Metodologias & Qualidade

Diagrama de tartaruga: o que é, como fazer e exemplos preenchidos

As seis partes, o passo a passo, a ligação com a cláusula 4.4 da ISO 9001, a comparação com SIPOC e fluxograma, as perguntas do auditor por pata e uma planilha com três tartarugas preenchidas.

Thiago Coutinho
Publicado em 19 de out de 2026  ·  20 min de leitura
Capa do artigo com foto da Voitto e o texto Diagrama de tartaruga: o que é, como fazer e exemplos preenchidos sobre fundo escuro à esquerda

Numa auditoria de processo, a pergunta que mais revela uma área é curta: com que dado você sabe que este processo está funcionando? O diagrama de tartaruga existe para que essa resposta esteja escrita antes de o auditor chegar. Ele junta numa folha o que entra, o que sai, os recursos, as pessoas, o método e os indicadores de um processo.

Minha formação de auditor líder ISO 9000 é pelo IRCA, e a tartaruga é a ferramenta que eu mais vejo mal usada em empresa certificada. Ela aparece colada na parede, bonita, com seis caixas cheias. Quando a gente pergunta qual é a meta do indicador, ninguém sabe. Quando pergunta quem é competente para a tarefa, a resposta é um cargo.

Este guia mostra o que é a ferramenta e de onde ela vem, as seis partes e como preencher cada uma. Também mostra como ela se liga à cláusula 4.4 da ISO 9001:2015, quando preferir o SIPOC ou o fluxograma, e como o auditor lê cada pata. No meio do caminho tem uma planilha para baixar, com o modelo em branco, três exemplos preenchidos com indicador, meta e semáforo, e o roteiro de auditoria com a conformidade calculada.

O que é diagrama de tartaruga

O diagrama de tartaruga é uma folha que descreve um único processo em seis partes: entradas, saídas, recursos (com quê), pessoas (com quem), métodos (como) e indicadores (quanto). O processo fica no casco, as entradas e saídas na cauda e na cabeça, e as outras quatro partes nas patas.

O desenho lembra uma tartaruga vista de cima, e daí vem o nome. Em inglês ela aparece como turtle diagram; aqui também se fala em mapa de tartaruga do processo. O formato importa menos que a regra por trás dele: uma folha, um processo, e cada pata respondendo a uma pergunta que um auditor faria.

Estrutura do diagrama de tartaruga: o processo no casco, entradas à esquerda, saídas à direita e as patas com quê, com quem, como e quanto, cada uma com a cláusula da ISO 9001 relacionada
O casco, a cabeça, a cauda e as quatro patas. As cláusulas indicam onde a ISO 9001:2015 pede evidência sobre cada parte.

Para que serve, na prática? Para três coisas. Primeiro, para o dono do processo enxergar o processo inteiro numa página, inclusive o que depende de outras áreas. Segundo, para mostrar ao auditor, interno ou externo, a evidência da abordagem de processo. Terceiro, para preparar a auditoria, porque cada pata vira um bloco de perguntas.

De onde vem a tartaruga: a cadeia automotiva

Ninguém tem um documento que diga quem desenhou a primeira versão. O que dá para afirmar com fonte é o ambiente em que ela se espalhou: as auditorias da cadeia de fornecimento automotiva, quando as normas do setor passaram a cobrar abordagem de processo.

A sequência das normas está documentada. No meu livro, o Guia Prático Lean Seis Sigma, eu conto essa história no capítulo 28, “Testes e Ferramenta para Análise de Dados”, quando falo da FMEA. Na página 377 está assim. “Na sequência, essa ferramenta foi disseminada na indústria automotiva com o surgimento da QS9000, criada pela Ford, Chrysler e GM. Em 2006, a QS9000 foi substituída pela ISO TS 16949, de modo a tornar a FMEA passível de auditoria.”

A página oficial da IATF, a força-tarefa das montadoras, registra os passos seguintes. A própria IATF criou a ISO/TS 16949 em 1999, e a IATF 16949:2016 cancelou e substituiu a versão de 2009. Do outro lado, a ISO 9001 adotou a abordagem de processo na revisão de 2000 e a manteve na de 2015.

