220 °C.

Depois aumentou o resfriamento para 18 s, e o empenamento caiu para 0,475 mm. Parou ali, satisfeito, com três condições testadas. A quarta combinação, 240 °C com 18 s, nunca entrou na conta. O fatorial a testou e encontrou 0,415 mm, a melhor das quatro.

Comparação entre testar um fator por vez e o planejamento fatorial 2²: o método tradicional testa três cantos e nunca testa 240 °C com 18 s, que o fatorial mostra ser a melhor combinação, com 0,415 mm de empenamento
Com 12 s, a temperatura alta piora o empenamento. Com 18 s, ela melhora. Quem testa um fator por vez só vê a primeira metade da frase.

O motivo tem nome: interação. O efeito da temperatura depende do tempo de resfriamento. A leitura da engenharia, no exemplo, foi que o material mais quente só compensa quando a peça tem tempo de esfriar dentro do molde. Você já viu um ajuste que funcionou numa máquina e falhou na outra? Muitas vezes é isso. No livro, na página 412, a definição é: “No experimento de vários fatores, pode ocorrer a interação, que é quando a combinação de dois ou mais fatores não é aditiva, e sim multiplicativa”.

O método de um fator por vez tem mais dois defeitos. Ele gasta mais corridas para a mesma precisão, porque cada comparação usa só uma parte dos dados. E ele confunde o efeito do fator com tudo o que mudou entre um teste e outro, como lote de resina ou temperatura da sala. O fatorial resolve as duas coisas: cada corrida entra no cálculo de todos os efeitos, e a ordem sorteada espalha o que não foi controlado.

Notação do fatorial 2k: fatores, níveis, ensaios e réplicas

Quatro palavras organizam o resto do artigo. O fator é a variável controlável que você muda de propósito, como temperatura, pressão ou fornecedor. O nível é o valor que o fator assume no ensaio, codificado como −1 no baixo e +1 no alto. O ensaio é uma combinação de níveis. A réplica é a repetição completa de um ensaio, montando de novo a condição, em outra corrida.

Réplica e repetição não são a mesma coisa. Medir três vezes a mesma tampa é repetição e mede o sistema de medição. Injetar outra tampa com o molde reajustado é réplica e mede o ruído do processo. O erro que testa os efeitos sai da réplica.

Fatores (k)Ensaios do fatorial completo (2k)Corridas com 2 réplicasEfeitos estimáveis (2k − 1)
2483: A, B e AB
38167: três principais, três duplas e ABC
4163215
5326431
66412863

A tabela mostra por que o fatorial completo para de compensar perto de cinco fatores. A partir daí, a maior parte das corridas serve para estimar interações de terceira ordem ou mais, que quase nunca importam. É aí que entra o fatorial fracionado, tratado mais à frente.

Matriz de sinais e ordem padrão de Yates

A matriz de sinais lista os ensaios numa ordem fixa, chamada ordem padrão de Yates. A coluna A alterna −1 e +1 a cada linha. A coluna B alterna a cada duas linhas, e a C a cada quatro. Com quatro fatores, a D alterna a cada oito. As colunas de interação saem multiplicando os sinais: AB é A vezes B na mesma linha, e ABC é o produto dos três. O manual de estatística do NIST numera os oito cantos do cubo 2³ por essa mesma ordem.

EnsaioABCABACBCABCMédia (mm)
1−1−1−1+1+1+1−10,695
2+1−1−1−1−1+1+10,875
3−1+1−1−1+1−1+10,550
4+1+1−1+1−1−1−10,740
5−1−1+1+1−1−1+10,665
6+1−1+1−1+1−1−10,515
7−1+1+1−1−1+1−10,475
8+1+1+1+1+1+1+10,415

A matriz tem duas propriedades que fazem a conta funcionar. Cada coluna tem quatro sinais + e quatro sinais −, e qualquer par de colunas é ortogonal: a soma dos produtos linha a linha é zero. Por isso o efeito de um fator não contamina o de outro, e cada um pode ser calculado de forma independente.

