Metodologias & Qualidade

Por que o MASP não pega: as dificuldades que transformam o método em formulário

O MASP tem a taxa de abandono mais silenciosa das metodologias de melhoria porque não morre: degenera. O relatório continua saindo no prazo e o problema continua voltando.

Thiago Coutinho
Publicado em 26 de set de 2026  ·  Atualizado em 26 de set de 2026  ·  16 min de leitura

As dificuldades na aplicação do MASP quase nunca aparecem como abandono declarado. O método continua em uso, o formulário de oito etapas segue sendo preenchido, os relatórios são arquivados no prazo. O que sumiu foi a capacidade de resolver problema.

Por isso a taxa de abandono do MASP é a mais silenciosa das metodologias de melhoria. Ele não morre de rejeição: ele degenera. O que era método vira relatório, e o relatório vira entregável de auditoria.

O ponto da degeneração é quase sempre o mesmo. A etapa 2, de observação, é fundida com a etapa 3, de análise. O time pula do problema para a causa presumida e usa as seis etapas restantes para justificar a solução que já tinha em mente.

Este texto trata do diagnóstico de fracasso, não do método. Cada modo de falha aparece com mecanismo, sinal antecipado e a pergunta que o revela em auditoria. As oito etapas em si estão detalhadas em metodologia MASP.

Procedência: este material consolida padrões de falha documentados do método de análise e solução de problemas e o conteúdo de diagnóstico do Kit MASP da Voitto. Não é relato de caso único nem depoimento. O exemplo numérico é modelo com premissas declaradas, não medição de empresa específica.

O MASP não morre, ele degenera

Metodologia abandonada some do calendário. Some da pauta, some do sistema, e alguém eventualmente pergunta o que aconteceu com aquilo. O MASP raramente faz isso: ele continua sendo aberto, apresentado e arquivado, com a mesma regularidade de sempre, enquanto perde a função de resolver problema.

A degeneração acontece dentro do formulário, sem alterar nenhum indicador de processo da gestão. O volume de ciclos não cai, o prazo de entrega não estoura, a pasta de encerrados não fica vazia.

Um programa morto gera pergunta. Um programa degenerado gera relatório, e relatório gerado no prazo é lido como sinal de saúde.

A consequência prática é que a organização perde a capacidade de resolver problema sem perceber. O gasto com o método continua. O retorno some. O único lugar onde isso fica visível é a taxa de reincidência.

O ponto exato da degeneração: observação fundida com análise

A separação entre a etapa 2 e a etapa 3 é a inovação central do método, herdada do QC Story difundido pela JUSE, e é também a primeira coisa que a prática desfaz. Observação é caracterizar o problema com dado. Análise é explicar por que ele ocorre.

Quando as duas viram uma reunião só, o grupo entra na sala com o problema e sai com a causa. Ninguém foi ao processo, ninguém abriu o dado por turno ou por equipamento, ninguém mediu.

O mecanismo é econômico, não moral. Observar custa dias e não produz conclusão apresentável. Analisar custa duas horas de sala e produz um diagrama bonito. Sob pressão de prazo, a etapa que não entrega slide é a que cai.

A partir daí o método inverte de direção. Em vez de o dado gerar a hipótese, a hipótese seleciona o dado. As etapas 4 a 8 passam a documentar uma decisão tomada antes da etapa 3.

O sintoma verificável é único e fácil de checar: o relatório tem a causa raiz preenchida antes de qualquer estratificação. Se o bloco de causa está completo e o bloco de observação tem só um total mensal, a fusão aconteceu.

O mapa dos modos de falha por etapa

Os doze modos de falha abaixo cobrem quase todo MASP degenerado. Eles não são independentes: a fusão da etapa 2 com a etapa 3 alimenta boa parte dos demais.

A terceira coluna é a mais útil em auditoria, porque é verificável sem entrevistar ninguém. Basta abrir o relatório MASP arquivado.