Nesse ambiente, auditar deixou de ser conferir requisito por requisito e passou a ser seguir um processo de ponta a ponta. O formato encaixou porque organiza exatamente o que esse auditor precisa ver. É por isso que ela é tão comum em fornecedor automotivo e, de lá, chegou à indústria em geral, aos hospitais e aos serviços.

Um ponto que evita discussão inútil: nem a ISO 9001 nem a IATF 16949 obrigam a usar esse diagrama. A norma pede que a empresa determine os processos e as informações deles. A folha é um formato para mostrar isso, e o auditor aceita qualquer outro formato que traga a mesma evidência.

As 6 partes do diagrama de tartaruga

Cada parte responde a uma pergunta. A tabela abaixo resume, e as seções seguintes mostram o que escrever e o erro mais comum em cada uma.

PartePerguntaO que escreverCláusula ISO 9001:2015
Casco (processo)Que processo é este?Nome, dono, objetivo, onde começa e termina, riscos4.4, 5.3, 6.1
EntradasO que entra e de quem?Material, informação e documento, cada um com o fornecedor4.4.1 a, 8.4
SaídasO que sai e para quem?Produto, serviço e registro, cada um com o cliente4.4.1 a, 8.6, 8.7
Com quêQue recursos o processo usa?Equipamento, sistema, instrumento de medição, conhecimento7.1
Com quemQuem faz e com que competência?Função, competência exigida e a evidência dela7.2, 7.3
ComoComo o processo é feito e controlado?Procedimento, instrução, critério de aceite, método de controle8.1, 8.5.1, 7.5
QuantoComo sei que funciona?Indicador com fórmula, meta, valor atual e frequência4.4.1 c, 6.2, 9.1

Casco: o processo

No centro vai o nome do processo, o dono, o objetivo em uma frase e os limites: o evento que dispara o processo e o que marca o fim dele. Vale incluir os dois ou três riscos principais, porque a 4.4 pede que a empresa trate riscos e oportunidades por processo. O erro clássico é escrever o nome de um departamento no casco. Volto a isso na seção de erros.

Entradas e saídas: a cauda e a cabeça

Entrada é o que o processo transforma ou consome: material, pedido, especificação, informação. Saída é o que ele entrega: produto, serviço, registro, decisão. Escreva sempre o par, a coisa e quem fornece ou quem recebe. “Ordem de produção” sozinha ajuda pouco. “Ordem de produção liberada, do PCP” já diz com quem conversar quando ela chega errada.

A checagem que mais pega erro é cruzar as folhas de processos vizinhos. Toda saída de um processo é entrada de outro. Se Compras diz que entrega material conforme ao Almoxarifado e a folha do Almoxarifado não tem essa entrada, uma das duas está errada.

Com quê: recursos

Aqui entram equipamentos, sistemas, ferramentas e instrumentos de medição. Um teste útil para filtrar a lista é perguntar o que, se parar, para o processo. Instrumento de medição merece linha própria, porque a 7.1.5 pede que ele seja adequado e, quando for o caso, calibrado. Muita não conformidade de auditoria nasce de um paquímetro esquecido nessa pata.

Com quem: pessoas e competência

A pata mais preenchida com cargo e a menos preenchida com competência. “Operador de CNC” é um cargo. “Operador de CNC habilitado em leitura de desenho e uso de micrômetro, com treinamento registrado na instrução vigente” é uma competência com evidência, que é o que a 7.2 pede. Uma matriz RACI ajuda a deixar claro quem decide e quem executa quando o processo envolve várias áreas.

Como: métodos

Procedimentos, instruções de trabalho, critérios de aceite e o método de controle. Escreva o nome do documento, sem copiar o conteúdo. Se a tarefa varia de pessoa para pessoa e essa variação afeta o resultado, ela precisa de um procedimento operacional padrão. Se não afeta, documentar só gera papel.

