Metodologias & Qualidade

FMEA: o que é, como preencher a planilha e como priorizar pelo NPR

A FMEA não ordena os defeitos pelo que acontece mais. Ela ordena pelo que dói mais quando acontece, e é por isso que a lista dela quase nunca coincide com a do Pareto.

Thiago Coutinho
Publicado em 17 de jun de 2020  ·  Atualizado em 10 de set de 2026  ·  27 min de leitura
Thiago Coutinho falando ao microfone de mão em um palco de evento, de blazer escuro sobre camiseta preta e crachá em cordão azul no peito, olhando para o alto à direita diante de um fundo de palco iluminado em roxo e rosa, com o texto FMEA: o que é, como preencher a planilha e como priorizar pelo NPR sobre fundo escuro à esquerda

A FMEA tem uma data em que deixou de ser um exercício técnico e virou papel que alguém vem conferir. Foi em 2006, quando a ISO TS 16949 substituiu a QS9000 na indústria automotiva e a análise dos modos de falha passou a ser passível de auditoria. A partir dali, a planilha parou de ser um recurso que a equipe usava quando queria e virou registro que precisa existir, estar preenchido e ter sido revisado.

Eu trago credencial de auditor líder ISO 9000 pelo IRCA, e uso a planilha desde antes de ela virar item de auditoria. Escrevi o capítulo 28 do livro de Lean Seis Sigma da Voitto, o que me deu a chance de comparar o que a bibliografia manda fazer com o que as equipes de fato fazem quando o auditor não está na sala.

Quem preenche a planilha depois do fato está fazendo o caminho de volta. O caminho de ida é o que este texto percorre: sai da lista de modos de falha, atribui três notas com régua declarada, multiplica, e só então descobre o que fazer primeiro.

Aqui está o ponto que organiza o artigo inteiro. O diagrama de Pareto ordena os defeitos por frequência e mira o volume de retrabalho. A FMEA ordena por risco e mira o dano que chega ao cliente. Os dois estão certos ao mesmo tempo, e um projeto de Lean Seis Sigma maduro usa os dois na mesma fase de análise.

Cinco fichas preenchidas acompanham o artigo, uma por setor, em PDF. Cada uma traz a ordem do Pareto ao lado da ordem do índice de risco, com a linha que trocou de lugar destacada e a explicação da troca.

Antes de você abrir a primeira, a procedência. As cinco fichas são material CONSTRUÍDO para ensino, e não o registro de uma FMEA arquivada por uma equipe de projeto. O que foi transcrito do case, o que saiu de conta declarada e o que é julgamento meu vai discriminado item a item na caixa PROCEDÊNCIA DE CADA NÚMERO, no rodapé de cada ficha.

O que é FMEA e o que a sigla quer dizer

FMEA é a sigla de Failure Mode and Effects Analysis, em português Análise dos Modos de Falha e seus Efeitos. É a ferramenta que identifica, hierarquiza e previne falhas potenciais de um produto ou processo, atribuindo a cada falha uma nota de severidade, uma de ocorrência e uma de detecção.

O verbo do meio é o que separa a ferramenta das outras análises de defeito. No capítulo 28 do Guia Prático Lean Seis Sigma, na seção 28.5, eu registro que ela “tem como objetivos identificar, hierarquizar e prevenir falhas em potencial de um produto ou processo” (p. 375). Identificar se faz numa reunião de brainstorming. Hierarquizar é o passo que quase ninguém faz com régua, e é o que a FMEA entrega.

A mesma página acrescenta que ela “ajuda a aumentar a confiabilidade e facilitar a rastreabilidade das ações necessárias para a mitigação dos riscos”. Rastreabilidade, aqui, quer dizer que cada ação do plano aponta para uma linha da planilha, e cada linha aponta para uma causa que alguém escreveu.

A FMEA se organiza em torno de quatro perguntas encadeadas, e é útil decorá-las nessa ordem, porque a planilha inteira é a resposta delas:

TermoPergunta que ele responde
Modo de falhaDe que modo o processo pode falhar em cumprir com a sua função?
EfeitoQual o efeito do modo de falha para o cliente?
CausaQual a causa do modo de falha?
ControleQual o controle atual existente para evitar que a causa do modo de falha ocorra?

Repare que só a segunda pergunta olha para fora. Essa assimetria explica boa parte do que vem depois: a severidade mede o que o cliente sente, enquanto ocorrência e detecção medem o que a operação faz.

Diagrama das quatro perguntas da FMEA em cadeia: causa, modo de falha e efeito em sequência, com o controle atual ligado à causa, e só o efeito do lado do cliente.
As quatro perguntas na ordem dos fatos, que não é a ordem de preenchimento da planilha.

