Metodologias & Qualidade

Lean Seis Sigma: o que é, como funciona o DMAIC e um projeto de ponta a ponta

O método, as 25 ferramentas por fase, um projeto de logística com o número de cada etapa e o que decide a implantação numa empresa

Thiago Coutinho
Publicado em 30 de set de 2020  ·  Atualizado em 8 de out de 2026  ·  19 min de leitura
Thiago Coutinho, de camiseta preta, lê o livro Guia Prático Lean Seis Sigma na Voitto, com o texto Lean Seis Sigma: o que é, como funciona o DMAIC e um projeto de ponta a ponta sobre fundo escuro à esquerda

Eu conheci o Seis Sigma na Votorantim Metais, na unidade de zinco, quando ainda estava aprendendo a ler um chão de fábrica. Fiz o White Belt já liderando um projeto, o que foge do roteiro: nessa faixa a pessoa costuma ajudar quem conduz. Aprendi o Lean Seis Sigma na marra, errando e batendo cabeça. Foi ali que eu entendi a distância entre conhecer as ferramentas e saber em que ordem usar cada uma.

Esta página é a que eu gostaria de ter lido naquela época. Ela explica o que é o método e o que o Lean e o Seis Sigma trazem, cada um, para dentro dele. Mostra também como as cinco fases do DMAIC se encadeiam num projeto inteiro, com o número de cada etapa. Depois vem a parte que decide se o método dá resultado numa empresa: implantar, escolher bem o problema e saber quando não usar.

O exemplo que atravessa o texto é um projeto de logística do kit da Voitto, num centro de distribuição que errava 2,8% dos pedidos. Cada documento desse projeto abre aqui mesmo, preenchido. No fim estão as 25 ferramentas em branco e os cases dos outros setores, para você baixar e usar como modelo.

O que é Lean Seis Sigma

Lean Seis Sigma é um método de melhoria de processos que junta duas tradições. Do Lean vem a eliminação de desperdício e a busca por fluxo. Do Seis Sigma vem a redução da variação com base em dados e estatística. Os projetos seguem o roteiro DMAIC: Definir, Medir, Analisar, Melhorar e Controlar.

Em inglês o nome é Lean Six Sigma, e muita gente abrevia como LSS. O método é o mesmo nas duas línguas, com o mesmo roteiro e as mesmas faixas de formação.

No meu livro, o Guia Prático Lean Seis Sigma, o capítulo 11 trata do tema. Ele abre na página 85 com a imagem que resume o método: “imagine conseguir unir o que há de melhor nas duas metodologias: redução de desperdícios do Lean e aumento da precisão do Seis Sigma”. Repare nas duas palavras que carregam a ideia. Desperdício é tempo e esforço que o cliente não paga. Precisão é o processo entregar o mesmo resultado toda vez.

O mesmo capítulo localiza o método dentro da empresa, e essa é a parte que mais gente pula. Entre o nível estratégico, que define as metas, e o operacional, que roda a rotina, existe o nível tático. Na página 87 está escrito: “É nesse nível que o LSS está inserido, pois é nele que se trabalha com melhoria de processos e alavancagem de resultados”.

Na prática isso significa uma coisa simples. Um projeto bom nasce de uma meta da empresa que o processo atual não consegue entregar. Quando ele nasce de uma ferramenta que alguém quer testar, costuma morrer na fase de medição.

O método também tem limites claros. Ele não substitui a gestão da rotina, e é lento demais para problema cuja causa a equipe já conhece. Esses limites aparecem mais adiante, na seção sobre quando usar e quando escolher outro caminho.

Lean e Seis Sigma: o que cada metade traz para o método

As duas metades nasceram em lugares diferentes e respondem a perguntas diferentes. O Lean Manufacturing tem como base o Sistema Toyota de Produção e olha para o fluxo: quanto tempo o produto passa parado esperando alguém trabalhar nele. O Lean Enterprise Institute guarda a formulação dos cinco princípios do pensamento enxuto, propostos por Womack e Jones em 1996.