Quanto: indicadores

Cada indicador precisa de quatro coisas para servir: fórmula, meta, valor atual e frequência. Sem meta não dá para dizer se o processo vai bem. Sem valor atual, o indicador é decorativo. Na planilha deste artigo, a pata QUANTO puxa o status de cada indicador por fórmula, em verde, amarelo ou vermelho.

Misture indicadores de resultado e de processo. O refugo do mês conta o que já aconteceu. O índice de primeira peça aprovada depois do setup mostra o que ainda dá para corrigir. A diferença entre indicador de processo e indicador de resultado decide se a folha ajuda a gerir ou só a explicar o mês que passou.

Como fazer um diagrama de tartaruga em 7 passos

Faça com quem executa o processo na sala, em uma reunião de uma a duas horas. Folha feita sozinha pelo pessoal da qualidade descreve o processo do procedimento, e o auditor vai encontrar o processo da prática.

  1. Escolha um processo e dê um dono a ele. Comece pelo mapa de processos da empresa e pegue um processo só. O dono é quem responde pelo resultado e tem autoridade para mudar o método.
  2. Escreva o objetivo e os limites. Uma frase de objetivo e dois eventos: o que dispara o processo e o que encerra.
  3. Preencha as saídas e quem as recebe. Comece pelo fim, porque é a saída que justifica o resto. Para cada saída, pergunte ao cliente dela o que é estar bom.
  4. Preencha as entradas e quem as entrega. Para cada entrada, escreva o requisito mínimo para o processo começar.
  5. Preencha com quê, com quem e como. Recursos que param o processo, competências com evidência e os documentos que o controlam.
  6. Defina os indicadores com meta. De três a cinco por processo, com fórmula, meta, valor atual, frequência e fonte do dado.
  7. Cruze com os vizinhos e valide no posto. Confira entradas e saídas com as folhas dos processos ao lado. Depois leve a folha para quem executa e pergunte o que está diferente.

Uma regra para a pata QUANTO: se ninguém sabe dizer o valor atual do indicador na reunião, ele ainda não existe. Anote como pendência com prazo, em vez de inventar um número para a folha ficar completa.

Diagrama de tartaruga preenchido: três exemplos com indicadores e metas

Os três exemplos abaixo são de uma mesma empresa fictícia, uma metalúrgica que usina flanges. A escolha foi de propósito: os três processos se conversam, e o diagrama mostra bem essa conversa. Os números são ilustrativos. Servem para mostrar o preenchimento e a regra do semáforo, e não são referência de mercado.

Planilha gratuita: diagrama de tartaruga em Excel. Traz o modelo em branco no formato do desenho, pronto para imprimir em A4 deitado, e os três exemplos preenchidos: Compras, Usinagem e Atendimento. Cada uma tem cinco indicadores com meta, valor atual, cláusula ISO e status calculado por fórmula. Inclui também o roteiro de perguntas do auditor por pata, com a conformidade calculada.

Diagrama de tartaruga preenchido do processo de usinagem com a pata QUANTO colorida pelo semáforo dos indicadores

A planilha tem sete abas: Como usar, Modelo em branco, os três exemplos, Perguntas do auditor e Auditoria exemplo. Não tem macros e funciona no Excel, no LibreOffice e no Google Planilhas. Um clique na imagem abre o exemplo de Usinagem inteiro, com o botão de download.

Como o semáforo é calculado

Cada indicador tem um sentido: maior é melhor ou menor é melhor. Na meta ou melhor que ela, o status fica verde. Pior que a meta, mas dentro de uma tolerância, fica amarelo. Além da tolerância, vermelho. A tolerância padrão é de 10% da meta e fica numa célula que você pode mudar. Com meta de 95% e maior é melhor, o amarelo vai de 85,5% até abaixo de 95%.

Exemplo 1: Compras de materiais produtivos

O dono é o coordenador de suprimentos. O processo começa na requisição aprovada no ERP e termina com o material recebido conforme e o fornecedor avaliado. As entradas vêm de quatro lugares: o solicitante, a Engenharia com a especificação, a Qualidade com a lista de fornecedores aprovados e o PCP com a necessidade calculada. O risco que a equipe escreveu no casco foi o fornecedor único da barra trefilada.