A coluna da direita traz as médias do exemplo da injeção, com A como temperatura (220 e 240 °C), B como pressão de recalque (40 e 60 bar) e C como tempo de resfriamento (12 e 18 s). Cada média vem de duas réplicas, num total de 16 corridas. Os dados são fictícios, montados para este artigo, e estão marcados assim na planilha.

Aleatorização e blocos: a ordem de execução não é a da tabela

Planilha de planejamento fatorial 2³ preenchida com o exemplo da injeção: matriz de sinais, ordem sorteada e médias por ensaio

A ordem padrão serve para organizar a conta, e só. Rodar o ensaio 1, depois o 2, depois o 3 coloca todos os ensaios com C baixo no começo do turno e todos com C alto no fim. Se o molde esquenta ao longo do dia, o aquecimento entra no efeito do resfriamento sem ninguém perceber.

A planilha sorteia a sequência de execução das corridas. No exemplo, a primeira corrida foi a réplica 1 do ensaio 5, a segunda foi a réplica 1 do ensaio 1, e a terceira foi a réplica 2 do ensaio 4. Na página 413, o livro desmarca a aleatorização no Minitab para o leitor reproduzir a tabela, e avisa: “Na prática, os experimentos devem ser realizados de maneira aleatória para evitar o viés”.

Quando uma fonte de ruído conhecida não pode ser mantida constante, como o turno, o lote de matéria-prima ou o dia, ela vira bloco. Na página 422 eu defino que “um bloco é uma variável categórica que explica a variação no resultado que não é causada pelos fatores”. Cada bloco recebe uma réplica completa, e a análise separa a diferença entre blocos antes de testar os fatores.

O exemplo do livro, nas páginas 422 a 424, mostra o ganho. Uma empresa de zincagem estudou concentração do reagente, temperatura e tempo da limpeza contra o índice de retrabalho, com uma réplica em cada turno. O turno 2 retrabalhou em média 2,9 pontos a menos que o turno 1. Com o turno como bloco, a concentração dá t de −5,25 e p de 0,001. Sem o bloco, a mesma diferença vai para o erro, e o t cai para −3,42.

Como calcular o efeito principal e o efeito de interação

A fórmula está na página 412 do livro: efeito = (média do sinal +) − (média do sinal −). O efeito principal da temperatura, A, é a média dos quatro ensaios com A em +1 menos a média dos quatro com A em −1.

  1. Média em +1: ensaios 2, 4, 6 e 8. (0,875 + 0,740 + 0,515 + 0,415) ÷ 4 = 0,636 mm.
  2. Média em −1: ensaios 1, 3, 5 e 7. (0,695 + 0,550 + 0,665 + 0,475) ÷ 4 = 0,596 mm.
  3. Efeito de A: 0,636 − 0,596 = +0,040 mm. Na média, subir a temperatura aumenta o empenamento em 0,04 mm.

A interação usa a mesma regra, só que com a coluna AC. Os ensaios 1, 3, 6 e 8 têm sinal +, com média de 0,544 mm. Os ensaios 2, 4, 5 e 7 têm sinal −, com média de 0,689 mm. O efeito AC é −0,145 mm, mais de três vezes o efeito principal da temperatura.

A leitura física fica mais clara separando os dois tempos de resfriamento. Com 12 s, subir a temperatura aumenta o empenamento em 0,185 mm. Com 18 s, ele cai 0,105 mm. O efeito principal de +0,040 é a média dessas duas respostas opostas. O efeito AC é a metade da diferença entre elas: (−0,105 − 0,185) ÷ 2 = −0,145. Na prática, a conta mostra que falar do efeito da temperatura sem dizer o tempo de resfriamento não faz sentido.