EtapaFalha típicaSinal no relatórioO que perguntar
1. IdentificaçãoProblema escrito como falta de soluçãoFrase começa com falta deQual perda isso causa, em que unidade?
1. IdentificaçãoMeta sem linha de baseMeta percentual sem valor atualReduzir de quanto para quanto, medido quando?
2. ObservaçãoEstratificação ausenteSó total do períodoComo o problema se distribui por turno?
2. ObservaçãoDado sem ida ao processoNenhum registro de campoQuem foi ver, em que dia, o que registrou?
3. AnáliseIshikawa de palpiteEspinhas sem dado associadoQual evidência sustenta esta causa?
3. AnálisePorquês param em falha humanaÚltima linha cita distraçãoPor que o processo permite esse erro?
4. PlanoAção sem dono e sem prazoColuna de responsável com áreaQual pessoa, até que data?
5. AçãoExecução sem registro de desvioTudo concluído, nada replanejadoO que atrasou e o que foi refeito?
6. VerificaçãoMedição cedo demaisEfeito medido em duas semanasQuantos ciclos de processo cabem nesse prazo?
6. VerificaçãoComparação sem mesma basePeríodos de tamanho diferenteO antes e o depois têm o mesmo volume?
7. PadronizaçãoEtapa puladaBloco vazio ou com a frase equipe treinadaQual documento mudou, e quem foi treinado nele?
8. ConclusãoFormalidade sem pendênciaNada listado como não resolvidoO que ficou de fora e quem assumiu?

Nenhuma dessas falhas impede o relatório de ser aprovado. Todas impedem o problema de sumir.

Etapa 1: problema como falta de solução e meta sem linha de base

A forma mais comum de errar a etapa 1 é escrever a ausência de uma solução no lugar do problema. Falta treinamento, falta padrão, falta sistema, falta gente.

Isso parece definição de problema e não é. É uma solução com sinal trocado. Quem escreve falta treinamento já decidiu que a resposta é treinar, na primeira linha do relatório. As etapas 2 e 3 perdem função.

O teste é mecânico. Um problema bem escrito nomeia o desvio, a unidade de medida, o local e o período. Retrabalho de solda na linha 2 subiu de 3,1% para 5,4% entre março e agosto é um problema. Falta treinamento em solda não é.

O segundo defeito da mesma etapa é a meta sem valor atual. Reduzir refugo em 30%, aumentar disponibilidade, melhorar o atendimento: são intenções. Sem linha de base, nenhum MASP fracassa formalmente, porque não há número contra o qual comparar.

  • Valor atual. Quanto é hoje, medido como, em qual período de referência.
  • Valor alvo. Quanto será, na mesma unidade e no mesmo critério de medição.
  • Prazo. Data em que a comparação será feita, definida antes de começar.
  • Fonte. Onde o número é lido, para que o antes e o depois venham do mesmo lugar.

Dois sinais antecipam o desfecho: verbo de ação corretiva na frase do problema, e alvo percentual sem numerador e denominador explicitados.

Etapa 2: a estratificação que não estratifica

Transformar um total em distribuição é a função inteira da etapa 2. Sem isso, o problema permanece do tamanho da empresa inteira, e qualquer causa cabe dentro dele.

A falha típica é olhar o número agregado do mês e declarar a observação concluída. O relatório mostra 412 ocorrências no semestre e passa direto para o diagrama de causas.

Estratificar é abrir esse total em quatro cortes mínimos: tempo, local, tipo e indivíduo. Cada corte responde uma pergunta diferente, e a pergunta importa mais que o gráfico.

  • Tempo. Concentra em algum turno, dia da semana, horário ou período do mês?
  • Local. Concentra em uma linha, máquina, filial ou posto?
  • Tipo. Concentra em um defeito, código de falha, produto ou cliente?
  • Indivíduo. Concentra em quem executa, em qual equipe, em qual fornecedor?