A discussão mais longa foi na pata Com quem. A primeira versão listava “compradores”. A versão final diz que o comprador precisa ler especificação técnica e que a homologação do fornecedor é do engenheiro de qualidade de fornecedor. Essa linha separa quem negocia de quem aprova, que é o que a cláusula 8.4.1 pede ao exigir critério para selecionar e avaliar fornecedor.

Indicador de ComprasMetaAtualStatus
Entrega no prazo dos fornecedores95%91,2%Amarelo
Lotes aprovados no recebimento98%98,6%Verde
Prazo da requisição ao pedido3 dias úteis4,1 dias úteisVermelho
Fornecedores críticos avaliados no trimestre100%100%Verde
Compras emergenciais8%8,5%Amarelo

O vermelho do prazo da requisição ao pedido conta uma história que a tabela não mostra sozinha. Com 4,1 dias para emitir o pedido, o comprador perde a folga que o fornecedor precisava. Daí sai parte das compras emergenciais em 8,5% e da entrega no prazo em 91,2%. O diagrama não prova essa relação. Ela aponta onde vale medir primeiro.

Exemplo 2: Produção, usinagem de flanges em tornos CNC

O dono é o supervisor de produção. São quatro tornos CNC, oito operadores em dois turnos, um preparador e um inspetor. O processo começa na ordem de produção liberada com material e termina com a peça inspecionada, identificada por lote e entregue à montagem. Na pata Com quê, o paquímetro, o micrômetro e o calibrador tampão aparecem como “calibrados”. Na auditoria, essa palavra vai ser testada.

Na pata Como estão a instrução por peça, o plano de controle, a aprovação de primeira peça depois de cada setup e a carta de controle no diâmetro de encaixe. Esse diâmetro é a característica crítica, e o Cpk dele entrou como indicador. Quem quiser recalcular o índice com os próprios dados tem a planilha de capabilidade pronta.

Indicador da UsinagemMetaAtualStatus
Refugo e retrabalhoaté 1,5%2,3%Vermelho
OEE da célula75%71%Amarelo
Cpk do diâmetro de encaixe1,331,41Verde
Ordens entregues à montagem no prazo97%97,8%Verde
Reclamação de cliente por defeito de usinagematé 150 ppm160 ppmAmarelo

Repare que o Cpk está verde e o refugo está vermelho. As duas coisas cabem juntas: o diâmetro de encaixe está capaz, e o refugo vem de outras cotas ou do setup. Esse é o tipo de leitura que só aparece quando os indicadores estão lado a lado na mesma folha. O OEE de 71% tem o cálculo detalhado no modelo de OEE em Excel.

Exemplo 3: Atendimento ao cliente e tratamento de reclamações

O dono é o coordenador de atendimento. São três atendentes, um analista técnico de pós-venda e um engenheiro da qualidade para analisar as reclamações procedentes. O processo começa no contato do cliente e termina com o cliente respondido, a reclamação classificada e a ação aberta na área responsável. Este último pedaço é o que mais falta em SAC: o atendimento fecha o chamado e a causa fica onde estava.

Indicador do AtendimentoMetaAtualStatus
Primeira resposta em até 4 horas úteis95%96,4%Verde
Tempo médio de soluçãoaté 10 dias úteis12,5 dias úteisVermelho
Resolvidas no primeiro contato70%64%Amarelo
Satisfação depois do atendimento (1 a 5)4,34,4Verde
Reincidência pela mesma causa em 90 diasaté 5%7%Vermelho

A leitura do semáforo aqui é menos óbvia do que parece. O cliente está satisfeito com o atendimento, nota 4,4, e mesmo assim 7% das reclamações voltam pela mesma causa em 90 dias. O atendimento é bom e o problema continua. A saída “ação corretiva aberta na área responsável” é a que liga esta folha à da Usinagem. A resposta ao cliente em formato 8D obriga a análise de causa a acontecer antes do fechamento.