Uma confusão de vocabulário precisa ser desfeita. Modo de falha é a forma como a coisa dá errado dentro do processo: item trocado, peso fora da faixa, tarifa divergente. Efeito é o que o cliente vive por causa disso: devolução, autuação, contestação de fatura. Planilha que mistura os dois na mesma coluna não atribui nota nenhuma com convicção.

Se a sua lista de causas ainda não existe, ela não nasce dentro da planilha. Ela vem de um diagrama de Ishikawa ou de uma sequência de 5 porquês feita antes. A FMEA recebe essa lista pronta e faz outra coisa com ela: coloca em ordem de risco.

De onde veio a FMEA, do Exército americano à norma que a tornou auditável

A história ajuda a entender por que a FMEA tem a cara que tem. O livro conta a linha do tempo na seção 28.5.1, na p. 377, em cinco marcos. O sexto é posterior à edição do livro e entra aqui porque mudou quem cobra o quê.

  1. 1949: o Exército americano formaliza a primeira metodologia de análise de modos de falha.
  2. Início da década de 1960: a indústria aeroespacial adota a ferramenta no desenvolvimento de novos produtos.
  3. 1994: a SAE publica a norma SAE J1739, que padroniza o formato.
  4. Na sequência: a QS9000, criada por Ford, Chrysler e GM, dissemina a ferramenta na cadeia automotiva.
  5. 2006: a ISO TS 16949 substitui a QS9000 e torna a análise passível de auditoria.
  6. 2016: a IATF 16949 substitui a ISO/TS 16949 e passa a ser a norma automotiva em vigor, com a análise de risco entre os requisitos.

Uma ferramenta nascida em contexto militar e aeroespacial carrega o viés do berço: ali a falha rara e catastrófica importa mais que a frequente e barata. Um parafuso que solta uma vez em dez mil voos pesa mais que um painel que descasca a cada dez. É essa hierarquia que a nota de severidade codifica, e é por isso que ela contraria a intuição de quem vem da produção seriada.

Logo depois do histórico, na subseção 28.5.2, o livro apresenta o gráfico que explica de onde vem essa preocupação com o raro: a curva da banheira, redesenhada abaixo.

Gráfico da curva da banheira em três trechos: mortalidade infantil com taxa de falha decrescente, falhas aleatórias com taxa estável e baixa, e desgaste com a taxa voltando a subir.
A taxa de falha não é constante ao longo da vida útil, e é a terceira fase que justifica o viés da FMEA pelo raro.

Saber em qual dos três trechos o produto está muda a resposta da análise: o modo de falha que domina a mortalidade infantil não é o mesmo que domina o desgaste.

O marco de 2006 é o que muda o comportamento das pessoas: quando um documento vira objeto de auditoria, aparece a FMEA preenchida por obrigação. O sintoma mais fácil de checar é a coluna de controle atual descrevendo procedimentos que ainda não existem.

Como preencher a planilha de FMEA em 12 passos

A seção 28.5.3 do livro, na p. 380, lista doze etapas de construção da FMEA. Reproduzo a lista com o comentário do que eu já vi dar errado em cada uma delas.

  1. Identificar o processo e descrever sua função e requisitos, usando o mapa de processo como apoio. Um SIPOC resolve esse passo em uma folha, e sem ele a equipe discute fronteira de escopo durante metade da primeira reunião.
  2. Levantar todos os modos de falha potencial, etapa por etapa. É aqui que se decide o tamanho da planilha: um processo inteiro rende dezenas de linhas, e um único subprocesso rende cinco.
  3. Listar todos os efeitos das falhas potenciais. Um modo pode ter mais de um efeito, e nesse caso vale a nota do efeito mais grave.
  4. Determinar a severidade de cada efeito, por uma nota atribuída pelo impacto daquele efeito.
  5. Listar as causas potenciais de cada modo. É o insumo que vem do Ishikawa ou da análise de causa raiz.
  6. Determinar a ocorrência das causas, com uma nota de acordo com a frequência com que a causa acontece.
  7. Listar os controles atuais do processo, verificando se já existe mecanismo que identifique ou previna a falha. A palavra atual é a que a maioria ignora.
  8. Caso o controle já exista, determinar a detecção das causas por esses controles atuais.
  9. Calcular o RPN, que no Brasil também aparece como NPR, multiplicando as três notas.
  10. Desenvolver o plano de ação para os modos de falha com índice alto, o que já pertence à etapa de Melhoria.
  11. Tomar ações efetivas, ainda na etapa de Melhoria.
  12. Calcular o novo índice de risco, já na etapa de Controle.