TermoEfeito (mm)Coeficiente (efeito ÷ 2)tp-valor
A: temperatura+0,040+0,0202,250,054
B: pressão de recalque−0,143−0,071−8,02< 0,001
C: tempo de resfriamento−0,198−0,099−11,12< 0,001
AB+0,025+0,0131,410,197
AC−0,145−0,073−8,16< 0,001
BC−0,003−0,001−0,140,892
ABC+0,020+0,0101,130,293

O coeficiente é o efeito dividido por 2. A razão é a escala. O efeito mede a mudança de −1 para +1, que são duas unidades codificadas, e o coeficiente mede a mudança por unidade. É o número que entra na equação do modelo, mais adiante. A planilha calcula os sete efeitos com SOMARPRODUTO da coluna de sinais pela coluna de médias, dividido por 4.

Gráficos de efeitos principais, de interação e Pareto dos efeitos

Planilha de planejamento fatorial com tabela de efeitos, gráfico de efeitos principais, gráfico de interação e Pareto dos efeitos do exemplo da injeção

Gráfico de efeitos principais. Cada fator vira uma linha entre a média em −1 e a média em +1. A inclinação é o efeito. No exemplo, resfriamento e pressão descem com força, de 0,715 para 0,518 mm e de 0,688 para 0,545 mm. A temperatura sobe pouco, de 0,596 para 0,636 mm. Quem lesse só esse gráfico manteria 220 °C.

Gráfico de interação. O eixo horizontal é o primeiro fator do par, e cada linha é um nível do segundo. Linhas paralelas indicam que não há interação. Linhas que se cruzam, como as do par AC, indicam que o melhor nível de um fator depende do outro. Na planilha, você escolhe o par numa célula amarela e o gráfico se refaz.

Pareto dos efeitos. As barras mostram o valor absoluto de cada efeito, do maior para o menor, com uma linha tracejada no limite de significância. Ele organiza a conversa da reunião, igual a um diagrama de Pareto de defeitos. No exemplo, três barras passam da linha: C, AC e B. A barra da temperatura fica logo abaixo, e a seção seguinte explica por que ela continua no modelo.

Os efeitos são significativos? Com réplicas e sem réplicas

Todo efeito calculado tem ruído. A pergunta é se ele é maior do que o ruído explicaria, e a lógica é a de qualquer teste de hipóteses: H0 diz que o efeito verdadeiro é zero. O caminho depende de ter réplica ou não.

Com réplicas. A variação entre réplicas do mesmo ensaio é erro puro. A planilha junta os desvios dos oito ensaios num desvio combinado, Sp, com gl igual ao total de corridas menos o número de ensaios. No exemplo, Sp = 0,0355 mm com 8 gl. O erro padrão de cada efeito é 2 × Sp ÷ √N, em que N é o total de corridas: 2 × 0,0355 ÷ 4 = 0,0178 mm.

O t de cada efeito é o efeito dividido pelo erro padrão, comparado com a distribuição t de 8 gl, a mesma do teste t de Student. O t crítico a 5% é 2,306, e o limite em milímetros fica em 2,306 × 0,0178 = 0,041. É a linha tracejada do Pareto. B, C e AC passam com p abaixo de 0,001. A temperatura fica em p de 0,054.

Ela fica no modelo mesmo assim, por hierarquia. Uma interação significativa carrega junto os efeitos principais que a formam, porque o termo AC só tem sentido com A e C na equação. A planilha aplica essa regra sozinha na coluna do modelo reduzido.

A conta é a mesma da ANOVA do Minitab. Para um efeito com 1 gl, o F da tabela de variância é o t ao quadrado. Conferi os sete t e p-valores da planilha contra o statsmodels do Python, com modelo de mínimos quadrados e todas as interações, e a maior diferença ficou abaixo da 13ª casa decimal.

Sem réplicas. Num 2³ de oito corridas sem réplica, os sete efeitos usam todos os graus de liberdade, e não sobra nada para estimar o erro. A saída é aceitar uma premissa: a maioria dos efeitos é ruído. O gráfico de probabilidade normal dos efeitos mostra isso: os efeitos de ruído caem sobre uma reta, e os verdadeiros ficam longe dela.