A metodologia Seis Sigma nasceu na Motorola nos anos 1980 e olha para a variação do resultado. O capítulo 10 do livro, na página 76, conta que a empresa adotou como meta para todas as atividades “3,4 partes por milhão de unidades com defeito”. A ASQ, a sociedade americana de qualidade, mantém uma das referências mais consultadas sobre o método.

DimensãoLeanSeis Sigma
O que deixa o processoEficienteEficaz
O que atacaDesperdícioVariação e defeito
Pergunta de partidaOnde o produto fica parado?Por que o resultado muda de um lote para outro?
Dado típicoTempo de cada etapa e lead timeMedições do resultado ao longo do tempo
Ferramenta símboloMapa de fluxo de valorAnálise estatística da causa

Do lado Seis Sigma vem a disciplina de não aceitar opinião como causa. O projeto só sai da análise quando um dado confirma a hipótese, e é aí que entra a estatística do Seis Sigma: teste de hipóteses, correlação, capabilidade. Do lado Lean vem a pergunta que o Seis Sigma sozinho não faz, sobre o tempo em que nada acontece com o produto.

As duas primeiras linhas da tabela vêm da Figura 11.2 do livro, que separa o eficiente do eficaz. As outras três são leitura minha. A Figura 11.3, logo depois, mostra por que a combinação faz sentido: um processo com muita variação e tempo alto melhora a variação com o Seis Sigma e só depois ganha velocidade com o Lean.

No dia a dia, as duas perguntas aparecem misturadas. O pedido atrasa porque ficou parado, e também porque precisou ser refeito. Por isso o método junta as duas caixas de ferramentas num roteiro só. Quando o problema é claramente de um tipo só, vale ler a comparação completa em Lean ou Seis Sigma, que mostra os sinais de cada um no chão de fábrica.

DMAIC: as cinco fases de todo projeto, com as ferramentas de cada uma

O capítulo 18 do livro abre na página 143 com uma frase direta: “O DMAIC é o framework mais adotado para a execução de projetos Lean Seis Sigma”. São cinco fases, e cada uma termina com uma pergunta respondida e um documento assinado. A passagem de fase com o patrocinador, que o mercado chama de tollgate, é o que impede o projeto de pular etapa.

O kit da Voitto organiza 25 ferramentas na ordem do método DMAIC. A tabela abaixo cruza cada fase com a pergunta que ela fecha, as ferramentas do kit e os documentos que o case de logística preencheu. Clique no nome do documento para abrir o exemplo preenchido.

FasePergunta que fecha a faseFerramentas do kitPreenchidas no case de logística
DefinirQual é o problema, em número, e quanto vale resolver?01 Project Charter; 02 VOC → CTQProject Charter
MedirQuanto o processo erra hoje, e o dado é confiável?03 SIPOC; 04 Fluxograma; 05 VSM; 06 Plano de coleta; 07 Folha de verificação; 08 MSA; 09 Capabilidade; 10 Nível sigmaSIPOC, VSM, plano de coleta, MSA e nível sigma
AnalisarOnde o problema se concentra e qual causa foi provada?11 Pareto; 12 Ishikawa; 13 5 Porquês; 14 Matriz causa e efeito; 15 Dispersão; 16 Teste de hipóteses; 17 FMEAPareto, Ishikawa, 5 Porquês, matriz causa e efeito e dispersão
MelhorarQue solução ataca a causa, a que custo, e funcionou no piloto?18 Matriz esforço × impacto; 19 Poka-yoke; 20 Plano de ação 5W2HEsforço × impacto, poka-yoke e 5W2H
ControlarComo o ganho continua depois que o projeto acaba?21 POP; 22 Plano de controle; 23 Carta de controle; 24 OCAP; 25 Lições aprendidasPlano de controle, OCAP e apresentação executiva

Repare que o case não preencheu as 25. Ele traz 16 documentos de ferramenta e mais a apresentação de encerramento. Escolher a ferramenta pela pergunta da fase faz parte do método, e o próprio livro insiste nisso. Projeto que usa todas as ferramentas do kit para mostrar serviço costuma ser o que demora mais e prova menos.