Os passos de 1 a 3 são de levantamento, os de 4 a 9 são de pontuação, e os de 10 a 12 são de ação. A maioria das planilhas que eu vejo para em 9: índice calculado, nenhuma linha de plano. O índice existe para empurrar a primeira ação da fila para fora do papel.

O passo 7 tem uma consequência prática que a régua de detecção precisa refletir: um controle que detecta depois do fato vale menos que um que impede antes. Um poka yoke que trava a operação errada puxa a nota para 1 ou 2. Uma conferência visual no fim da linha fica em 7 ou 8.

Severidade, ocorrência e detecção: de onde sai cada nota

As três notas da FMEA vão de 1 a 10, e cada uma pergunta uma coisa diferente. Severidade pergunta quanto dói. Ocorrência pergunta com que frequência acontece. Detecção pergunta qual a chance de o defeito passar pelos controles atuais sem ser pego.

O Quadro 28.1 do livro, na p. 380, dá os descritores das três colunas de uma vez:

PontuaçãoSeveridadeOcorrênciaDetecção
1Mínima, o cliente mal percebe que a falha ocorreuRemota, dificilmente ocorre a causa da falhaMuito grande, certamente será detectada
2 ou 3Pequena, ligeira deterioração no desempenho e leve descontentamentoPequena, de 10 a 100 PPMGrande, probabilidade de ser detectada é alta
4 a 6Moderada, deterioração significativa no desempenhoModerada, de 500 a 5.000 PPMModerada, provavelmente será detectada
7 ou 8Alta, o sistema deixa de funcionar e há grande descontentamentoAlta, de 10.000 a 20.000 PPMPequena, provavelmente não será detectada
9 ou 10Muito alta, idêntica à anterior, porém afeta também a segurançaMuito alta, acima de 50.000 PPMMuito pequena, certamente não será detectada

As cinco fichas declaram a régua de ocorrência em incidentes por mil unidades, seguindo a escala da AIAG na quarta edição, enquanto o quadro acima está em partes por milhão: mesma grandeza, unidade diferente. Nas faixas altas as duas concordam, e a nota 8 fica em 20 por mil, que são os 20.000 PPM do quadro. A divergência aparece na parte baixa da escala, e está declarada aqui de propósito.

A régua por mil que as fichas usam é esta, e o critério de leitura é sempre o mesmo: vale a faixa cujo limiar é o maior valor menor ou igual à taxa observada.

Nota de ocorrênciaIncidentes por mil unidades
10100 ou mais
950
820
710
65
52
41
30,5
20,1
1menos de 0,01

A taxa exige duas coisas: contagem de ocorrências e denominador de unidades produzidas na mesma janela. A contagem sai da folha de verificação ou do Pareto, e o denominador sai do Project Charter ou do sistema que registra volume. Faltando o denominador, a nota de ocorrência vira chute.

A régua de severidade que as fichas aplicam separa cinco faixas por natureza do dano, e não por valor financeiro. As notas 9 e 10 ficam reservadas a segurança e requisito legal. As 7 e 8 marcam perda da função primária. As 5 e 6 cobrem função secundária ou retrabalho. As 3 e 4 são aparência, e as 1 e 2, ausência de efeito.

Essa escolha tem uma consequência que incomoda: um defeito caríssimo mas interno recebe severidade baixa. Perder cem mil reais por mês repintando peça dentro da fábrica é gravíssimo para o resultado e irrelevante para o cliente, que nunca vê a peça. Quem quiser ordenar por dinheiro tem o Pareto.

A régua de detecção é a que mais gente preenche errado, porque a intuição inverte o sentido da escala: nota alta é ruim. Como ela entra multiplicando, um controle fraco sozinho joga uma linha de risco médio para o topo da lista.

  • 9 ou 10: o controle atual quase não detecta o defeito.
  • 7 ou 8: detecção baixa, o defeito só aparece depois do fato.
  • 5 ou 6: detecção moderada.
  • 3 ou 4: detecção alta.
  • 1 ou 2: o defeito não passa pelo controle.

Falta combinar como fechar as notas quando a equipe é grande. Pontuar em separado e só depois comparar os números revela onde o entendimento diverge. Numa auditoria de linha, o supervisor encerrou uma divergência dessas com uma frase só: “mas isso a gente já pega no fim da esteira”. O controle que ele descrevia não estava em procedimento nenhum, e ninguém do escritório sabia dele. Fechar a nota por média aritmética apaga justamente essa informação.