A concentração é o achado. Quando 70% das ocorrências estão em um turno e em uma máquina, o problema deixa de ser da fábrica e passa a ter endereço. O diagrama de Pareto serve exatamente a isso, e a coleta se apoia em folha de verificação desenhada antes.

Basta um bloco de observação com um número só para antecipar o resto. Um número não é distribuição.

Por que a etapa 2 é a mais difícil de vender internamente

Observar é a única coisa no método que consome prazo sem produzir resposta. Entrega descrição, e descrição não se apresenta bem em reunião de diretoria.

Enquanto isso, a pressão pede ação visível. Quem propõe duas semanas de coleta antes de qualquer contramedida é lido como lento. Quem propõe uma solução na primeira reunião é lido como resolutivo.

O incentivo é claro e aponta na direção errada. A etapa 2 é cara em tempo, barata em dinheiro e invisível no curto prazo. É exatamente o perfil daquilo que some primeiro sob prazo apertado.

O argumento que funciona não é metodológico, é de custo. Uma contramedida errada consome verba, horas e crédito da equipe, e ainda deixa o problema no lugar. Observar duas semanas custa menos que implantar a solução errada uma vez.

Há um segundo argumento verificável: a taxa de reincidência dos MASP fechados sem estratificação é sistematicamente maior. Quem tem esse número em mãos vende a etapa 2 sem discurso.

Etapa 3: o Ishikawa como sessão de palpite

O diagrama de causa e efeito é a ferramenta mais usada e mais mal usada do método. Na forma degenerada, ele registra a opinião da sala e nada além disso.

A sessão típica dura quarenta minutos, preenche as seis categorias, gera de vinte a trinta causas possíveis e termina com uma votação por pontos adesivos. O resultado é uma causa eleita, não uma causa verificada.

O mecanismo da degeneração é a confusão entre gerar hipótese e confirmar hipótese. O diagrama de Ishikawa serve para a primeira função e é inútil para a segunda.

A regra que corrige é simples de auditar: cada espinha levada adiante precisa de um dado associado. Não uma percepção, um dado, com data e fonte. As espinhas sem dado voltam para a fila de verificação.

Quem procura sinal antecipado olha o próprio desenho. Diagrama cheio, com todas as categorias igualmente povoadas, costuma indicar preenchimento por simetria, e não por evidência.

Etapa 3: os cinco porquês que param em falha humana

A segunda falha da análise é a cadeia de porquês que termina em uma pessoa. O operador esqueceu, o analista não conferiu, o técnico não seguiu o procedimento.

Parar ali é confortável porque encerra a investigação com um culpado e uma contramedida barata, que costuma ser reciclagem de treinamento. Também garante que o problema volte.

Tecnicamente, falha humana não é causa raiz: é o ponto onde o processo permitiu o erro. A pergunta seguinte é obrigatória e quase nunca é feita. Por que o processo permite que esse erro aconteça e não seja detectado?

  1. Por que o lote saiu com a etiqueta errada? Porque o operador digitou o código errado.
  2. Por que a digitação errada passou? Porque não há conferência automática contra o pedido.
  3. Por que não há conferência? Porque o sistema aceita código livre no campo.
  4. Por que aceita código livre? Porque o campo foi liberado em 2019 para uma exceção que nunca foi revista.

A contramedida do quarto nível é diferente da contramedida do primeiro, e só uma delas sobrevive à troca de operador. A técnica está em os 5 porquês, e o enquadramento mais amplo em análise de causa raiz.

Há um sinal lexical que dispensa análise mais funda: se a última linha da cadeia contém distração, descuido ou não seguiu, a investigação parou cedo.

Etapa 4: o plano sem dono e sem prazo

Existe um jeito previsível de a etapa 4 falhar. O plano está lá, tem ações corretas, e nenhuma delas tem nome de pessoa e data ao lado.