Um projeto de ponta a ponta: o CD que errava 2,8% dos pedidos

O projeto abaixo é o case de logística da Academia de Especialistas da Voitto. Ele é um caso ilustrativo, com dados fictícios, e o rodapé de cada documento diz isso. Serve de molde de leitura: mostra como o número de uma fase vira a entrada da fase seguinte. Nenhum valor dele deve ser lido como resultado de uma empresa real.

Definir: o problema em número, sem a solução embutida

Project Charter preenchido do projeto de redução de erros de separação no centro de distribuição de São Paulo, em duas páginas. Mostra o business case com 48 mil pedidos por mês e erro de 2,8%, a declaração do problema sem causas, a meta de 2,8% para 1,0%, o escopo, os indicadores, a equipe com a dedicação de cada um e o cronograma das cinco fases do DMAIC.O centro de distribuição de São Paulo expedia 48 mil pedidos por mês e errava a separação em 2,8% deles. A referência interna era 0,8%. Os erros custavam cerca de R$ 74 mil por mês em reentrega, devolução e ressarcimento, e geravam 210 reclamações mensais. O OTIF estava em 91%.

O enunciado do problema no charter descreve tudo isso sem citar causa nem solução. Ninguém escreveu “falta scanner” ou “treinar o turno da noite”. A meta ficou assim: reduzir o erro de 2,8% para 1,0% até 11/12/2026, sem perder produtividade nem prazo de expedição.

O charter também amarra o que costuma ficar no ar. O orçamento aprovado era de R$ 30 mil. O Green Belt líder tinha 50% do tempo dedicado ao projeto, o Champion 10% e os três membros entre 15% e 20%. Transporte, entrega e troca do sistema de gestão do armazém ficaram fora do escopo, por escrito.

Medir: um dado em que dá para confiar

A fase de medição começou pelo plano de coleta, com seis medidas definidas por escrito e extração diária de 100% dos cerca de 2.200 pedidos por dia. A folha de verificação no coletor passou a exigir turno, rua, SKU, tipo de item e modo de falha. Foi esse detalhe que permitiu ao Pareto, semanas depois, apontar onde o erro morava.

Antes de fechar a linha de base, a equipe fez o que o Seis Sigma cobra de todo projeto: testou o próprio sistema de medição. Na análise do sistema de medição, três conferentes classificaram os mesmos pedidos às cegas, com erros plantados. A concordância ficou em 93% e o Kappa em 0,81, acima do critério de 0,75. Só então os 2,8% viraram ponto de partida oficial.

Dois números completam o retrato. Em nível sigma, os 2,8% equivalem a 28.000 defeitos por milhão, perto de 3,4σ, e a meta leva o processo a cerca de 3,8σ. No mapa de fluxo de valor, o pedido levava cerca de 4,2 horas da liberação ao embarque. Só 24 minutos disso eram trabalho de alguém, o que dá eficiência de uns 10%.

Analisar: onde o erro se concentra e por que ele acontece

Gráfico de Pareto dos 1.340 erros de separação do mês por modo de falha. Item trocado com 578 e quantidade divergente com 402 somam 73,1%. Abaixo, a estratificação dos erros vitais por tipo de item e por turno.É nesta fase que o lado Seis Sigma do método aparece com mais força. O Pareto dos 1.340 erros do mês separou o problema em poucos vitais. Item trocado somou 578 ocorrências, ou 43,1%. Quantidade divergente somou 402, ou 30,0%. Juntos, os dois modos respondiam por 73,1% dos erros.

A estratificação de segundo nível fechou o cerco. Dos 980 erros vitais, 568 eram de itens fracionados, 58% do total. O turno da noite concentrava 461, ou 47%. O problema deixou de ser “a separação erra” e passou a ser “a coleta de fracionados no turno 3 erra”.

O Ishikawa levantou as causas possíveis e a matriz de causa e efeito as pontuou contra os indicadores do charter. A linha de corte foi de 120 pontos, num máximo de 270. Três causas ficaram bem acima dela. A primeira foi o picking feito pela descrição do item, sem leitura do código de barras (240). Depois vieram os SKUs parecidos guardados lado a lado (188) e a falta de trava de quantidade no coletor (150).