Como calcular o NPR e o que esse número não diz

A conta é uma multiplicação simples, e o livro a registra na p. 380 como parte do nono passo: RPN igual a severidade vezes ocorrência vezes detecção. Em português a sigla costuma aparecer como NPR, número de prioridade de risco. É o mesmo índice.

Como cada fator vai de 1 a 10, o resultado vai de 1 a 1.000. Uma linha com severidade 8, ocorrência 7 e detecção 8 dá 448, e outra com severidade 6, ocorrência 4 e detecção 8 dá 192. A primeira vem antes na fila.

Agora a parte que quase nenhum material menciona. As três notas são escalas ordinais, e não de quantidade. A distância entre 7 e 8 em severidade não é a mesma que entre 2 e 3. Multiplicar escalas ordinais produz um número cuja aritmética não significa o que parece significar.

Disso decorrem três consequências práticas, e a fórmula sozinha não resolve nenhuma delas:

  • NPR 400 não é o dobro de risco de NPR 200. É apenas uma posição mais alta na fila.
  • Combinações muito diferentes dão o mesmo número. Severidade 10, ocorrência 4 e detecção 5 dá 200, e severidade 5, ocorrência 8 e detecção 5 também dá 200. A primeira envolve segurança e a segunda não.
  • Um NPR baixo com severidade 9 ou 10 é caso especial. A prática consagrada manda tratar severidade alta isoladamente, porque risco de segurança não se compensa com raridade.

Essa crítica não é nova nem exclusiva da FMEA: é a mesma objeção estatística que se faz a qualquer índice construído multiplicando notas de escala, e a matriz GUT recebe a mesma. A resposta não é abandonar o índice, e sim lembrar para que ele serve: o NPR ordena, não mede.

Na prática, use o NPR para montar a fila e a coluna de severidade para conferir a fila. Se alguma linha com severidade 9 ou 10 ficou abaixo da metade da lista, ela sobe por decisão explícita, com a justificativa escrita ao lado. É o que a gestão de riscos madura faz em qualquer setor.

A própria indústria automotiva já abandonou o índice. O AIAG e VDA FMEA Handbook, na 1ª edição, de junho de 2019, trocou o RPN pela Prioridade de Ação, a AP, que classifica cada linha em alta, média ou baixa a partir da combinação das três notas, e não do produto delas. Se a sua empresa fornece para a cadeia automotiva, é a AP que o cliente vai cobrar. Nos demais setores o NPR segue sendo o ordenador mais usado.

Há ainda a pergunta do corte. Não existe valor mágico de NPR, apesar de muita gente repetir 100 ou 125 como se fosse regra. O corte razoável é o que a equipe consegue executar no ciclo do projeto, e a matriz de risco ajuda a enxergar onde ele cai.

Pareto e FMEA respondem a perguntas diferentes

Chegamos à tese do artigo. O Pareto responde qual defeito aparece com mais frequência; a FMEA responde qual deles custa mais caro quando aparece. São perguntas legítimas e produzem listas diferentes, o que confunde muita equipe na fase Analyze, onde a expectativa é que as duas concordem. O desacordo é informação.

Diagrama de ParetoFMEA
PerguntaO que acontece mais?O que dói mais quando acontece?
Ordena porFrequência observadaSeveridade vezes ocorrência vezes detecção
EntradaContagem de defeitos por categoriaModos, efeitos, causas e controles atuais
AlvoVolume de retrabalho e custo internoDano ao cliente e risco que vaza
Olha paraO passado registradoO potencial ainda não realizado

A última linha da tabela é a mais importante e a menos comentada. O Pareto só enxerga o que já foi contado. A FMEA aceita modos de falha que ainda não aconteceram nenhuma vez, desde que sejam plausíveis. Uma linha com ocorrência 2 e severidade 10 é perfeitamente válida, e o Pareto nunca a mostraria.

Quando o desacordo aparece, ele quase sempre tem uma de três causas. Ou o defeito frequente é interno e visível, e pontua baixo em severidade e em detecção. Ou o defeito raro atinge segurança ou requisito legal, e pontua alto em severidade. Ou o controle atual falha justamente onde o defeito sai da empresa.

As cinco fichas a seguir mostram esse desacordo em cinco setores. Cada uma traz as duas ordens lado a lado, com a posição antiga marcada, e um bloco que explica a troca. A gente construiu as cinco com a mesma régua, o que permite comparar setores.

Clique na miniatura para abrir a peça inteira e baixar o PDF. O formulário de FMEA em branco, para preencher com o processo da sua área, está no kit de ferramentas Lean Seis Sigma.