A conversa entre os três processos

Coloque as três folhas lado a lado e as interações aparecem. A barra que Compras entrega é entrada da Usinagem. A reclamação que o Atendimento registra vira o indicador de ppm da Usinagem e uma ação corretiva no processo dela. É exatamente a “sequência e interação” que a cláusula 4.4 pede, mostrada por saídas que batem com entradas, sem um diagrama extra.

Diagrama de tartaruga e a ISO 9001: a cláusula 4.4

A cláusula 4.4 da ISO 9001:2015 é onde a abordagem de processo vira requisito. Em linguagem simples, ela pede que a empresa determine os processos do sistema e, para cada um, os itens da tabela abaixo. A tradução é minha, conferida contra a estrutura da ABNT NBR ISO 9001:2015, e não substitui o texto da norma.

O que a 4.4.1 pede (resumo)Onde aparece no diagrama
a) entradas requeridas e saídas esperadasCauda e cabeça
b) sequência e interação dos processosFornecedor de cada entrada e cliente de cada saída
c) critérios e métodos, com medições e indicadoresPatas Como e Quanto
d) recursos necessáriosPata Com quê
e) responsabilidades e autoridadesDono no casco e pata Com quem
f) riscos e oportunidades, conforme a 6.1Riscos no casco
g) avaliar os processos e implementar mudançasStatus dos indicadores e ações registradas
h) melhorar os processos e o sistemaAções de melhoria que saem dos vermelhos

A 4.4.2 completa com a informação documentada: manter o que apoia a operação e reter o que dá confiança de que o processo foi feito como planejado. A pata Como aponta para os documentos mantidos. Os registros retidos são a evidência que o auditor vai pedir.

Fora a 4.4, as patas apontam para outras cláusulas. Com quê leva à 7.1, de recursos. Com quem leva à 7.2, de competência, e à 7.3, de conscientização. Como leva à 8.1 e à 8.5.1, de controle operacional. Quanto leva à 9.1, de monitoramento e medição. O artigo sobre os requisitos da ISO 9001 traduz cada uma dessas cláusulas para a pergunta concreta que ela faz.

Quem está montando o sistema do zero pode usar essa folha como o formulário de cada processo. A ordem de montagem que evita retrabalho está no guia de como montar um sistema de gestão da qualidade. Na IATF 16949 a lógica é a mesma, com requisitos a mais da cadeia automotiva, como plano de controle e FMEA. Nesses casos, os dois documentos entram na pata Como.

Tartaruga, SIPOC ou fluxograma: quando usar cada um

As três ferramentas mapeiam processo, e por isso se confundem. A diferença está na pergunta que cada uma responde.

FerramentaPergunta que respondeQuando usar
Diagrama de tartarugaCom que recursos, pessoas, métodos e indicadores o processo é controlado?Sistema de gestão, preparação e condução de auditoria
SIPOCOnde o processo começa e termina, e quem fornece e recebe?Abertura de projeto de melhoria, acordo de escopo
FluxogramaQual é a sequência de passos e decisões?Detalhar o miolo, achar retrabalho e espera, escrever procedimento

O SIPOC e o nosso diagrama dividem as entradas e as saídas. O SIPOC para aí, porque o objetivo dele é combinar fronteira antes de um projeto. A tartaruga continua para as quatro patas, porque o objetivo dela é mostrar como o processo é controlado no dia a dia. O fluxograma entra quando a pergunta é a sequência. Ele mostra o passo a passo que a pata Como resume numa linha do diagrama.

Na prática, elas se completam. Num projeto Lean Seis Sigma, o SIPOC abre a fase Medir do método DMAIC. Numa auditoria de sistema, a tartaruga é a folha de entrada do processo. E quando o auditor quer ver onde o retrabalho acontece, pede o fluxograma. Para comparar o SIPOC com o mapa de fluxo de valor, existe o artigo VSM ou SIPOC.

Como o auditor usa a tartaruga: perguntas por pata

Para o auditor, a folha é um roteiro pronto. Cada pata vira um bloco de perguntas, e cada pergunta pede uma evidência que dá para ver: registro, documento ou a tarefa sendo feita. A regra que separa auditoria de conferência vale aqui também. A pergunta precisa ser aberta e pedir um caso real, e não um sim.