O método de Lenth faz a mesma ideia virar número. Ele calcula um pseudo erro padrão, o PSE, a partir da mediana dos efeitos pequenos, e uma margem de erro com t de m ÷ 3 gl, em que m é o número de efeitos. O exemplo do teor de pureza do livro, nas páginas 413 e 414, é um 2⁴ com 16 corridas e nenhuma réplica. O Minitab mostra PEP de Lenth de 0,1875 e a linha do Pareto em 0,482.

Refiz a conta e cheguei nos mesmos 0,1875 e 0,482. Quatro termos passam da linha: concentração com efeito de 6,73, temperatura com 1,88, a interação pressão × catalisador com 0,98 e pressão com 0,95. O próximo, 0,35, fica abaixo. Lenth funciona bem quando poucos efeitos são reais. Se metade deles for grande, a mediana fica inflada, e o método não acha nada. A planilha usa Lenth no 2³ sem réplica e sem ponto central. No 2² sem réplica, com só três efeitos, ela avisa que não há teste e pede réplica.

Planejamento fatorial com ponto central e teste de curvatura

Dois níveis desenham uma reta. Na página 424 eu escrevo que “uma grande preocupação no uso de planejamento fatorial com dois níveis é a suposição da linearidade nos efeitos dos fatores”. Se a resposta faz uma curva entre −1 e +1, o fatorial não enxerga, e a previsão no meio da faixa sai errada.

O ponto central resolve isso com poucas corridas a mais. São ensaios com todos os fatores no meio da faixa, codificados como 0. Eles não mudam nenhum efeito, porque o 0 não pesa na coluna de sinais. Servem para duas coisas: comparar a média do centro com a média dos pontos fatoriais e dar graus de liberdade ao erro quando não há réplica.

Planilha de planejamento fatorial 2³ com quatro pontos centrais, preenchida com o exemplo do picolé de amora do livro

O exemplo das páginas 426 a 428 do livro é a Sabores, uma fabricante de sorvetes. O Black Belt do projeto testou açúcar (12 e 16 g/mL), corante (2 e 4 g/mL) e concentração de polpa (30 e 40%) contra a aceitação do picolé de amora. Foram oito ensaios fatoriais e quatro pontos centrais em 14 g/mL, 3 g/mL e 35%.

MedidaValorDe onde vem
Média dos 8 pontos fatoriais7,775Soma de 62,2 ÷ 8
Média dos 4 pontos centrais7,5257,5; 7,8; 7,2 e 7,6
Curvatura+0,2507,775 − 7,525
Desvio entre os centros0,250 com 3 glErro puro do experimento
t da curvatura1,630,25 ÷ (0,25 × √(1/8 + 1/4))
p-valor0,201Tabela 30.9 do livro: 0,201

Com p de 0,201, não há evidência de curvatura, e a reta vale no intervalo testado. O desvio entre os centros também serve de erro para os efeitos. Com ele, açúcar, corante e polpa dão p de 0,002, 0,008 e 0,004, os mesmos da Tabela 30.9. A melhor combinação é 16 g/mL de açúcar, 2 g/mL de corante e 40% de polpa, o ensaio 6, com aceitação de 9,7.

Efeitos, gráficos e Pareto do exemplo do picolé com o erro estimado pelos pontos centrais

Repare na interação tripla ABC, com efeito de 0,55 e p de 0,053, quase na linha. Com só 3 gl no erro, o teste tem pouca força. Mais pontos centrais dariam mais força ao teste, e cada um custa uma corrida só.

Se a curvatura sair significativa, o livro é direto na página 425: “Se a curvatura for significativa, o experimento só é válido nos pontos testados pelo experimento”. A equação deixa de valer no meio da faixa. O próximo passo é ampliar o desenho para uma superfície de resposta, que acrescenta pontos axiais e estima termos ao quadrado.