1. Logística: o volume errado sai do centro de distribuição e ninguém percebe

Planilha FMEA de centro de distribuição com cinco modos de falha de separação de pedidos, notas de severidade, ocorrência e detecção, e as ordens do Pareto e do NPR lado a ladoComece pelo caso em que a troca de posição é de uma casa só, porque ela é a mais fácil de enxergar. O projeto é de redução de erros de separação de pedidos num centro de distribuição em São Paulo, e a folha de Pareto do case, o arquivo 04_Pareto_LSS_Voitto_EXEMPLO_Logistica.txt, traz 1.340 erros registrados no sistema de gestão de armazém no baseline de agosto de 2026.

O denominador vem do Project Charter do mesmo case: 48 mil pedidos expedidos por mês, com janela do Pareto de um mês. Com contagem e denominador, cada modo de falha ganha taxa por mil, e a taxa vira nota de ocorrência pela régua da AIAG.

No Pareto, a ordem é item trocado com 578 ocorrências, quantidade divergente com 402, item faltante com 187, etiqueta ou volume errado com 94, e item avariado na separação com 54. É a fila que qualquer pessoa montaria olhando para o volume de retrabalho.

No índice de risco, a terceira e a quarta posições trocam. Etiqueta ou volume errado sobe para terceiro com 192, e item faltante desce para quarto com 175, mesmo tendo o dobro de ocorrências. A explicação está na coluna de detecção: o volume errado sai do centro de distribuição sem que nada o pegue, enquanto a falta de um volume aparece na contagem da conferência final.

Repare no efeito prático dessa troca. Se a equipe atacasse a lista pela frequência, priorizaria conferência de contagem, que é o controle que já funciona. Atacando pela fila do NPR, ela vai atrás da leitura de código na coleta, que é onde não existe barreira nenhuma.

As duas primeiras linhas não se movem, e isso também é informação: item trocado lidera as duas filas, com NPR 448. Quando um modo de falha ganha nas duas réguas, a decisão é trivial e ninguém precisa de planilha nenhuma para tomá-la. O valor da ferramenta está nas linhas que se mexem. O contexto completo do projeto está no case de logística.

2. Produção de elevadores: o primeiro do Pareto é o último do NPR

Planilha de modos de falha e efeitos de linha de montagem de portas de elevador, com cinco modos, notas atribuídas pela escala AIAG e comparação entre a ordem de frequência e a ordem de riscoNa linha de portas de pavimento de Joinville, um trabalho de redução de retrabalho contabilizou 1.045 portas retrabalhadas no trimestre de dez/25 a fev/26, em três linhas de montagem, segundo a folha de Pareto do case. O denominador vem do Project Charter, cerca de 3.000 portas por mês, o que dá 9.000 portas no trimestre.

Dano de pintura na movimentação é o primeiro do Pareto, com 342 ocorrências, 33% do trimestre. No índice de risco ele é o último dos cinco, com 160. Nenhuma outra ficha tem uma queda tão longa.

A razão está nas três notas ao mesmo tempo. A severidade fica em 5, porque o dano é interno e a porta não sai da fábrica assim. A detecção fica em 4, porque risco na pintura é o defeito mais visível da lista. Só a ocorrência é alta, e sozinha ela não segura a linha no topo.

Quem assume o primeiro lugar é a folga entre porta e batente acima de mais ou menos 1,5 milímetro, com 289 ocorrências e NPR 448. Ela era a segunda do Pareto. A diferença é que essa porta viaja para a obra dentro de um kit fechado, e a folga só se revela na montagem em campo, fora da fábrica.

A lição desta ficha é sobre onde o defeito é descoberto. Um defeito caro que morre dentro do galpão é um problema de custo. Um defeito barato que chega ao cliente é um problema de risco. A planilha separa os dois com clareza, e essa separação é o que faz as duas ordens discordarem aqui.

3. Financeiro: o modo de falha menos frequente é o que vira passivo fiscal

Planilha de modos de falha e efeitos do faturamento de obras, com quatro modos de medição, notas de severidade, ocorrência e detecção e a comparação entre a ordem do Pareto e a ordem do NPREsta ficha mostra o efeito de um denominador pequeno. O arquivo 04_Pareto_LSS_Voitto_EXEMPLO_Financeiro.txt traz 111 apontamentos em 55 medições glosadas no trimestre de novembro de 2025 a janeiro de 2026, dentro de um projeto de redução de medições glosadas. O Project Charter registra cerca de 130 medições por mês, o que dá 390 medições apresentadas no trimestre.