Os 5 Porquês, feitos no próprio armazém, chegaram a duas causas-raiz. A primeira: o scan obrigatório na coleta tinha sido desligado num pico de demanda em 2023, como medida “temporária”. Ninguém revisava mudanças emergenciais no sistema, e a trava nunca voltou. A segunda: a meta do turno media só linhas por hora, e foi isso que justificou desligar a confirmação de quantidade.

Hipótese de causa-raiz precisa de prova, e o case trouxe duas. Na rua 7, com o scan religado, o erro caiu de 4,1% para 1,2% na semana do teste. No turno 3, com a trava de quantidade ativa, as divergências caíram 61%. O diagrama de dispersão de 14 separadores mostrou R² de 0,93 entre velocidade e divergência. O próprio documento avisa que correlação não prova causa, e quem confirmou o mecanismo foi o teste com a trava.

Esse é o trecho do case que eu mostraria a qualquer gestor de operação. A trava desligada “por uma semana” ficou três anos fora do ar, e ninguém na gestão sabia. Quantas travas temporárias existem hoje no seu processo?

Melhorar: solução escolhida por impacto, testada em piloto

A matriz de esforço e impacto avaliou dez soluções. Seis foram implantadas, quase todas baratas. O scan obrigatório e a confirmação de quantidade custaram R$ 0, porque eram parametrização do sistema. A conferência cega por código de barras custou R$ 8,6 mil. O reendereçamento das ruas 5 a 9 ficou em R$ 14,8 mil, e a identificação por cor em R$ 3,2 mil. O total ficou em R$ 27,4 mil, abaixo do teto de R$ 30 mil.

O piloto rodou três semanas nas ruas 5 a 9. O erro caiu de 4,1% para 1,3%, uma redução de 68%. A produtividade caiu 1,8%, dentro do limite de 3% que o charter tinha fixado. Esse limite escrito no começo é o que evitou a discussão de sempre sobre velocidade contra qualidade.

O poka-yoke do projeto foi do tipo que impede o erro. A tarefa de fracionados só avança com o código certo lido e a quantidade confirmada, com dupla confirmação acima de 10 unidades. Impedir sai mais barato que inspecionar, porque o erro é barrado no endereço e não na conferência ou no cliente.

Controlar: o ganho que continua depois do projeto

Plano de controle com sete itens. Quatro causas críticas monitoradas por travas no sistema e o indicador final acompanhado em gráfico p semanal, cada item com responsável e plano de reação, além do quadro de passagem para a operação.O plano de controle tem 7 itens. Quatro deles vigiam as causas (scan ativo, quantidade confirmada, nenhum par de SKUs parecidos lado a lado e conferência cega funcionando). O resultado final é acompanhado num gráfico p semanal no quadro de gestão à vista.

Cada item aponta para uma reação definida antes do problema aparecer. O OCAP do projeto manda verificar a medição em 15 minutos, conter em 2 horas e diagnosticar em 24 horas, com escalonamento ao Champion no mesmo prazo. Os procedimentos novos viraram POP, a dona do processo foi nomeada e o Green Belt acompanha o gráfico por 90 dias.

O ganho financeiro projetado é de R$ 576 mil por ano. O documento registra que ele ainda precisa ser validado pelo Financeiro no fim da fase de controle. Esse cuidado é deliberado. Ganho que a controladoria não reconhece contamina o programa inteiro.

Apresentação executiva de encerramento do projeto, em 13 slides: contexto, meta, cronograma das cinco fases, medição, análise de causas, soluções, resultado do piloto, controle e lições aprendidas.A apresentação executiva conta o projeto inteiro em 13 slides, do contexto às lições aprendidas. As três lições são as que eu repetiria para qualquer setor. Solução temporária vira permanente quando ninguém revisa. Meta desbalanceada produz o erro que depois se paga no cliente. E piloto vem antes de escalar.

A versão narrada do projeto, com o raciocínio de cada passagem de fase, está no case de Lean Seis Sigma na logística.

Faixas e papéis: quem faz o quê no programa

As faixas classificam o papel de cada pessoa no projeto, do White ao Master Black Belt. O livro faz a ligação com os níveis da empresa na página 88. O Master Black Belt fica no estratégico. Black e Green Belts lideram projetos no tático. E o operacional recebe o treinamento básico para executar a rotina nova.