Modelo de regressão e previsão da resposta

O fatorial 2k é uma regressão em variáveis codificadas. O intercepto é a média geral de todas as corridas, e cada coeficiente é o efeito dividido por 2. No exemplo da injeção, mantendo os termos significativos e a temperatura por hierarquia, a equação fica assim:

Empenamento = 0,6163 + 0,0200 A − 0,0713 B − 0,0988 C − 0,0725 AC

Para prever, converta cada nível real para a escala codificada: codificado = (real − centro) ÷ meia faixa. Com 240 °C, 60 bar e 18 s, os três ficam em +1, e o AC também vale +1. A previsão é 0,6163 + 0,0200 − 0,0713 − 0,0988 − 0,0725 = 0,394 mm, perto dos 0,415 mm observados no ensaio 8.

Aba de previsão da planilha de planejamento fatorial com empenamento previsto de 0,394 mmA aba Previsão faz essa conta. Você escolhe a aba de origem, o modelo completo ou o reduzido e digita os valores reais. A planilha avisa quando algum fator sai de −1 a +1, porque ali a equação vira extrapolação.

No exemplo, o resfriamento de 18 s custa 6 s a mais por ciclo. A pergunta natural é se 15 s bastam. O modelo reduzido prevê 0,565 mm com 240 °C, 60 bar e 15 s. Só que esse experimento não tem ponto central, e a reta entre 12 e 18 s é uma hipótese. Antes de mudar o padrão, a fábrica precisaria de corridas de confirmação em 15 s, com pontos centrais.

A validação do modelo segue as regras da regressão. O livro lembra, na página 410, que os resíduos devem ser normais, ter variâncias iguais e não mostrar padrão, e pede R² ajustado alto. O teste de normalidade dos resíduos e o gráfico contra a ordem de execução pegam a maior parte dos problemas. O guia de regressão para melhoria de processo mostra o mesmo cuidado com a faixa de validade, por outro caminho.

Fatorial fracionado 2k−p: resolução e confundimento

Com cinco fatores, o fatorial completo pede 32 ensaios. O fracionado roda uma fração deles, metade ou um quarto, escolhida para que os efeitos principais continuem estimáveis. Na página 417 o livro recomenda começar por ele “principalmente se a quantidade de fatores for maior ou igual a 5, pois isso pode servir como um filtro para detectar quais são os fatores mais significativos”.

O preço é o confundimento. Num 24−1, o quarto fator é rodado com os sinais da coluna ABC, e D passa a ter o mesmo padrão de ABC. Os dois efeitos viram um só número, e a conta não tem como separá-los. A página do manual de estatística do NIST sobre confundimento mostra a mesma lógica num 23−1.

  • Resolução III: efeitos principais confundidos com interações duplas. Serve só para triagem grosseira.
  • Resolução IV: principais livres das duplas, mas as duplas confundidas entre si. O 24−1 é desse tipo.
  • Resolução V: principais e duplas livres umas das outras. É a resolução que o livro recomenda como ideal na página 418.

O exemplo do rendimento, nas páginas 419 a 421, é um 24−1 de oito corridas com tempo, temperatura de processamento, temperatura da matéria-prima e pressão. O Pareto mostra C, a temperatura da matéria-prima, com efeito de 5,75, e AB com −2,25, acima da linha de Lenth de 1,412. Refiz e cheguei nos mesmos números.

Só que, nesse desenho, AB está confundida com CD. O −2,25 pode ser tempo × temperatura de processamento, como o livro lê, ou temperatura da matéria-prima × pressão. A conta não decide. Quem decide é o conhecimento do processo ou uma segunda fração que separe os dois. Esse é o raciocínio do Design for Six Sigma: o fracionado filtra, e o completo ou a superfície de resposta confirmam.

Como fazer o planejamento fatorial no Minitab e no Excel

No Minitab, o roteiro do livro tem quatro comandos, todos em Estat, DOE (Planejamento de Experimentos), Fatorial.