Com um denominador dessa ordem, taxas por mil ficam altíssimas. O modo quantitativo contra memória de cálculo, com 40 ocorrências, chega a 102,6 por mil, o que puxa a nota de ocorrência para 10, o teto da escala. É a mesma régua da ficha de logística aplicada a um volume muito menor, e o resultado é uma planilha inteira empurrada para cima.

A troca de posição acontece no terceiro lugar. Erro de impostos e retenções é o último dos motivos nomeados no Pareto, com 12 apontamentos contra 31 de documentação obrigatória incompleta. No índice de risco ele sobe para terceiro, com 512. Falta de anexo é devolução e reapresentação, e imposto recolhido errado é passivo fiscal com efeito fora do contrato, o que leva a severidade para 8.

O case do setor financeiro descreve o projeto inteiro, e aqui interessa o detalhe que fecha o raciocínio: a parametrização de impostos por contrato está desatualizada e nenhuma etapa da montagem confere a alíquota aplicada. O sistema calcula sozinho e o valor sai plausível, o que é a definição de defeito indetectável.

4. Alimentício: quando o instrumento que detecta é o que falha

Planilha FMEA de linha de envase de biscoitos com cinco pares de modo e causa, notas atribuídas pelo descritor qualitativo de ocorrência e ordens de Pareto e NPR comparadasO projeto ataca o sobrepeso no envase de biscoitos, e a folha de Pareto registra 214 ocorrências de ajuste manual de dosagem na janela de coleta do projeto, somando os três turnos.

Antes dos números, uma diferença de método precisa ficar clara. A folha de Pareto deste case conta eventos de ajuste, e não unidades produzidas. Não existe denominador de pacotes na fonte. Por isso a nota de ocorrência desta ficha sai do descritor qualitativo da escala, e não de uma taxa calculada. Está declarado no cabeçalho da peça, e é o tipo de coisa que precisa aparecer na planilha, não numa conversa.

A segunda diferença é que esta folha ordena causas, e não modos de falha. Cada linha da ficha é, portanto, um par de modo e causa, com dois modos distintos em jogo: peso acima da faixa e peso abaixo do nominal. Sem essa explicitação, a peça pareceria ter cinco modos quando tem dois.

A balança descalibrada aparece com 16 ocorrências, 7,5% do Pareto, fora dos poucos vitais por qualquer critério de corte. No índice de risco ela é a primeira, com 486, à frente da deriva de dosagem nos bicos 5 a 8, que tem 92 ocorrências e NPR 432.

O motivo é duplo e vale decorar. Primeiro, ela é a única causa da lista que produz subpeso, e subpeso não é dinheiro perdido: é conformidade metrológica, com risco de autuação e recolhimento de lote. A severidade vai para 9, a única severidade 9 de toda a ficha. Segundo, o controle que deveria pegar o desvio é o próprio instrumento que está fora, o que leva a detecção para 9.

Essa segunda parte é a lição geral. Quando o instrumento que deveria detectar é o que falha, a nota de detecção sobe junto com a de severidade, e as duas se multiplicam. É a situação que produz os maiores índices de risco de qualquer planilha, e ela passa despercebida em qualquer análise que olhe só para frequência.

Compare com a última linha da ficha: velocidade de linha alterada, com 10 ocorrências e NPR 120. A alteração de velocidade é a única causa da lista que o supervisório registra, e é por isso que a detecção dela fica em 4. No case da indústria alimentícia está o restante do projeto, com a folha de Pareto que deu origem a estas linhas.

5. Serviços: a matriz de causa e efeito já tinha avisado

Planilha de modos de falha e efeitos do faturamento em centro de serviços compartilhados, com quatro modos, notas de severidade, ocorrência e detecção e as duas ordens de priorizaçãoA quinta ficha fecha a série, e o deslocamento aqui é pequeno: nem todo desacordo entre Pareto e risco é dramático. O projeto é de redução de erros de faturamento num centro de serviços compartilhados. O arquivo Pareto_Modos_Falha_CSC_Voitto_EXEMPLO.txt registra 3.540 faturas com erro entre janeiro e junho de 2026, em categorias do plano de coleta com estudo de sistema de medição aprovado.

O denominador do Project Charter é de 9.500 faturas por mês, o que dá 57.000 faturas emitidas na janela de seis meses. As taxas por mil ficam moderadas, entre 5,8 e 26,7, e a planilha inteira se acomoda numa faixa estreita de notas de ocorrência.