  • Sponsor: o diretor que patrocina o projeto e remove obstáculo que o Belt sozinho não remove.
  • Champion: o gestor da área, que acompanha as passagens de fase e assume o processo no fim.
  • Master Black Belt: cuida do programa, forma os Belts e orienta os projetos mais difíceis.
  • Black Belt: conduz projetos complexos, entre áreas, e costuma formar outros Belts.
  • Green Belt: conduz um DMAIC completo na própria área, como no case de logística.
  • Yellow e White Belt: participam dos projetos e resolvem problemas menores da rotina.

No case, o Green Belt teve metade do tempo, o Champion 10% e os membros uma parte da semana reservada. Como referência geral, o Green Belt dedica cerca de 20% a 30% do tempo a projetos, e um projeto prioritário pode pedir mais, como nesse case. Prazos de formação, escopo e estatística exigida em cada faixa estão no mapa completo das faixas do Lean Seis Sigma.

Como implantar Lean Seis Sigma numa empresa

A implantação é onde a maior parte dos programas se perde, e quase nunca por falta de estatística. O livro, na página 93, diz que “para a implementação do LSS são estabelecidos sete passos”. Eles são, na ordem:

  1. Lançamento do programa.
  2. Entrevista com a alta e a média gestão.
  3. Reunião com o Sponsor do programa.
  4. Treinamento para a alta gestão e os Champions.
  5. Treinamento dos Green Belts e Black Belts.
  6. Acompanhamento dos projetos.
  7. Certificação.

Repare que a liderança é treinada antes dos Belts. É essa ordem que dá ao Belt alguém com quem negociar quando o projeto mexer no trabalho de outra área.

A carteira de projetos nasce da meta da empresa

Na MRS Logística, onde fui trainee e depois coordenador de operações, eu vivi o desdobramento de metas do presidente até o coordenador. Cada nível sabia qual número era seu e de onde ele vinha. Foi lá que eu vi o valor de um projeto de melhoria pendurado numa meta desdobrada. Ele tem patrocinador antes de ter charter.

O mapeamento de oportunidades parte desse desdobramento. Procure os indicadores que a empresa já cobra e não consegue mover: custo de retrabalho, refugo, devolução, prazo de atendimento, reclamação. Em seguida aplique três filtros. A causa é desconhecida? O problema é crônico? Dá para medir em semanas?

Tempo do Belt, patrocínio e fórmula do ganho entram no papel

Belt que toca projeto nas brechas da rotina não termina projeto. O percentual de dedicação precisa estar no charter, com o gestor direto de acordo, como estava no case de logística. O mesmo vale para o patrocinador. Se ele falta às primeiras passagens de fase, o projeto perde a autoridade para atravessar resistência.

A terceira assinatura é a do Financeiro. O ganho precisa ser calculado do jeito que a controladoria aceita, e combinado antes da medição. As categorias mais usadas são as do custo da má qualidade: retrabalho, refugo, capacidade parada, inspeção em excesso e devolução. Programa cujo ganho é cortado pela metade na validação fica com fama de exagerado.

Em serviços, o primeiro trabalho é tornar o processo visível

Em empresas de serviço o método funciona igual, mas o começo é mais difícil. O livro traz três números da literatura na página 92. Custos com a não qualidade em serviços “podem chegar a 50% do orçamento”. Muitas empresas têm só 10% do lead time dedicado ao que o cliente enxerga como valor. E cerca de 90% do esforço vai para espera, retrabalho, movimentação e inspeção.

O obstáculo é que o produto em processo fica invisível. Não há peça parada na bancada, há um pedido parado numa fila de sistema. A recomendação da Cristina Werkema, citada no mesmo capítulo, é definir sem ambiguidade o que é defeito antes de medir qualquer coisa. Repare que o case de logística faz exatamente isso no MSA: defeito é o pedido com pelo menos um erro de item ou quantidade.