  1. Criação de um Experimento Fatorial: marque Fatorial com dois níveis, escolha o número de fatores e, em Experimentos, o fatorial completo ou a fração, os pontos centrais, as réplicas e os blocos. Em Fatores, dê nome e níveis. Deixe “Aleatorizar ensaios” marcado.
  2. Análise de Experimento Fatorial: escolha a coluna da resposta. A saída traz o Pareto dos efeitos, a tabela de variância com a curvatura e os coeficientes codificados.
  3. Gráficos Fatoriais: gera os gráficos de efeitos principais e de interação dos termos que ficaram no modelo.
  4. Otimizador de Resposta: procura a combinação que maximiza, minimiza ou atinge um alvo. No teor de pureza do livro, ele indica todos os fatores no alto e prevê 95,8%.

O livro também ensina a reduzir o modelo um termo por vez, começando pelas interações de ordem mais alta. A cada termo retirado, o erro ganha 1 gl e os p-valores mudam um pouco. A planilha mostra o modelo reduzido pela regra da hierarquia em um passo só, e para reduzir de verdade, termo a termo, o Minitab é o caminho mais curto.

No Excel, a planilha deste artigo faz o fatorial completo 2² e 2³ sem macro. Para usar:

  1. Baixe pela imagem de qualquer exemplo acima e abra a aba 2² ou 2³.
  2. Escreva o nome dos fatores, os níveis baixo e alto, a resposta, o α e se o objetivo é maximizar ou minimizar.
  3. Informe as réplicas planejadas e rode as corridas na ordem sorteada das colunas Ordem.
  4. Digite as respostas nas células amarelas. Os pontos centrais, se houver, vão numa linha própria.
  5. Leia o aviso da matriz e depois a tabela de efeitos, os gráficos e a curvatura. Leve o modelo para a aba Previsão.

Conferi a planilha recalculada no LibreOffice contra Python, com numpy e statsmodels, em 15 configurações. Entraram o exemplo da injeção, quatro experimentos do livro e sete conjuntos aleatórios, com 1 a 4 réplicas e até 5 pontos centrais. Os p-valores do picolé batem com a Tabela 30.9, e o PSE de Lenth do rendimento bate com a Figura 30.8. O teor de pureza, um 2⁴, foi refeito só em Python.

A planilha não trata blocos nem fracionado e supõe o mesmo número de réplicas em todos os ensaios. Para esses casos, o Minitab é a ferramenta certa.

Erros comuns no planejamento fatorial

  • Níveis próximos demais. Se 220 e 225 °C mudam o empenamento menos que o ruído, o efeito some no erro. Escolha níveis afastados o bastante para o efeito aparecer, dentro da faixa segura do processo.
  • Níveis distantes demais. O oposto também atrapalha: níveis extremos podem parar a máquina ou cair numa região curva, e a reta entre −1 e +1 deixa de representar o processo.
  • Rodar na ordem da tabela. Tudo o que muda com o tempo vira efeito falso do fator que muda devagar na matriz.
  • Ignorar a interação. No exemplo, quem olhasse só os efeitos principais manteria 220 °C e perderia a melhor combinação.
  • Tirar o efeito principal de uma interação significativa. A temperatura com p de 0,054 fica no modelo porque o AC depende dela.
  • Extrapolar fora da faixa. O modelo vale entre os níveis testados. Prever 250 °C com um experimento de 220 a 240 °C é chute com fórmula.
  • Medir sem saber se o instrumento separa os níveis. Antes do experimento, a análise do sistema de medição diz se o erro do medidor cabe no efeito que se quer ver.
  • Chamar repetição de réplica. Medir três vezes a mesma peça estreita o erro artificialmente e faz efeito pequeno parecer significativo.
  • Decidir o número de corridas no olho. Quantas réplicas são precisas para ver um efeito de 0,05 mm é pergunta de tamanho de amostra, respondida antes de ligar a máquina.