PataPergunta que o auditor fazEvidência que espera ver
CascoOnde o processo começa e termina, e quem entrega para ele?Mapa de interação coerente com os vizinhos
EntradasMostre a última entrada que chegou errada. O que aconteceu?Registro de devolução ou de não conformidade
SaídasO que acontece com uma saída fora do requisito? Mostre o último caso.Identificação, segregação e disposição registradas
Com quêEscolha um instrumento em uso e rastreie a calibração dele.Identificação e certificado válido
Com quemQuem executou hoje? Mostre a evidência de que essa pessoa é competente.Treinamento registrado na instrução vigente
ComoExplique o passo a passo. O que você faz é o que está escrito?Observação da tarefa comparada ao documento
QuantoQuando o indicador saiu da meta, o que foi feito?Análise e ação registradas para cada desvio

A planilha traz 26 perguntas, de três a cinco por pata, com a cláusula e a evidência esperada ao lado. A aba Auditoria exemplo aplica o roteiro ao processo de Usinagem. O auditor registra o que viu e marca C para conforme, NC para não conformidade, OM para oportunidade de melhoria ou NA quando não se aplica.

Trecho da auditoria por pata da tartaruga de usinagem, com as perguntas de Com quê e Com quem e os resultados C, OM e NC coloridos

No exemplo, 25 das 26 perguntas foram avaliadas. A que ficou de fora pergunta sobre mudanças no processo, e não houve nenhuma no período. O resultado deu 18 conformes, 4 oportunidades de melhoria e 3 não conformidades. A planilha calcula a conformidade como conformes mais oportunidades sobre o total avaliado, o que dá 88%.

O número geral esconde onde está o problema, e o resumo por pata mostra. Com quê ficou em 75%, por causa de um micrômetro em uso com calibração vencida havia 23 dias. Com quem também ficou em 75%, com um operador do segundo turno sem treinamento registrado na instrução revisada. Quanto ficou em 80%, porque o refugo estava acima da meta havia três meses sem análise de causa.

Repare que a terceira não conformidade estava na própria folha, em vermelho. O semáforo avisou, e ninguém agiu. A cláusula 10.2 pede ação corretiva com análise de causa, e é isso que o auditor vai cobrar. Os passos da auditoria, da reunião de abertura ao relatório, estão no guia de como fazer auditoria interna da qualidade. Para outros processos, o roteiro de auditoria interna com as evidências traz as perguntas de nove processos. O calendário do ano cabe no modelo de plano de auditoria em Excel.

Erros comuns no diagrama de tartaruga

  • Indicador sem meta. O erro mais comum. Sem meta não existe verde nem vermelho, e o indicador vira um número que alguém lê na reunião. Toda linha da pata QUANTO precisa de meta e valor atual.
  • “Pessoas” sem competência. A pata Com quem lista cargos e para aí. A 7.2 pede a competência necessária e a evidência de que a pessoa a tem. Cargo sem competência é organograma.
  • Tartaruga de departamento em vez de processo. “Qualidade” no casco gera uma folha com vinte entradas e trinta saídas, que ninguém controla. Departamento executa vários processos. Faça uma folha para cada um: inspeção de recebimento, calibração, tratamento de não conformidade.
  • Entradas e saídas que não batem com os vizinhos. Se a saída de um processo não aparece como entrada de outro, a interação está errada em uma das duas folhas.
  • Tudo verde para sempre. Meta que nunca fica vermelha costuma ser meta frouxa. A meta do processo precisa sair do objetivo da empresa, e uma árvore de indicadores mostra esse desdobramento.
  • Folha feita para a auditoria. Preenchida na véspera, guardada no dia seguinte. A folha só vale se o dono olha a pata QUANTO na rotina de gestão do processo.

Quando a pata QUANTO fica vermelha

Na MRS Logística, quando fui coordenador de operações em Lafaiete, a gente vivia um desdobramento de metas que ia do presidente até o coordenador. Eu chefiava os inspetores, que chefiavam os maquinistas. O indicador que eu acompanhava fazia sentido porque eu sabia de qual meta da diretoria ele tinha saído, e o vermelho tinha dono.