A troca é entre terceiro e quarto lugares. Valor de medição divergente, com 330 ocorrências, sobe uma posição e passa item ou serviço incorreto, que tem 460. A diferença de índice é pequena, 294 contra 288, e vale dizer isso em voz alta: seis pontos de diferença em escala ordinal não sustentam nenhuma decisão sozinhos.

O que sustenta a decisão é o raciocínio por trás da nota. O apontamento de medições variáveis é o item de menor pontuação da matriz de causa e efeito do projeto, com 44 pontos, o último dos oito. Ninguém confere aquele número antes de faturar, e é exatamente por isso que a nota de detecção fica alta.

Guarde esse padrão, porque ele se repete fora deste case: o processo que ficou por último na priorização anterior costuma ser o que tem controle mais fraco, e controle fraco puxa detecção para cima. O case de serviços compartilhados detalha o restante da análise.

PFMEA, DFMEA e onde a análise entra no DMAIC

Os tipos de FMEA se separam pelo objeto avaliado, e o livro registra dois deles na p. 380.

SiglaNomeQuando se usa
PFMEAProcess Failure Mode and Effect AnalysisQuando o que está sendo avaliado é um processo e seus riscos.
DFMEADesign Failure Mode and Effect AnalysisQuando se avaliam as falhas possíveis na implementação de novos produtos ou processos.

O livro registra na página seguinte que o foco do Lean Seis Sigma normalmente é maior na PFMEA. Faz sentido: projetos de melhoria trabalham sobre processos que já existem e já produzem defeitos contados. As cinco fichas deste artigo são todas PFMEA, e duas delas em processo administrativo.

A versão voltada ao projeto do produto aparece antes, com ele ainda no papel. É parente próxima do trabalho de engenharia de confiabilidade e usa a mesma planilha com outra entrada: estimativa de taxa de falha no lugar de contagem de defeitos. Aí a nota de ocorrência é a mais frágil das três, porque não existe histórico para ancorá-la.

Sobre o lugar da FMEA no DMAIC, o livro traz uma figura, a 28.22, que a estende por quatro das cinco fases. Redesenhei as quatro bandas dela com o que cada uma pede da planilha:

Faixa das cinco fases do DMAIC com Definir em cinza e Medição, Análise, Melhoria e Controle em vermelho, cada uma com a entrada que a FMEA fornece à fase.
A planilha entra na Medição e só sai no Controle. Definir fica de fora porque é a fase que entrega o dado que ela consome.

Vale dizer o que a figura não diz. A FMEA não substitui a fase Define nem dispensa o plano de coleta: ela consome dados que outras etapas produziram. Quem abre a planilha antes de ter contagem e denominador preenche a coluna de ocorrência com impressão.

A revisão merece um parágrafo próprio, porque este é um documento vivo. Toda vez que um controle entra ou sai, as notas de detecção mudam e a fila muda com elas. Amarrar a revisão ao plano de controle resolve isso: quando o plano muda, a planilha é reaberta.

Depois do NPR: como a planilha vira plano de ação e controle

O primeiro movimento é converter cada linha escolhida em ação com dono e prazo. Um 5W2H por linha resolve, e a vantagem dele aqui é obrigar a responder onde e como, que são as duas perguntas que a análise deixa em aberto por natureza.

O segundo movimento é decidir sobre qual dos três fatores a ação vai atuar, e essa decisão muda o tipo de solução que sai dela:

Fator atacadoTipo de açãoEfeito no processo
OcorrênciaEliminar ou controlar a causa raizReduz a geração do defeito. É o ganho que se sustenta.
DetecçãoCriar ou reforçar controle, com poka yoke, checklist ou inspeçãoReduz o vazamento, mas o defeito continua sendo produzido.
SeveridadeAlterar projeto, material ou especificaçãoReduz o dano quando a falha ocorre. Costuma exigir engenharia.

O terceiro movimento é sustentar. Um controle que depende de alguém lembrar dura poucas semanas. Escrever a regra num procedimento operacional padrão e definir a reação ao desvio num OCAP transforma a ação em rotina. Quando a variável é contínua, a carta de controle entra como instrumento de monitoramento, dentro do controle estatístico de processo.

O quarto e último movimento é o passo 12: recalcular. Com as ações em vigor, você reabre a planilha e atribui as notas de novo. A severidade em geral não muda, a ocorrência cai se você atacou a causa, e a detecção cai se você criou controle. O novo índice é a evidência de eficácia que o auditor vai pedir.

Se o projeto também tinha meta de capacidade, o recálculo combina bem com uma medição de capabilidade do processo antes e depois: uma mostra que o risco priorizado caiu, a outra mostra que a variação total acompanhou.