Os sinais de que o programa está derrapando

Quase todo programa que perde crédito deu sinal antes. Os mais comuns aparecem em reunião, sem precisar de estatística:

  • Meta escrita antes de existir linha de base.
  • Medição usada sem teste do sistema de medição.
  • Análise em que nenhuma hipótese da equipe foi derrubada pelo dado.
  • Implantação direta, sem piloto e sem comparação.
  • Plano de controle sem reação definida e sem dono depois que o Belt sai.
  • Programa medido pelo número de certificados, e não pelo ganho auditado.

O primeiro projeto define a reputação do programa

O primeiro projeto de um programa novo vale mais pela reputação do que pelo ganho. Escolha um problema pequeno o bastante para fechar no prazo e grande o bastante para a diretoria notar. Ele precisa passar nos três filtros e ter o ganho combinado com o Financeiro antes de começar.

Conduza com rigor visível, mostrando inclusive as hipóteses que o dado derrubou. E volte ao indicador seis meses depois do encerramento. A prova de que o programa funciona é o número que continua no lugar quando ninguém mais está olhando.

O livro chama atenção para uma ferramenta que ajuda em todos eles, o Mapa de Raciocínio. É um documento que registra as perguntas, as ferramentas e as respostas do projeto. Na página 94 o texto lembra que ele “é preenchido durante o projeto e não ao final dele”.

Quando usar o método e quando escolher outro caminho

O método é caro em tempo. O case de logística foi planejado para cinco meses, de julho a dezembro, com seis pessoas no charter. Esse investimento só se paga quando o problema pede descoberta de causa com dado. Antes de abrir projeto, faça três perguntas.

SituaçãoCaminho mais indicado
Causa desconhecida, problema crônico e dado disponível ou coletávelProjeto com DMAIC
Três pessoas de turnos diferentes apontam a mesma causaAção direta ou Kaizen, em semanas
A linha está parando hojeContenção primeiro, análise depois
O produto passa a maior parte do tempo parado em filaFerramentas de fluxo do Lean
O dado não existe e não dá para criar em semanasMontar a coleta antes de abrir o projeto

A primeira pergunta é se a causa já é conhecida. Quando é, o DMAIC gasta meses para confirmar o que a operação dizia no primeiro dia. A segunda é se o problema é crônico ou uma emergência, que pede contenção. A terceira é se existe dado, ou se dá para coletar sem esperar um sistema novo.

O case de logística passa nas três. O charter registra que as causas-raiz não eram conhecidas: o sistema anotava o erro, mas ninguém tinha estratificado as ocorrências por turno, rua e tipo de item. O problema vinha de janeiro de 2025 a junho de 2026, portanto era crônico. E o dado estava no sistema do armazém, faltando só separá-lo. Se o gerente do CD já soubesse que o scan estava desligado, bastaria religar na segunda-feira, sem projeto nenhum.

Quando o problema é de fluxo puro, a estatística do Seis Sigma consome semanas sem necessidade, e um mapa de fluxo de valor resolve mais rápido. Recusar projeto é a decisão mais barata de um programa, e a menos praticada. A árvore completa de decisão, com 5S, Kaizen, MASP, PDCA e os outros caminhos, está em qual metodologia de melhoria escolher.

Que resultado esperar: 13 projetos em 13 setores

Um projeto bem conduzido move um indicador que a empresa cobra, prova isso com piloto e deixa um controle no lugar. A forma do resultado muda muito de um setor para outro. Em hospital é espera, em manutenção é tempo de reparo, no financeiro é medição glosada.

A tabela reúne os 13 cases do kit, todos ilustrativos e com dados fictícios, como o de logística. Cada artigo conta o projeto inteiro e abre os documentos preenchidos daquele setor.