A pata QUANTO precisa desse elo. Quando um indicador fica vermelho por um mês, a resposta é ação corretiva simples, com causa e prazo. Quando ele fica vermelho mês após mês, como o refugo da Usinagem, o problema já é crônico. Aí ação corretiva de uma página não resolve, e o caminho é um projeto de melhoria com dado.

É esse vermelho que vira combustível para um projeto Lean Seis Sigma. A folha entrega o problema já com dono, meta e linha de base, que é o começo de um termo de abertura. A cláusula 10.3 pede melhoria contínua, e o artigo sobre ISO 9001 e melhoria contínua mostra onde a norma obriga a melhorar. O DMAIC leva do vermelho até o controle, com a causa provada antes da solução.

Por onde começar

Baixe a planilha e escolha o processo que mais aparece nas reclamações ou nas não conformidades da sua empresa. Preencha o casco e as saídas com quem executa, numa reunião curta. Defina três indicadores com meta e valor atual, mesmo que o valor seja ruim. Depois aplique as perguntas do auditor como se fosse a auditoria de amanhã.

Se o mapa do processo ainda não existe, comece pelo SIPOC do kit de ferramentas Lean Seis Sigma da Voitto. É a ferramenta M03 do kit, com o modelo em PDF preenchível. Ele combina as fronteiras, e as quatro patas vêm em seguida para dizer como o processo é controlado.

No fim, a tartaruga vale pelo que o dono do processo consegue responder sem procurar papel: quem faz, com quê, como e quanto. Quando essas quatro respostas estão na ponta da língua, a auditoria vira conversa, e o vermelho da pata QUANTO vira o próximo projeto.

Perguntas frequentes

O que é diagrama de tartaruga?
É uma folha que descreve um único processo em seis partes: entradas, saídas, recursos (com quê), pessoas (com quem), métodos (como) e indicadores (quanto). O processo fica no casco, entradas e saídas na cauda e na cabeça, e as outras quatro partes nas patas, por isso o nome.
Para que serve o diagrama de tartaruga?
Serve para o dono enxergar o processo inteiro numa página, para mostrar ao auditor a evidência da abordagem de processo pedida pela ISO 9001 e para preparar a auditoria, já que cada pata vira um bloco de perguntas com a evidência esperada.
O diagrama de tartaruga é obrigatório na ISO 9001 ou na IATF 16949?
Não. As duas normas pedem que a empresa determine os processos, com entradas, saídas, recursos, responsabilidades, riscos e indicadores. A tartaruga é um formato prático para mostrar isso, muito usado na cadeia automotiva, mas o auditor aceita outro formato que traga a mesma evidência.
Qual a diferença entre diagrama de tartaruga e SIPOC?
Os dois mostram entradas e saídas com fornecedores e clientes. O SIPOC para aí, porque serve para combinar o escopo de um projeto de melhoria. A tartaruga acrescenta recursos, pessoas, métodos e indicadores, porque serve para mostrar como o processo é controlado na rotina.
Como preencher a pata de indicadores da tartaruga?
Coloque de três a cinco indicadores, cada um com fórmula, meta, valor atual, frequência e fonte do dado. Indicador sem meta não permite dizer se o processo vai bem. Misture indicadores de resultado, como refugo, com indicadores de processo, que avisam antes.
Como o auditor usa o diagrama de tartaruga?
Como roteiro. Cada pata vira perguntas abertas que pedem evidência: rastrear a calibração de um instrumento, ver o treinamento de quem executou a tarefa, ver o que foi feito quando o indicador saiu da meta. O resultado de cada pergunta é marcado como conforme, não conformidade ou oportunidade de melhoria.
Onde baixar um modelo de diagrama de tartaruga em Excel?
Neste artigo. A planilha gratuita da Voitto traz o modelo em branco para imprimir, três tartarugas preenchidas (compras, usinagem e atendimento) com indicadores, metas e semáforo por fórmula, e as perguntas do auditor por pata com a conformidade calculada.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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