No lugar do nome aparece uma área: Manutenção, Qualidade, TI. No lugar da data aparece uma condição: após a parada, quando o sistema permitir, próximo ciclo.

Responsabilidade atribuída a área é responsabilidade de ninguém. Prazo condicional é prazo que nunca vence, e o que não vence não entra em pauta de acompanhamento.

O formato do 5W2H existe para fechar essa lacuna, e é aplicado com frequência de forma parcial: preenchem o o quê e o porquê, deixam quem e quando em branco. O plano de ação só funciona com as sete colunas preenchidas.

Esse sinal é contável, o que facilita. Basta dividir o número de ações com pessoa nomeada e data pelo total de ações. Abaixo de 100%, o plano tem buraco conhecido.

Etapa 6: a verificação que não mede, ou mede cedo demais

A etapa 6 degenera de duas formas opostas. Na primeira, não há medição: o bloco traz a frase problema resolvido, ou a percepção da equipe de que melhorou.

Na segunda, há medição, mas antes de o efeito poder aparecer. Uma contramedida implantada em manutenção preventiva é avaliada duas semanas depois, quando o intervalo entre falhas é de dois meses.

O critério é o número de ciclos do processo, não o calendário. A janela de verificação precisa conter ciclos suficientes para que a variação normal não explique a diferença observada.

A comparação também exige a mesma base. Antes e depois com volumes diferentes, mix diferente ou período sazonal diferente produzem qualquer conclusão desejada. Uma carta de controle resolve isso melhor que dois números isolados.

Janela de verificação não declarada antecipa o resultado. Se o relatório não diz quantos ciclos ou qual período foi definido lá na etapa 4, a medição foi improvisada no fim.

Etapa 7 pulada: a razão número um de o problema voltar

A padronização é a etapa mais pulada do método, e é a que separa melhoria de episódio. Sem ela, a solução vive enquanto a equipe original estiver no posto.

A forma degenerada não é o bloco vazio, é o bloco preenchido com a frase equipe treinada. Treinamento sem documento alterado não é padronização: é memória coletiva com prazo de validade.

Padronizar exige três coisas verificáveis. O documento que mudou, com número de revisão e data. As pessoas treinadas na nova revisão, com registro. O ponto de verificação que detecta o desvio depois.

Sem o terceiro item, o padrão existe no sistema e não na prática. A regressão acontece sem evento: o sucessor aprende com o colega, que ensina uma mistura do jeito antigo com o novo. O procedimento operacional padrão é onde isso se materializa.

Esse sinal é documental e não admite interpretação. Se nenhuma revisão de documento foi emitida entre o início e o fim do MASP, a etapa 7 não aconteceu, independentemente do que o relatório afirme. A referência de como um padrão de trabalho é descrito está no Lean Lexicon.

A taxa de reincidência e a conta de resolver três vezes

Entre todos os indicadores possíveis, a taxa de reincidência é o sinal mais confiável de que o MASP degenerou. Ela mede o que o formulário não consegue disfarçar.

A definição operacional é direta: proporção de problemas encerrados que reabrem em até doze meses, no mesmo processo e com o mesmo efeito. Acima de 20%, o programa está resolvendo sintoma.

O custo disso é calculável. O modelo abaixo usa premissas declaradas: perda de R$ 12.000 por mês enquanto o problema está ativo e três meses de duração de cada episódio. Cada ciclo de MASP consome 4 pessoas por 14 horas, hora a R$ 60, mais R$ 4.000 em ações.

Cada ciclo de MASP custa 56 horas de pessoa, ou R$ 3.360, mais R$ 4.000 de ações: R$ 7.360. Cada episódio ativo custa 3 meses vezes R$ 12.000, ou R$ 36.000. Sem padronização, o problema reabre e o par se repete.