O fatorial dentro do DMAIC: a fase Melhorar

No método DMAIC, o planejamento fatorial mora na fase Melhorar. A fase Analisar já confirmou quais X importam, com testes de hipóteses e com a matriz de causa e efeito. O experimento entra para achar o ajuste ótimo desses X e provar que a mudança funciona antes de virar padrão. O guia de ferramentas estatísticas mostra onde ele fica entre as outras técnicas do projeto.

Depois do experimento, a condição escolhida vai para o plano de controle com a faixa de operação de cada fator. O controle estatístico de processo acompanha se o ganho se mantém, e a capabilidade do processo mede o antes e o depois contra a especificação.

É ferramenta típica do projeto de Black Belt, e o Green Belt costuma usá-la com apoio de um Black Belt. Ela aparece em projetos de Lean Seis Sigma de manufatura, química e alimentos. O kit de ferramentas Lean Seis Sigma da Voitto traz os modelos das outras fases do projeto.

Para começar, pegue o parâmetro que mais gera discussão no seu processo e os dois que costumam vir junto na mesma conversa. Defina dois níveis para cada um, sorteie a ordem e registre cada corrida num plano de coleta de dados, com hora, operador e lote. Rode as 16 corridas e cole na planilha. Esse é o tipo de resultado que dá gás para o projeto: a briga sobre qual parâmetro mexer vira uma equação com três termos e uma interação que ninguém tinha visto.

Perguntas frequentes

O que é planejamento fatorial?
É o experimento que testa todas as combinações dos níveis de dois ou mais fatores. No fatorial 2^k, cada fator tem dois níveis, baixo e alto, e o total de ensaios é 2 elevado a k: 4 com dois fatores, 8 com três. Com as mesmas corridas, ele estima o efeito de cada fator e as interações entre eles.
Como calcular o efeito de um fator no planejamento fatorial?
Efeito = média das respostas com o fator em +1 menos a média com o fator em −1. No exemplo da injeção, a temperatura dá 0,636 − 0,596 = +0,040 mm. O coeficiente da equação é o efeito dividido por 2. A interação usa a mesma conta, com a coluna de sinais obtida multiplicando as colunas dos dois fatores.
O que é efeito de interação no DOE?
É quando o efeito de um fator depende do nível de outro. No exemplo, subir a temperatura aumenta o empenamento em 0,185 mm com 12 s de resfriamento e reduz 0,105 mm com 18 s. O efeito AC é a metade dessa diferença, −0,145 mm. Testar um fator por vez não enxerga isso.
Qual a diferença entre fatorial completo e fatorial fracionado?
O completo roda todas as 2^k combinações. O fracionado 2^(k−p) roda uma fração delas, como metade ou um quarto, e paga com confundimento: alguns efeitos ficam somados a interações. A resolução diz o que se confunde com o quê. É indicado para triagem, principalmente com cinco fatores ou mais.
Para que serve o ponto central no planejamento fatorial?
O ponto central roda todos os fatores no meio da faixa. Ele testa a curvatura, comparando a média do centro com a média dos pontos fatoriais, e dá graus de liberdade ao erro quando não há réplica. No exemplo do picolé do livro, a curvatura deu p de 0,201, sem evidência de curva.
Como saber se um efeito é significativo sem réplicas?
Sem réplica e sem ponto central não há erro puro. A saída é supor que a maioria dos efeitos é ruído e usar o gráfico normal dos efeitos ou o método de Lenth, que estima um pseudo erro padrão pela mediana dos efeitos pequenos. Com poucos efeitos, como num 2², o melhor é replicar.
Como fazer planejamento fatorial no Excel e no Minitab?
No Minitab, use Estat, DOE, Fatorial: Criação de um Experimento Fatorial, Análise, Gráficos Fatoriais e Otimizador de Resposta. No Excel, a planilha do blog da Voitto monta o 2² e o 2³ com ordem sorteada, efeitos por SOMARPRODUTO, t e p-valor, gráficos, curvatura e previsão, sem macros.
Thiago Coutinho
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Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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