SetorO que o projeto moveu
Saúde45% menos espera no pronto atendimento
Logística68% menos erro de separação no piloto
Serviços58% menos erro de faturamento
FarmacêuticoDescobriu que 41% do lead time era fila no laboratório
AlimentícioSobrepeso de 3,4% para 1,6% no piloto
ManutençãoTempo médio de reparo de 6,8 h para 3,4 h
ManufaturaExemplo guiado do kit, sem artigo próprio no blog
Sustentabilidade31% menos resíduo por m² na obra
Hotelaria42% menos tempo para liberar o quarto
FinanceiroMedições glosadas de 14,2% para 5,9%
MarketingLeads que viram visita de 8,4% para 14,8%
Produção de elevadoresMostrou que o atraso não estava na fábrica
Manutenção de elevadoresTaxa de retorno de 28,4% para 14,7%

O que os 13 têm em comum vale mais do que o percentual de cada um. Todos partem de uma linha de base medida antes da meta. Todos testam a solução em piloto antes de levar para a operação inteira. E todos terminam com um plano de controle e um dono nomeado. Um ganho de Seis Sigma sem essas três coisas é o tipo de resultado que some quando o projeto acaba.

Dois cases da lista terminam com uma descoberta. No farmacêutico e na produção de elevadores, a análise mostrou que o problema estava num lugar diferente do que todo mundo apontava. Esse também é um resultado, e muitas vezes o mais valioso, porque evita investir no lugar errado.

O kit: 25 ferramentas e 13 cases para baixar

O que vem no kit: as 25 ferramentas do DMAIC em PDF preenchível, na ordem da tabela acima, do Project Charter às lições aprendidas. Junto vem o e-book Guia de Certificação. Os 13 cases ficam nos artigos de cada setor, com os documentos preenchidos e a apresentação executiva do projeto.

Baixe o Kit de Ferramentas Lean Seis Sigma, sem custo.

A forma de usar que eu recomendo é a mesma da tabela de fases. Abra o case do setor mais parecido com o seu e leia o documento preenchido. Depois preencha a ferramenta em branco com o seu processo. Um modelo pronto ensina mais sobre o nível de detalhe esperado do que qualquer explicação.

Para quem quer ir além das ferramentas, o livro tem 536 páginas e cobre o método do mindset ao controle estatístico. O que tem em cada parte, e para quem ele serve, está na página do Guia Prático Lean Seis Sigma.

Escolha um problema crônico da sua área, escreva o enunciado em número e sem a solução embutida, e comece pelo charter. O primeiro projeto é o que mais ensina, e é também o que dá gás para o segundo.

Perguntas frequentes

O que é Lean Seis Sigma?
É um método de melhoria de processos que junta o Lean, voltado a eliminar desperdício e dar fluxo, com o Seis Sigma, voltado a reduzir variação com dados e estatística. Os projetos seguem as cinco fases do DMAIC: Definir, Medir, Analisar, Melhorar e Controlar.
Lean Six Sigma e Lean Seis Sigma são a mesma coisa?
Sim. O primeiro é o nome em inglês, e o segundo, a forma usada no Brasil. A sigla LSS vale para as duas. O roteiro DMAIC, as ferramentas e as faixas de formação são os mesmos.
Qual a diferença entre Lean e Seis Sigma?
O Lean deixa o processo mais eficiente, atacando desperdício e tempo parado. O Seis Sigma deixa o processo mais eficaz, atacando variação e defeito com dados. O método usa as duas caixas de ferramentas no mesmo projeto.
Quais são as fases do DMAIC?
São cinco. Definir o problema e a meta em número. Medir o processo com um dado confiável. Analisar até provar a causa-raiz. Melhorar com solução testada em piloto. Controlar para o ganho continuar depois do projeto. Cada fase fecha com uma passagem formal pelo patrocinador.
Quanto tempo leva um projeto Lean Seis Sigma?
Depende do escopo e da faixa de quem conduz. O projeto de logística usado como exemplo nesta página foi planejado para cinco meses, de julho a dezembro. A coleta de dados costuma ser a parte que menos aceita atalho.
Lean Seis Sigma funciona em empresa de serviços?
Funciona, com um cuidado a mais no começo. Em serviços o trabalho em processo é invisível e o dado costuma não existir, então o primeiro passo é definir sem ambiguidade o que é defeito. Os 13 cases do kit incluem saúde, financeiro, marketing e hotelaria.
Onde baixar as ferramentas de Lean Seis Sigma?
O kit de ferramentas da Voitto traz as 25 ferramentas do DMAIC em PDF preenchível, sem custo. Os exemplos preenchidos de 13 setores estão nos artigos de case do blog, com a apresentação executiva de cada projeto.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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