Item do custoTrês ciclos sem padronizaçãoUm ciclo com padronizaçãoDiferença
Episódios do mesmo problema em 30 meses312
Perda de processoR$ 108.000R$ 36.000R$ 72.000
Custo dos ciclos de MASPR$ 22.080R$ 7.360R$ 14.720
Padronização e auditoria de aderênciaR$ 0R$ 3.720R$ 3.720 a mais
Total no períodoR$ 130.080R$ 47.080R$ 83.000

A linha da padronização é a que decide tudo. Ela custa R$ 3.720, somando 12 horas de reescrita de documento, 20 horas de treinamento de 10 pessoas e 30 horas de auditoria de aderência ao longo dos 30 meses.

Esses R$ 3.720 equivalem a 4,3% do que os dois episódios extras custaram, e evitam R$ 83.000. O retorno é de 22,3 vezes o investido. Resolver o mesmo problema três vezes sai 2,76 vezes mais caro que resolver uma vez e padronizar.

Etapa 8 como formalidade: a pendência que não é registrada

A etapa 8 é tratada como capa de encerramento. Recebe um resumo do que foi feito, um agradecimento à equipe e a assinatura do gestor.

O que ela deveria conter é outra coisa: o que não foi resolvido. Causas identificadas e não atacadas, ações adiadas por falta de verba, hipóteses que ficaram sem verificação, efeito parcial atingido.

Sem esse registro, a informação mais valiosa do ciclo evapora. O próximo time que enfrentar o mesmo problema recomeça do zero, refaz a mesma estratificação e descarta as mesmas hipóteses.

O mecanismo é cultural. Registrar pendência parece admitir fracasso, e relatório que admite fracasso é lido como MASP malfeito. Então a pendência vira conversa de corredor.

Uniformidade denuncia. Uma pasta em que nenhum dos MASP encerrados lista pendência não indica excelência, indica campo não usado. O ciclo PDCA depende justamente desse resíduo para girar de novo.

MASP em problema de causa conhecida: oito etapas para um kaizen

Há uma falha que não está em nenhuma etapa: aplicar o método ao problema errado. O MASP é caro em tempo e serve a problema crônico de causa desconhecida.

Quando a causa já é conhecida e a solução é evidente, as oito etapas viram encenação. Alguém abre MASP para um sensor descalibrado, preenche observação, desenha Ishikawa e conclui que o sensor estava descalibrado.

O custo é duplo. Gasta-se semanas no que um kaizen de dois dias resolveria, e ensina-se à organização que o MASP é burocracia. A segunda parte é a mais cara, porque contamina o uso legítimo do método.

O critério de triagem cabe em três perguntas feitas antes de abrir o ciclo.

  1. A causa é conhecida com evidência? Se sim, vá direto à ação e registre o padrão.
  2. O problema é recorrente e resiste a tentativas anteriores? Se sim, o MASP cabe.
  3. A variação é o problema central e há dado suficiente para estatística? Se sim, o método DMAIC tende a caber melhor.

A comparação entre os dois caminhos está em MASP x DMAIC, e a escolha por contexto em qual metodologia usar na indústria. A lógica de base é a mesma do ciclo PDCA em qualquer das rotas.

O formulário como produto: quando a auditoria mede preenchimento

Todas as falhas anteriores são sustentadas por um arranjo de gestão. A empresa audita se o formulário foi preenchido, não se o problema sumiu.

A meta do departamento passa a ser número de MASP concluídos no trimestre. O indicador é fácil de medir, aparece bem em painel e é inteiramente controlável pela equipe que o reporta.

O efeito é previsível. Quando a métrica é o documento, o documento melhora. Os relatórios ficam mais completos, mais bem formatados e mais rápidos, e a taxa de reincidência não se move.

Há um agravante de seleção. Sob meta de volume, a equipe escolhe problemas fáceis e de causa conhecida, porque fecham dentro do trimestre. Os problemas crônicos, que justificariam o método, ficam de fora.