Sete erros que esvaziam uma planilha de FMEA

Estes sete aparecem com frequência suficiente para virar checklist. Nenhum deles é sofisticado, e todos custam caro, porque produzem uma fila de prioridade errada com aparência de rigor.

  1. Preencher de trás para frente. A equipe já sabe qual ação quer aprovar e ajusta as notas até aquela linha chegar ao topo. O sintoma é a coluna de detecção toda em 8 ou 9.
  2. Escrever controle que não existe. A coluna se chama controle atual: procedimento em elaboração e sistema em implantação não entram, e colocá-los infla a detecção e derruba o índice de todas as linhas.
  3. Atribuir ocorrência sem denominador. Sem o volume produzido na mesma janela da contagem, a taxa não sai e a nota vira impressão pessoal.
  4. Misturar modo, efeito e causa na mesma coluna. A linha acaba com notas incompatíveis, porque o avaliador oscila entre pensar no processo e pensar no cliente.
  5. Tratar o índice como grandeza. Comparar 300 com 150 como se fosse o dobro leva a decisões de alocação de recurso que o número não sustenta.
  6. Ignorar severidade alta com índice baixo. É o mais perigoso da lista: esconde justamente o risco que a FMEA nasceu para pegar.
  7. Parar no cálculo. Planilha ordenada que não gera plano de ação vira diagnóstico sem tratamento, e é o desfecho mais comum de todos.

Se você está começando agora, a sequência que menos dá errado é esta: levante os defeitos com uma folha de verificação, ordene por frequência no Pareto, ache as causas no Ishikawa, e só então abra a FMEA para reordenar por risco. As 7 ferramentas da qualidade cobrem os três primeiros passos.

Por fim, guarde a régua junto com a planilha. Daqui a um ano, quem reabrir o arquivo vai precisar saber o que significava 7 em detecção naquela equipe. Em projetos de análise de riscos, é esse registro que permite comparar duas rodadas separadas por meses.

Se você for aplicar isso num projeto real, te convido a conhecer as academias de certificação da Voitto, onde eu trato o DMAIC completo, do baseline ao controle. A FMEA aparece lá no lugar em que ela rende: dentro da fase de análise, depois do Pareto e do Ishikawa.

Perguntas frequentes

O que significa a sigla FMEA?
FMEA é a sigla de Failure Mode and Effects Analysis, traduzida como Análise dos Modos de Falha e seus Efeitos. É a ferramenta que identifica, hierarquiza e previne falhas potenciais de um produto ou processo, atribuindo a cada uma notas de severidade, ocorrência e detecção.
Como se calcula o NPR?
O NPR, também chamado de RPN, é o produto das três notas: severidade vezes ocorrência vezes detecção. Como cada fator vai de 1 a 10, o índice varia de 1 a 1.000. Ele serve para ordenar a fila de prioridade, e não para medir quanto risco existe em termos absolutos.
Quais são os tipos de FMEA?
Os dois tipos mais usados são a PFMEA, de processo, e a DFMEA, de projeto. A PFMEA analisa um processo que já existe e seus riscos, e é a mais usada em projetos Lean Seis Sigma. A DFMEA analisa as falhas possíveis quando novos produtos ou processos estão sendo implementados, ainda na fase de projeto, e por isso trabalha com estimativa de taxa de falha em vez de contagem histórica.
Existe um valor de NPR a partir do qual a ação é obrigatória?
Não existe limiar universal, apesar de valores como 100 ou 125 serem repetidos como se fossem regra. O corte razoável é o que a equipe consegue executar no ciclo do projeto. A exceção consagrada é a severidade alta: linhas com nota 9 ou 10 nesse fator merecem tratamento próprio, mesmo com índice final baixo.
Onde consigo uma planilha de FMEA para preencher?
Este artigo traz cinco fichas preenchidas em PDF, uma por setor, que servem de modelo pronto: clique na miniatura para abrir a peça inteira e baixar o arquivo. O formulário em branco, para preencher com o seu processo, está no kit de ferramentas Lean Seis Sigma, junto com os das demais ferramentas citadas no texto.
Com que frequência a planilha deve ser revisada?
Sempre que um controle entrar ou sair do processo, porque a nota de detecção muda e a ordem de prioridade muda junto. Amarrar a revisão às alterações do plano de controle é a prática que funciona melhor, e o recálculo do índice depois das ações é a evidência de eficácia que a auditoria costuma pedir.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

Veja também

Conteúdos de Metodologias & Qualidade

Materiais, resumos e podcasts para você se aprofundar no tema.

Ver todos os conteúdos de Metodologias & Qualidade