A correção é trocar o indicador. Percentual de problemas encerrados que não reabriram em doze meses mede o que interessa e não é manipulável pelo preenchimento.

MASP real contra MASP de formulário

Os pares abaixo aparecem lado a lado porque a diferença entre os dois raramente está na presença do bloco. Está no conteúdo dele.

Elemento do cicloMASP realMASP de formulário
Enunciado do problemaDesvio com unidade, local e períodoFalta de algo, escrito como carência
MetaDe 5,4% para 2,5% até dezembro, fonte declaradaReduzir em 30%
ObservaçãoQuatro cortes com concentração identificadaTotal do semestre em uma linha
Ida ao processoRegistro de campo com data e observadorNenhum
IshikawaEspinhas com dado e data associadosVinte causas e votação por adesivo
Cadeia de porquêsTermina em regra, sistema ou projetoTermina em distração do operador
PlanoPessoa e data em 100% das açõesÁrea responsável e prazo condicional
VerificaçãoJanela em ciclos, definida na etapa 4Duas semanas após a última ação
PadronizaçãoRevisão de documento emitida e treinadaFrase equipe treinada
ConclusãoPendências nomeadas com donoAgradecimento e assinatura
Indicador de programaReincidência em doze mesesMASP concluídos no trimestre
ArquivoConsultado ao reabrir o temaConsultado em auditoria

Um relatório com os doze itens da coluna do meio é raro. Um com oito deles já indica método vivo, porque as colunas se sustentam umas às outras.

Como auditar um MASP de verdade

Auditar método é diferente de auditar documento. Um pergunta se o campo está preenchido. O outro pergunta o que o campo prova.

Sete perguntas separam método de teatro, e nenhuma delas exige conhecer o processo auditado. Todas são respondidas com o relatório aberto na mesa.

  1. A frase do problema contém uma unidade de medida, um local e um período?
  2. A meta tem valor atual e valor alvo lidos na mesma fonte?
  3. Existe estratificação em pelo menos três cortes, com concentração apontada?
  4. Há registro de ida ao processo, com data e quem foi?
  5. Cada causa levada adiante tem um dado associado, e não uma opinião?
  6. Todas as ações têm nome de pessoa e data, sem exceção?
  7. Existe revisão de documento emitida, e algum ponto de verificação depois dela?

Três respostas negativas já caracterizam formulário. A pergunta seis costuma ser a mais reveladora, porque é a única inteiramente objetiva e a que menos depende de interpretação do auditor.

Uma oitava pergunta vale para o programa, não para o relatório: quantos dos problemas encerrados no ano passado reabriram? Esse número dispensa as sete anteriores quando é alto.

Como recuperar um programa que virou formulário

Recuperar não é relançar. Relançar um método que a equipe já considera burocracia reforça a leitura anterior e queima a segunda chance.

A sequência que funciona começa pela evidência, não pelo treinamento. Primeiro se mostra o custo da reincidência, com os relatórios da própria empresa.

  1. Levante a reincidência dos MASP encerrados nos últimos doze meses e nomeie os problemas que voltaram.
  2. Escolha um desses problemas reincidentes e refaça o ciclo com a etapa 2 executada de verdade, com prazo protegido.
  3. Publique a comparação entre o que a estratificação mostrou e o que a análise anterior havia presumido.
  4. Troque o indicador do programa: reincidência em doze meses no lugar de MASP concluídos.
  5. Exija revisão de documento emitida como condição de encerramento, sem exceção.
  6. Só depois amplie para as demais áreas, com o caso interno como referência.

Proteger o prazo da etapa 2 é o item inegociável da lista. Sem isso, o programa volta ao estado anterior em dois ou três ciclos.

Para a operação do dia a dia, um formato único reduz a variação entre times. A planilha MASP e o modelo de relatório MASP em Excel servem para isso, desde que o campo de estratificação seja obrigatório.

As dificuldades na aplicação do MASP se resumem a um deslocamento: o método vira documento quando a observação deixa de ser etapa e passa a ser linha de formulário. Recuperar o programa é devolver prazo àquela etapa.

Perguntas frequentes

Quais são as principais dificuldades na aplicação do MASP?
A dificuldade dominante é a fusão da etapa 2, de observação, com a etapa 3, de análise. A partir dela vêm as demais: problema escrito como falta de solução, meta sem linha de base, Ishikawa sem dado, porquês que param em falha humana, plano sem dono e padronização pulada. O sintoma comum é o relatório completo com o problema intacto.
Como saber se o MASP da empresa virou apenas formulário?
Abra o último relatório encerrado e compare dois blocos. Se o campo de causa raiz está preenchido e o campo de observação traz apenas um total do período, sem estratificação por turno, local, tipo ou pessoa, o método já degenerou. O indicador de programa que confirma isso é a taxa de reincidência em doze meses.
Por que a etapa de observação é tão pulada no MASP?
Porque é a única etapa que consome prazo sem produzir resposta apresentável. Observar entrega descrição, e descrição não rende slide de reunião. Já uma sessão de análise de duas horas entrega um diagrama e uma causa eleita. Sob pressão de prazo, a etapa que não produz conclusão visível é a primeira a ser comprimida.
O que caracteriza um problema mal definido na etapa 1?
Um problema mal definido é escrito como ausência de solução: falta treinamento, falta padrão, falta sistema. Isso embute a resposta no enunciado e esvazia as etapas 2 e 3. O enunciado correto nomeia o desvio, a unidade de medida, o local e o período, sem indicar nenhuma contramedida.
Por que parar os cinco porquês em falha humana é um erro?
Porque falha humana não é causa raiz, é o ponto em que o processo permitiu o erro. A pergunta seguinte é por que o processo permite esse erro e não o detecta. Quem para na pessoa gera contramedida de treinamento, que depende da permanência daquela pessoa e não sobrevive à rotatividade.
Qual o custo de não fazer a etapa 7 de padronização?
No modelo com perda de R$ 12.000 por mês e episódios de três meses, resolver o mesmo problema três vezes em 30 meses custa R$ 130.080. Resolver uma vez e padronizar custa R$ 47.080, incluindo R$ 3.720 de documento, treinamento e auditoria de aderência. A diferença é de R$ 83.000, ou 22,3 vezes o valor investido em padronizar.
Qual indicador mostra que o programa de MASP está degenerado?
A taxa de reincidência: proporção de problemas encerrados que reabrem em até doze meses, no mesmo processo e com o mesmo efeito. Acima de 20%, o programa está tratando sintoma. Número de MASP concluídos por trimestre não serve, porque mede preenchimento e é inteiramente controlável por quem reporta.
Quando não se deve usar o MASP?
Quando a causa já é conhecida com evidência, porque as oito etapas viram encenação e um kaizen curto resolve. Também não cabe quando o problema central é variação com volume de dado suficiente para tratamento estatístico, situação em que o DMAIC costuma render mais. O MASP serve a problema crônico de causa desconhecida.
Que perguntas usar para auditar um MASP de verdade?
Sete perguntas respondidas com o relatório aberto. O problema tem unidade, local e período? A meta tem valor atual e alvo na mesma fonte? Há estratificação em ao menos três cortes? Há registro de ida ao processo? Cada causa tem dado associado? Todas as ações têm pessoa e data? Existe revisão de documento emitida? Três negativas caracterizam formulário.
Como recuperar um programa de MASP que virou burocracia?
Não relance com treinamento. Levante a reincidência dos ciclos encerrados, escolha um problema que voltou e refaça com a etapa 2 executada de verdade, com prazo protegido. Publique a diferença entre o que a estratificação mostrou e o que havia sido presumido, troque o indicador do programa para reincidência e exija revisão de documento no encerramento.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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